Amostra: Miga, querem roubar meu crush

 

Capítulo 1

Cartas de amor

 

À primeira vez que me senti apaixonada por alguém, eu tinha 12 anos. Às 11h40 da manhã, na saída da escola, meu amigo Paulinho me esperava no canteiro, do outro lado da rua.

– Oi. O que está fazendo aqui? – falei, me aproximando.

– Quero te entregar isso que uma pessoa mandou.

Paulinho esticou a mão e peguei algo que parecia ser uma carta. Ele subiu na sua bicicleta e foi embora. Olhei, por alguns segundos, aquele envelope branco e depois virei. Na parte de trás estava escrito: Do seu Admirador Secreto. Uma descarga de adrenalina diante daquelas palavras me fez sentir o famoso frio na barriga.

Abro ou não? Será que é melhor deixar para ler em casa? Talvez seja mais seguro. Leia logo isso, Eduarda! Minha mente trabalhava a todo vapor e eu abri.

A carta me enchia de elogios: “a princesa linda que roubou meu coração”; “a mais linda da cidade”; “meu coração dispara só em te ver”. E, no final, ele concluía, “sei que você é muito nova, mas posso esperar até completar 15 anos para começarmos a namorar”.

O amor era algo totalmente desconhecido para mim, mas, quando li Admirador Secreto, me apaixonei imediatamente pela pessoa daquela carta.

Meu primeiro impulso foi guardar o envelope dentro da ­mochila. Parecia que eu estava com a prova de um crime nas mãos e a solução mais eficaz que encontrei foi escondê-la antes que alguém visse.

Fui andando até a minha casa e tentei agir naturalmente, mesmo parando três vezes para olhar se a carta continuava lá dentro.

Quando cheguei, meu irmão ouvia música na sala e corri direto para o meu quarto. Demorei muito tempo pensando no que iria fazer com a carta e, de repente, ouvi o barulho do portão se abrindo. Minha mãe!

Corri para o banheiro com mochila e tudo. Tomei o banho mais rápido da minha vida. Mas, como tudo que você tenta esconder parece ganhar tom verde-limão numa paisagem rosa-choque, ela resolveu me esperar no meu quarto.

Dei um grito quando a vi deitada na cama.

– O que é isso, menina? – minha mãe falou assustada.

Tentei inventar alguma coisa.

– Sei lá, mãe. A Senhora deitada aí, parecia morta.

Nunca fui muito boa para mentira de improviso.

– Nossa, Eduarda! Que pensamento é esse, minha filha?

Soltei a mochila de leve no chão, mas ela percebeu.

– Levou a bolsa da escola para o banheiro por quê? Tem alguma coisa aí que ninguém pode ver?

Mães e seus poderes sobrenaturais de perceberem as mentiras dos filhos.

– Não… levei… quer dizer… levei e não.

– Como é, Eduarda?

– Eu levei. E não estou escondendo nada. Foi sem querer, quando percebi já estava no banheiro com ela.

Quem acreditaria naquela história? Não sei. Minha mãe não acreditou. Ela apertou os olhos e me observou como se tentasse descobrir a mentira. Comecei a falar sobre a aula para desviar o assunto e funcionou. Ela desistiu de me colocar contra a parede e agradeci. Meu coração apaixonado não aguentava mais tantas emoções em um só dia.

À tarde, eu precisava estudar matemática para uma prova que teria no outro dia, mas, com dois minutos de estudo, meu pensamento desviou para meu admirador e não encontrei o x, y ou z de jeito nenhum.

Minha mãe voltou do trabalho à noite, e me chamou para ir ao mercado com ela. Impulsionada pela possibilidade de encontrar meu Admirador Secreto, mesmo sem conhecê-lo, desisti de estudar e fui.

Encontrei Paulinho na sessão de biscoitos. Ele ficou nervoso quando me viu. Será que Paulinho sabia do conteúdo da carta?

– Quem mandou aquilo, Paulinho?

– Eu não posso dizer.

– Mas você é meu amigo. Eu quero saber quem mandou. Diga logo!

– Eu prometi e não posso contar, Duda.

Saí com raiva de Paulinho.

Minha mãe já estava no caixa. Entreguei meus biscoitos e fiquei esperando ela pagar. Fomos andando para casa. Tentei agir normalmente e conversar com ela sobre coisas aleatórias, mas não consegui. Minha cabeça estava concentrada em descobrir a identidade do meu amado. Observei todos os meninos que encontrei pela frente. O último foi o rapaz da bicicleta. Ele vinha distraído e grudei meus olhos nele para tentar descobrir se ele era o meu admirador. No começo, ele sorriu; depois, fez cara de assustado e começou a pedalar mais rápido. Acho que exagerei.

