menina sentada em um banco embaixo de uma árvore

Conto: No dia em que ele me olhou

menina sentada em um banco embaixo de uma árvore

Passei o ano inteiro admirando aquele que jamais me notou. Perdi as contas de quantas vezes me arrumei antes de ir para a aula só pensando em impressioná-lo e o resultado era sempre o mesmo, ou seja, nenhum. Ele continuava cercado de amigos e AMIGAS, sem perceber minha existência. Mas naquele dia o universo me ajudou, quer dizer, mais ou menos.

Último dia de aula, última prova e o último sinal de beleza não existia mais. O cabelo tinha brigado com o pente, as olheiras pareciam dois socos, um em cada olho, e a roupa? Um mendigo ganhava fácil.

Terminei a prova e fiquei esperando as minhas amigas saírem para, finalmente, comemorarmos o início das férias. Dez minutos depois de ter sentado naquele banco uma das amigas dele veio em minha direção

Florzinha, o Thi quer falar com você.

Quem?

O Thi – Ela apontou na direção dele e ele sorria para mim.

O meu coração foi lá nos pés e voltou. Boca seca, mão gelada, “dor” no peito. Um médico diria que eram sintomas de infarto, talvez fosse. A amiga foi embora e eu fiquei lá sentada pensando no que fazer. Ele me olhava com expectativa, esperando uma reação minha, eu precisava agir. Colocar em prática um conselho que minha mãe sempre me dizia: “Minha filha, não desperdice as oportunidades”.

Acredito que ela nunca falou aquilo pensando que eu fosse aplicá-lo naquela situação, mas cada um usa o conselho de acordo com a sua necessidade. Levantei do banquinho e parti na direção dele. Meus passos pareciam o andar de uma pata manca. A faxineira certamente passou sabão no piso, não era possível. Tentei manter o equilíbrio e andar normalmente sem que minhas pernas tremessem tanto. Felizmente, cheguei até ele sem cair, mas jamais seria contratada para o desfile de inauguração da coleção primavera/verão das roupas produzidas pela minha vizinha costureira.

Sabe quando você passa a madrugada decorando o que falar numa apresentação de três minutos que poderá lhe render até dois pontos na média e na hora, naquele pequeno espaço de tempo, dá um branco? Pois é, deu branco. Perdi as contas dos diálogos imaginários que eu e minha mente tivemos com ele, e lá estava eu, sem conseguir dizer nem um simples “Oi”.

– Senta aí – ele falou.

Foi necessário ele falar o óbvio para eu perceber que estava em pé olhando pra ele sem dizer nada.

E aí, gostou da prova?

Gostei.

Respondi e não fui capaz de perguntar: “E você?” Uma coisa simples que possibilitaria um início de conversa.

Vai ter uma festa na minha casa mais tarde, se quiser aparecer lá?

Ok.

Agora preciso ir que o pessoal tá me esperando.

Tá bom.

Ele saiu e eu fiquei me dando socos internos. Como a pessoa é capaz de desperdiçar a chance da vida?

Quando as meninas saíram contei a novidade e elas se animaram com a festa. Combinei com Mari e Letícia para ir dormir na minha casa. Ficaria melhor pra escolhermos as roupas e comentar todos os acontecimentos pós-festa.

Saímos de casa às 21h com a minha mãe.

Mãe, é por aqui.

Ela quer me ensinar. Tá vendo que não é por aí, essa rua não tem saída menina.

Resumindo, minha mãe se perdeu e só conseguimos chegar na festa às 23h. Assim que cheguei vi Thiago. Não, ele não estava me esperando. Se beijava com uma “amiga”, a mesma que veio falar comigo mais cedo. Tudo bem. Estou bem. Nada aconteceu. Eu não queria ficar com ele mesmo, tô nem aí. Eu repetia isso para as minhas amigas. Elas fingiam acreditar e eu demonstrava uma felicidade muito acima do normal, completamente forçada.

Já em casa me arrependi de ter convidado as meninas para dormir lá. Tudo o que eu queria era chorar sozinha até me sentir melhor ou ficar com dor de cabeça, sei lá. Mas naquele exato momento eu precisava chorar e não queria que ninguém visse. Esperei elas dormirem e me acabei. O choro não podia ser alto e mesmo silencioso, foi sofrido e demorado. No outro dia ainda tive que acordar mais cedo. O meu rosto precisava desinchar antes que elas acordassem.

Se o seu encontro for semelhante ao meu, não convide suas amigas pra ir dormir na sua casa, talvez você precise de um momento para chorar sozinha.

2 comentários em “Conto: No dia em que ele me olhou

Deixe seu comentário