Depois do jantar, coloquei a carta dentro de um porta-joias antigo e escondi no meu guarda-roupa embaixo de uns lençóis. Não consegui mais estudar e a prova foi um pesadelo.

Um mês, após o recebimento da carta, o segredo permanecia. Numa manhã, acordei mais cedo e li a carta três vezes. Escondi novamente, me arrumei e fui para aula. No caminho da escola, um pensamento fez minhas mãos gelarem.

E se minha mãe descobrisse?

Era segunda-feira, o dia de folga dela. Certamente ela iria arrumar a casa e mexer no meu guarda-roupa. Me acalmei e resolvi contar com a sorte. Se ela não tinha descoberto até agora, não ia ser naquele dia.

Não vai acontecer nada, Eduarda. Pensamento positivo.

Assim que cheguei em casa, os olhos da minha mãe revelavam que a sorte ignorou completamente a minha existência insignificante.

– Eduarda, venha até meu quarto. Agora!

Gelei, senti calor, a pressão baixou, o coração disparou e as pernas começaram a ter convulsões.

Caminhei lentamente e, quando abri a porta do quarto, ela estava sentada na cama segurando um pedaço de papel na mão. Minha Nossa Senhora, a carta!

– Posso saber o que significa isso? Quem mandou?

– Eu não sei, mãe.

– NÃO minta pra mim, Eduarda!

Ela foi levantando a voz e comecei a chorar.

– Eu não sei, mãe. Paulinho me entregou na saída do colégio e disse que não podia falar de quem era.

– Você acha certo ficar me escondendo as coisas? Meu Deus! Você só tem 12 anos. Quem é o depravado que quer namorar a minha filha de apenas 12 anos? E o covarde ainda se esconde atrás de cartas anônimas.

Depois de muita revolta, ela se acalmou e passei a ser vigiada 24 horas por dia. Nem na casa de Lívia, que ficava do outro lado da rua, eu podia ir. Me transformei numa condenada em regime semiaberto por ter cometido o grande crime de receber, aos 12 anos de idade, uma carta de amor sem remetente.

Paulinho sumiu completamente. Ele devia estar se escondendo com medo que eu o pressionasse para descobrir quem era o anônimo apaixonado.

Num sábado à tarde, depois que Lívia insistiu bastante, minha mãe deixou que fôssemos sozinhas à sorveteria. Compramos o sorvete e sentamos no banco de uma pracinha que ficava bem em frente. Nesse pequeno espaço de tempo, Paulinho apareceu. Trouxe uma nova carta e, novamente, saiu sem dizer nada.

A nova carta era semelhante à primeira. Ressaltava minha beleza e declarava o amor imensurável do anônimo. Até então, ninguém, além da minha mãe, Paulinho e eu, sabia da existência desse admirador.

Lívia, uma pessoa que não conseguia guardar nem os segredos dela, tomou a carta da minha mão, leu fazendo caras e bocas e, na segunda-feira, quando cheguei à escola, todo mundo sabia. Todo mundo mesmo.

Lívia saiu falando para o pessoal do colégio e pedindo segredo absoluto. Em apenas um dia, a pequena cidade de oito mil habitantes já conhecia o meu “segredo absoluto”.

O caos se instalou na minha vida. A cidade inteira me vigiava. As pessoas tomaram as dores dos meus pais e passaram a ter como objetivo de vida a descoberta do anônimo das cartas.

Paulinho se tornou a pessoa mais famosa da cidade. Todos queriam ser íntimos dele e arrancar o segredo mais cobiçado dos últimos tempos. Ele se manteve firme por quase dois meses até que não resistiu mais a pressão. Não sei a quem ele contou primeiro, mas quem me falou foi Lívia “boca furada”.

Era sexta, à tarde. Meus pais tinham viajado e meu irmão saído para jogar futebol. Eu estava no meu quarto vendo TV, quando escutei os gritos de Lívia me chamando no portão. Fui abrir e ela já entrou falando.

– Duda, eu já sei quem é o Senhor Secreto.

Levei um susto. Será que finalmente ia descobrir quem era o amor da minha vida? Sonhei com isso várias noites.

– QUEM É?

– Você não vai acreditar!

Ela começou a sorrir como uma louca.

– Fala logo, Lívia!

– É Júnior.

– Júnior? Que Júnior?

Na hora eu não conseguia ligar o nome à pessoa.

– Júnior, menina! O que toca na banda da cidade.

– Ah… Júnior. Sei quem é.

Júnior tinha 17 anos, tocava na orquestra da cidade e não se parecia com o príncipe que imaginei. Ele era um pouco desproporcional. Alto demais, magro demais e andava meio curvado. Resumindo, o papel de galã jamais seria dele.

Desanimei um pouco com a descoberta, mas, em algumas horas, me acostumei com a ideia. Afinal, beleza não era tudo.

Minha mãe ficou mais calma. Provavelmente, na cabeça dela, a pessoa teria, no mínimo, 60 anos. Apesar disso, a vigilância não diminuiu. E tudo isso por nada, porque Júnior continuou sem trocar uma palavra comigo.

Todo sábado, à tarde, a banda de música ensaiava em um prédio, em frente à pracinha. Meus pais estavam na fazenda do meu avô, e meu irmão, o encarregado de me vigiar naquele dia, saiu com uma “amiga”. Os pais de Lívia também foram com meus pais, e ela apareceu lá em casa me chamando para ir ver o ensaio da banda. O desejo de falar com Júnior superou o medo e decidi ir. Saí toda arrumada, quase madrinha de casamento.

Sorri ao ver Júnior. Ele me olhou e permaneceu sério. Talvez a minha roupa estivesse arrumada demais e ele estranhou. Não quis pressioná-lo e fiquei um pouco afastada esperando que ele viesse falar comigo. Voltei para casa, arrasada. No tempo em que fiquei lá, além de não falar comigo, Júnior me ignorou completamente.

Na segunda-feira, ia iniciar a semana do estudante e, todo ano, a minha escola promovia uma gincana para comemorar.  A orquestra Municipal era responsável por tocar as músicas nas competições de dança. Na tentativa de impressionar Júnior, convenci Paulinho e Lívia a se inscreverem na dança comigo. Teríamos que apresentar uma coreografia com tema livre e duração mínima de cinco minutos. Lívia teve a grande ideia de dançarmos frevo. Um dança típica do estado de Pernambuco e muito bonita – para quem sabe dançar.

Em três dias, só conseguimos aprender um passo e muito mal. Iríamos repetir a mesma coisa até o final da apresentação: abaixar, levantar um pé, depois o outro, subir e balançar para os lados um bastão cheio de fitas feito por minha mãe.

Paulinho escolheu o pior momento para me contar uma coisa horrível. Chegamos à escola onde seriam realizadas as apresentações com 1 hora de antecedência. Faltando trinta minutos para subirmos no palco, eu e Lívia nos olhávamos no espelho para ajustar os últimos detalhes da roupa.

– Eduarda, preciso falar com você agora!

Paulinho falou abrindo a porta da sala onde nos arrumávamos.

– O que foi? Cadê a água que você foi pegar?

Ele me olhava com os olhos esbugalhados.

– Esqueci. Duda, desculpa por te entregar aquelas cartas.

Não entendi nada. Que conversa era aquela?

– Vamos nos concentrar na apresentação, Paulinho. Mesmo que Júnior ainda não tenha falado comigo, eu descobri o amor e é a coisa mais linda.

– Duda. Ele não falou e nem vai falar. Acabei de saber que Júnior negou tudo. Disse que foi apenas uma brincadeira. Mas, quando ele falou comigo, foi sério, eu juro. Ele não deve ter aguentado a pressão.

O amor, um ser tão novo na minha vida, já me apunhalava pelas costas. As lágrimas quiseram descer e me segurei. Ia subir naquele palco e mostrar a Júnior o quanto ele era idiota. Destruída por dentro, mas inabalável por fora.

Agora teremos Eduarda, Paulinho e Lívia apresentando o frevo. A diretora do colégio anunciou no microfone. Escutamos um barulho alto de palmas e saímos em direção ao palco. A banda estava lá, inclusive Júnior. Como o espaço era pequeno, ficava todo mundo próximo. Eu fiquei de um lado, Lívia do outro e Paulinho no meio. A raiva de Júnior me fez esquecer que primeiro era para abaixar. Fiquei em pé e quando percebi, tentei reparar meu erro, só que ao descer Paulinho já ia subindo. Bati com o bastão na cabeça dele. Ouvi os gritos de OH! da plateia. Paulinho parou de dançar e levou as mãos à cabeça. Apesar da dor, não foi nada grave e em segundos voltamos a dançar.

Antes de iniciarmos nossa apresentação, combinamos com as professoras que o nosso tempo seria o mínimo – cinco minutos. A dança exigia muito preparo físico, coisa que nós não tínhamos.

Alguns minutos de dança e já estávamos exaustos. Fiz um gesto para a banda parar de tocar. Ninguém aguentava mais, independente do tempo. Eles continuaram tocando. Tentei me concentrar e esperar mais um pouco. Pelo nosso estado, deveria estar bem perto de acabarem os cinco minutos.

Quase um ano depois, eles continuavam tocando. Estávamos iguais àqueles bonecos doidos de posto de gasolina. Se ­balançado de um lado para o outro, sem o menor ritmo. Novamente fiz sinal com a mão pedindo para terminar e, quando a música chegou ao fim, eles começaram outra vez.

Eles eram loucos ou o quê? Peguei o bastão e joguei no chão com toda a força que me restava.

– EU JÁ FALEI QUE É PRA PARAR. É PRA PARAR. É PRA PARARRR!!!!!!!!

Eu dizia e batia o bastão no chão. Totalmente descontrolada. A banda e todas as pessoas que estavam na escola, inclusive Paulinho e Lívia, me olhavam espantadas. Desci do palco com as pernas tremendo de tanto cansaço e fui tomar água.

– O que foi isso, minha filha?

Minha mãe se aproximou e falou assustada.

– A orquestra não parava, mãe. Não aguentava mais.

Ela balançou a cabeça em sinal negativo.

Devido ao meu mau comportamento, recebemos nota zero. Nenhum daqueles professores tinha ideia do que era ter seu coração partido e ainda ser submetida a um esforço físico além da sua capacidade. Insensíveis.

Joguei fora todas as cartas de Júnior assim que cheguei em casa e desabei. Como ele teve coragem de dizer que era brincadeira?  Fique bem triste por um tempo, até que um dia acordei decidida a não chorar mais por um fraco, medroso e feio.

Corri para a casa de Paulinho. Queria contar que tinha me curado, mas o encontrei aos prantos.

– O que foi, Paulinho?

– Meu pai me bateu. Olha isso, Duda.

Ele levantou a camisa e vi uma marca vermelha, quase sangrando, nas suas costas.

– Meu Deus! Por que ele fez isso?

– Ele me viu lendo uma das suas revistas e acha que eu sou gay.

Eu sempre pedia a minha mãe para comprar revistinhas sobre horóscopo, dicas de moda e receitas. Paulinho adorava minhas revistas e jamais imaginei que fosse causar tantos problemas.

– É melhor você ir, Duda. Ele me proibiu de te ver. Disse que eu preciso fazer amigos homens.

Fui embora, mas prometi a Paulinho que encontraria uma solução e tudo voltaria ao normal. Ele concordou balançando a cabeça e caiu no choro novamente.

 


 

Capítulo 2

Olhar

 

Eu não suportava ver meus amigos mal. Quando cheguei em casa, depois que conversei com Paulinho, fiquei pensando como eu poderia ajudá-lo. Pensei, pensei e, finalmente, uma ideia surgiu.

Faltava apenas uma semana para terminar as aulas, então, combinei com o pessoal da minha turma de jogar vôlei e futebol no quintal da minha casa, todos os dias, durante as férias. Paulinho gostou da ideia e o problema foi resolvido, pelo menos por um bom tempo.

Abandonamos as revistas. Agora nos divertíamos com outras pessoas, inclusive com meninos, como o pai de Paulinho queria. Numa tarde, o pai dele apareceu de surpresa na minha casa e saiu satisfeito quando viu Paulinho praticando brincadeiras que ele julgava de meninos.

Já perto do Natal, resolvi passar uma semana na fazenda do meu avô, pai da minha mãe. Lá era um lugar sem comparação com qualquer outro. Não tinha luz elétrica, acordávamos bem cedo para tomar leite quentinho e à noite, o céu se transformava num espetáculo de estrelas brilhantes que iluminavam aquela escuridão. Além disso, eu estava curiosa para conhecer a novidade: a namorada do meu avô Francisco.

Depois que minha avó morreu, seu Francisco teve alguns envolvimentos com jovens senhoras, a maioria viúvas, mas nada oficial. Essa foi a primeira que ele assumiu como namorada. Chamava-se Betânia e tinha quinze anos a menos que ele. Era engraçada e um pouco louca. Fazia umas danças esquisitas, conversava com a televisão, cantava músicas da Xuxa; e a comida dela, para ser considerada horrível, ainda precisava melhorar.

Betânia me adorou. Ela quis me ensinar algumas de suas receitas desastrosas e apenas fingi prestar atenção. Não queria aprender a fazer algo parecido com mingau de neném estragado.

Depois das receitas, ela foi me mostrar as fotos dos seus familiares e disse que uma era especial. A de um sobrinho que, além de lindo, combinava comigo. Quando vi a foto, tive certeza de uma coisa: Betânia me achou horrível. Que menino feio! Usava uma bermuda florida com uma camiseta de bichinhos e um boné azul claro. Ele era bem alto e desproporcional como Júnior, a diferença estava apenas no peso, Júnior devia ter uns 20 kg a menos. A única coisa que se salvavam eram os olhos. Betânia percebeu a minha decepção e comentou que, na foto, ele tinha 10 anos, mas que agora estava um lindo rapaz de 15 anos. Não consegui acreditar muito e preferi não comentar nada.

No final da tarde, estávamos – eu, Betânia e meu avô – deitados na varanda quando ela falou que precisava ir visitar a filha e perguntou se podia me levar. Os familiares de Betânia moravam na capital de outro estado. Meu avô disse que só meus pais poderiam resolver. Eu me empolguei com a ideia imediatamente, mas tive que esperar até o outro dia, porque na fazenda não tinha telefone.

Bem cedo, chegamos a minha casa. Betânia explicou que passaríamos o Natal e Ano Novo na casa da sua irmã e perguntou se minha mãe deixava. Ela não deu nenhuma resposta concreta, falou apenas que ia pensar e conversar com meu pai. Desanimei um pouco, mas também não esperava que fosse conseguir tão fácil. Fizemos algumas compras e voltamos para a fazenda. À noite, minha mãe apareceu por lá. Foi explicar a Betânia que meu pai não concordou com a viagem, pois eu era muito nova e nunca tinha viajado sem eles.

– Owww, mãe. Não tem nada demais. Eu vou com Betânia.

– Eduarda, minha filha. Seu pai não aceitou.

Ela percebeu que eu ia começar a chorar e tentou amenizar.

– Mas eu vou falar como ele novamente.

Agarrei-me àquela pequena esperança.

Voltei para casa no sábado, pela manhã, e Betânia viajaria na segunda. Mal cheguei e já recebi a notícia. Eu não iria. Comecei a chorar e corri para o meu quarto. Passei o resto do dia lá dentro. Minha mãe abriu a porta algumas vezes para tentar se explicar, mas minha resposta era sempre a mesma:

– Eu nunca posso fazer nada. O que custa eu ir, mãe? Sempre tenho que ficar nessa casa como se fosse uma prisioneira. Passei por média, com todas as notas acima de oito e mesmo assim não posso ir a uma simples viagem.

– Não se trata disso, minha filha. Nós nem conhecemos essa mulher direito. E se ela for uma irresponsável? Não é como se você fosse pra fazenda, Eduarda, é uma cidade grande.

– Mãe, isso não é desculpa. A Senhora conhece muito bem a família dela.

Betânia ainda era prima de vigésimo grau do meu avô e na infância ele morou por alguns anos na casa da mãe dela.

– Seu pai não confia que você vá sozinha, Eduarda.

– É porque eu sou uma prisioneira nessa casa. Passei por média, não tirei nenhuma nota abaixo de oito…

Não consegui terminar meu mantra, porque as palavras foram engolidas pelo choro.

– Meu DEUS! Essa mulher não tinha outra pessoa para chamar? Agora é você e seu pai enchendo a minha paciência. Só pode ser um castigo.

Minha mãe saiu batendo a porta do quarto e fiquei lá, me acabando em lágrimas. Não conseguia aceitar aquela injustiça. Eu chorava e parava um pouquinho, até lembrar que estava cada vez mais perto da segunda-feira e começava novamente. Foi assim o dia inteiro até eu conseguir dormir.

No domingo de manhã, acordei com minha mãe fazendo carinho no meu cabelo. Abri os olhos e ela sorria pra mim. Já me preparei para iniciar o meu mantra de ser prisioneira e ter passado por média, mas, antes que eu começasse a falar, ela disse que conversou com meu pai e que ele concordou com a viagem, desde que ela fosse junto.

Ela nos deixaria e voltaria no dia seguinte. Fiquei tão feliz que nos dez segundos iniciais, após a notícia, eu paralisei. Depois que a ficha caiu, pulei igual uma maluca dentro do quarto.

Viajamos no outro dia, pela manhã. Demorou cerca de sete horas até finalmente chegarmos ao apartamento onde a filha e a mãe de Betânia nos aguardavam. Elas eram bem simpáticas e o lugar super aconchegante. Descansamos um pouco e saímos para jantar no shopping. Pela manhã, depois que minha mãe voltou, eu e Betânia passamos o dia em casa, assistindo a filmes e comendo pipoca com brigadeiro. Tirando o barulho dos carros que passavam na rua, parecia que eu estava em casa.

Dormimos cedo porque, no outro dia, era véspera de Natal e iríamos para casa da irmã de Betânia, a Beatriz. O café já estava na mesa quando acordei e, apesar de parecer algo legal, o gosto era horrível. Betânia conseguia estragar até pão com manteiga. Esperava, sinceramente, de todo coração, que a comida na casa da irmã dela fosse melhor, não aguentava mais engolir sem mastigar, só por uma questão de sobrevivência.

Por volta das 14h, saímos em direção à casa de Beatriz. Eu imaginava que passear de carro na cidade grande fosse algo extraordinário, mas não foi. O carro quase não conseguia se mover por causa do trânsito, muito barulho de buzinas, fumaça e pessoas irritadas. Só chegamos depois de uma hora.

Beatriz, uma senhora simpática de cabelos ruivos, foi nos receber no portão. Primeiro, passamos pelo jardim. Lindo, com muitas flores, árvores e pequenos bancos com luminárias do lado. Depois, ela nos levou até a cozinha para mostrar os preparativos do jantar do Natal. Julgando pela aparência da comida, o sabor não poderia ser tão ruim quanto o de Betânia. Em ­seguida, fomos a um dos quartos da casa para conhecer seus dois filhos, o menino feio da foto e outro.

Beatriz bateu na porta e os meninos gritaram que podíamos entrar. A porta abriu e eu paralisei. Não entrei, não corri, simplesmente fiquei parada como se tivesse sido atingida por um raio paralisante.

– Oi. Pode entrar.

Obriguei minhas pernas a andarem e sorri quase sem força. Não sabia o que era aquilo, mas minha boca tava tão seca que nem a melhor mangueirinha sugadora dos consultórios odontológicos conseguiria aquela façanha. Ele se aproximou e estendeu a mão.

– Tudo bem? Meu nome é Rafael.

Continuei sem me mexer. Eu não queria tocar na mão dele e a razão era muito simples, a minha estava GELADA. Picolé. Mas, diante dos olhares esperando uma reação minha, tive que cumprimentá-lo para não passar por mal-educada.

– Tudo. O meu é Eduarda.

Falei baixo e tremido. Não sabia onde tinha ido parar a minha certeza de manter o amor distante depois das cartas mentirosas de Júnior. De repente, sem nenhuma explicação, tudo pareceu encantador outra vez.

Eu sempre escutava minhas tias dizendo que toda criança feia, quando cresce, fica bonita. Eu achava aquilo a maior ­besteira. Mas, depois que conheci Rafael, comecei a acreditar ­plenamente. Ele ficou lindo. E quando eu falo lindo, quero dizer muito lindo mesmo. E o olhar? Era como navegar num mar cristalino.

Falei com o irmão mais velho dele – Fábio – que também estava no quarto e saímos. Ainda não tinha me recuperado do choque, mas continuei seguindo Betânia e Beatriz que me apresentavam o restante da casa. Na parte de trás, ficava uma piscina, consideravelmente grande. Beatriz perguntou se eu queria mergulhar e não pensei duas vezes. Eu amava piscina.

Betânia me levou para o quarto em que iríamos ficar, troquei de roupa, ela me deixou na área da piscina e foi ajudar sua irmã nos preparativos do Natal.

Rafael e o irmão já estavam lá. Eu deveria ter ficado feliz, mas cadê a coragem de ficar só de biquíni na frente deles? Desisti de tomar banho e me sentei em uma cadeira que ficava ao lado da churrasqueira, um pouco mais afastada.

– Não vem?

O irmão dele gritou e Rafael ficou me olhando.

 – Agora não, depois eu vou.

Se você for como eu, não precisa de ninguém pra te fazer de trouxa, porque essa pessoa já mora dentro de você. Acho que fiquei sentada na minha cadeirinha por quase uma hora, até que chegaram duas primas dos meninos, só de biquíni e se achando AS SUPERIORES. Elas me olharam com desprezo e só disseram “oi”. Pularam na piscina e uma delas agarrou Rafael pelas costas. Como diz minha mãe, tudo na vida tem um limite, e aquele era o meu. A cena me irritou a ponto de perder a vergonha. Levantei, tirei a blusa, depois o short, coloquei a roupa na cadeira e fui até a piscina. Rafael me olhou de corpo inteiro, sem disfarçar.

Assim que entrei, ele veio nadando por baixo da água e subiu bem próximo a mim.

– Finalmente entrou, Eduarda. Tava pensando o que fiz de errado pra você não querer chegar nem perto.

– Não fez nada.

Sorri sem graça. Eu realmente não sabia lidar com aquela situação. Quando ele se aproximava eu perdia a capacidade de raciocinar.

Rafael ainda estava tentando estabelecer uma conversa comigo quando uma das primas dele gritou:

– Rafaeeeel, vamos brincar de derrubar? Eu subo nas suas costas e a Manu sobe nas costas do Fábio e ganha quem permanecer mais tempo sem cair.

– Eu vou se a Eduarda for comigo. Aí, quem perder sai e você entra.

Ela ficou com cara de pastel e eu gargalhando por dentro. Fiquei com vontade de gritar: TOMA, TOMA, TOMA. Eu sei que é meio infantil, mas tive vontade de gritar mesmo assim. Queria me excluir e se ferrou.

Rafael mergulhou para que eu subisse nas suas costas. Não perdemos uma. Por mais que as meninas tentassem me derrubar, ele não me deixava cair. As priminhas queridas ficaram extremamente irritadas, desistiram da brincadeira e saíram da piscina. Pouco tempo depois Fábio também saiu e restamos apenas nós dois.

– Acho que vou sair também – eu falei.

Meu poder autodestrutivo dando o ar da graça. Na verdade eu não queria sair, mas na falta de saber o que falar, era melhor dizer besteira, claro!

– Fique mais um pouco, Eduarda. Já sei! Vamos ver quem aguenta ficar mais tempo embaixo d’água?

– Estou ficando com frio. Acho que é melhor eu sair mesmo.

Quem me concedeu o livre arbítrio? Não quero mais. Obrigada!

– Eu posso te abraçar para diminuir o frio.

Ainda bem que ele estava sendo persistente. Caso contrário eu já teria estragado tudo há muito tempo.

Aceitei a brincadeira de ver quem passava mais tempo embaixo d’água e ignorei a parte do abraço. Apesar de não achar uma ideia ruim, eu precisava manter o resto da minha estabilidade emocional. Ele se aproximou, segurou na minha mão e mergulhamos. Ficamos nessa brincadeira até Betânia aparecer.

– Hummmm, tá rolando um clima!

Rafael me olhou envergonhado e eu cobri 80% do rosto com o cabelo.

– Que conversa, tia. Eu e a Eduarda? Nada a ver – ele falou.

Ai! Essa doeu.

– Sei. Você nunca fica até anoitecer na piscina, meu sobrinho querido. Não venha querer enganar a tia.

– A Senhora sabe ser insuportável quando quer.

Rafael saiu da piscina, pegou a toalha e me deixou sozinha. Pronto, a “espertona” aqui, mais uma vez, tinha caído na conversa de outro Júnior da vida.

Betânia continuou o interrogatório comigo.

– E aí? Tá rolando um clima ou não?

– Não.

– Você alguma vez já ficou com alguém, Eduarda?

Rafael tinha razão. Betânia sabia ser bastante insuportável. Qual a necessidade de ela me perguntar isso?

– Não – respondi sem vontade.

– Aíííííí. Quem sabe o Rafa não é o primeiro.

– Vamos entrar, Betânia, daqui a pouco chega a hora do jantar e ainda estamos aqui.

– O Rafa é lindo e tá caidinho por você. Beija ele boba!

Se Rafael estivesse com a metade da empolgação de Betânia, nós já estaríamos casados. Mas ele deixou bem claro o nosso status de relacionamento: NADA A VER!

Terminamos de nos arrumar às 21h. Usei um vestido vermelho que compramos no shopping, dei uma leve secada no cabelo e fiz uma maquiagem simples. Betânia disse que eu estava linda e a minha imagem no espelho me fez acreditar que era verdade. Respirei fundo e me preparei pra encontrar Rafael novamente. Precisava manter o controle e demonstrar indiferença.

Gostaria muito de ser uma pessoa mais sensata e ouvir minha razão, mas só bastou encontrar seu olhar para meu coração se derreter igual a manteiga no calor. Ele estava perfeito com uma calça jeans e uma camisa de botão preta que ressaltava a parte mais linda do seu corpo, os olhos verde-mar.

Beatriz chamou Betânia para conversar alguma coisa em particular e eu fiquei sozinha na sala sem saber o que fazer. Rafael se aproximou e perguntou se eu queria sentar onde ele estava.

– Nada a ver. Vou ficar aqui – eu falei.

– Nada ver o quê?

Rafael franziu a testa e ficou esperando a minha resposta.

– Eu ir me sentar onde você está.

– Por quê?

– Porque eu não quero. Prefiro ficar aqui.

Se há pouco tempo ele achava que não tínhamos nada a ver, então que me deixasse quieta no meu canto.

– Então fique, Eduarda!

Ele saiu com raiva e eu me encostei no sofá. Betânia ainda não tinha voltado e Rafael foi para o outro lado da sala onde estavam suas primas. Bateu uma saudade de casa. Os Natais eram sempre muito animados, com muitas comidas gostosas e, além disso, eu conhecia todo mundo. Mas agora não ia reclamar, chorei tanto pra conseguir a viagem, não ia ficar me lamentando.

– Oi. Como se chama? Não parece muito animada.

Ele sorriu se divertindo da minha desgraça.

– Estou normal. Não sabia que precisava ficar dando cambalhotas pela casa para demonstrar animação.

– Além de animada é simpática. Posso saber seu nome?

– Eduarda.

– Muito prazer Eduarda! Sou o Gustavo. Eu também não sou fã dessas reuniões familiares, sempre fico morrendo de sono, mas minha mãe só me deixa ir dormir depois do jantar.

 Gustavo nem imaginava que o meu problema não era a reunião familiar.

– E você mora aqui?

– Não. Sou primo do Rafa. Mas no Natal dormimos aqui, porque sempre acaba muito tarde e no outro dia tem o tradicional churrasco.

Percebi Rafael me olhando feio do outro lado da sala. Não demorou muito e ele veio onde estávamos.

– Gustavo, Fábio está chamando você.

– Pra quê?

– Sei não. Ele só pediu pra te chamar.

Gustavo se levantou e eu pedi que ele voltasse depois para continuarmos a nossa conversa. Falei pra provocar Rafael e funcionou. Ele quase me engoliu com aqueles olhos verdes.

– Quer ficar com meu primo, é?

– Qual o seu interesse nisso? – perguntei irônica.

– Por que você está sendo grossa comigo, Eduarda?

– Eu? Eu não!

Betânia apareceu e interrompeu nossa conversa.

– Nem ficaram e já estão brigando?

– Não começa, tia. Não tem ninguém brigando aqui – Rafael respondeu com raiva.

– E essas caras emburradas?

– A Senhora tá viajando.

– Meu sobrinho querido, vou dizer uma coisa para você nunca mais esquecer. Se você quiser ficar com uma menina e alguém perguntar a respeito disso, por mais vergonha que tenha, nunca diga “nada a ver”. Pior ainda se for na frente dela. Aprenda!

Betânia deu um tapinha nas costas de Rafael e se levantou. Ficamos sozinhos novamente.

– Então é por isso que você tá com raiva?

Não respondi nada.

– Eu quero ficar com você, Eduarda!

Beatriz apareceu convocando todo mundo pra ficar ao redor da mesa de jantar e fazer uma oração. Respirei aliviada.

Na hora da oração ele segurou a minha mão e eu me transformei em alguma coisa parecida com gelatina.

O jantar, para felicidade do meu estômago, estava bem melhor que a comida de Betânia. Depois que comemos, Rafael me chamou para ir até o jardim. Fiquei sem saber se ia ou não, com medo de ir e acontecer o primeiro beijo. E se eu beijasse e depois não conseguisse mais esquecê-lo?

Superei meu dilema interno e fui com Rafael. Ele nos levou para o banquinho mais escondido. Nos sentamos e ele segurou a minha mão.

– Gostei de você Eduarda.

Rafael foi se aproximando e ia ser agora. Meu primeiro beijo.

– Raaafa? Sua mãe está procurando você.

A Manu cara de ** apareceu e estragou o momento mais mágico da minha vida. Rafael levantou se queimando de raiva. Deixei-o andar um pouco, pra ninguém perceber que estávamos juntos, e levantei. Quando cheguei na sala, Betânia me esperava pra ir dormir e não vi mais Rafael. Lógico que não consegui dormir. Deitei na cama e fiquei sonhando acordada com a cena do jardim.

No outro dia, acordei com Betânia dizendo que iríamos voltar para minha casa. O meu avô, pai do meu pai, tinha sofrido uma parada cardíaca e estava internado na UTI, mas, graças a Deus, passava bem. A notícia me pegou de surpresa. Eu amava meu avô e, mesmo sabendo que ele estava fora de risco, eu queria vê-lo o mais rápido possível. Rafael ficou tão decepcionado quanto eu. Acredito que ele imaginou ter mais tempo para tentar me beijar outra vez, já que a previsão era que eu ficasse até o Ano Novo.

Betânia avisou à irmã que estávamos saindo e Rafael pediu para ir conosco até a casa dela. Beatriz tentou convencer Rafael a ficar, justificando que não teria como pegá-lo. Mas ele falou que queria ir mesmo assim e voltaria de ônibus.

Durante o caminho, vendo a minha aflição, Rafael soltou um pum e começou a sorrir tentando me animar.

– O que foi isso, Rafael?

Betânia perguntou sorrindo e ele respondeu gargalhando que não tinha feito nada. Eu achei decepcionante, mas, mesmo com aquela idiotice, meu coração continuava acelerando ao olhar para ele.

Já na casa de Betânia, enquanto ela se despedia da filha, Rafael me abraçou e ficamos assim por uns cinco minutos, sem falar nada. Vi Betânia na porta e fui me afastando dele. Ele me puxou e deu um selinho no canto da minha boca, não foi beijo, só pegou o cantinho da boca, mas nem preciso dizer que andar até o carro foi mais difícil do que tomar sorvete de cabeça para baixo.

Entrei no carro e fiquei esperando Betânia terminar de colocar as malas. Rafael se aproximou e me entregou um papelzinho dobrado.

Vou dar um jeito de ir te ver, Eduarda.

Você ficou me devendo um beijo. Não vou te esquecer.

Não me esqueça também.

Melhoras para o seu avô.

Ass.: Rafa

 


 

Capítulo 3

Primeiro beijo

 

Chegamos em casa no final da tarde. Deixei as malas e fomos para o hospital. Vovô já tinha saído da UTI e estava no quarto. Ele fez a maior festa quando me viu e fiquei muito feliz por ele estar bem.

À noite, depois que saímos do hospital, eu só pensava na minha cama. Betânia resolveu dormir na cidade e ir pra fazenda no outro dia de manhã. Antes de deitar, peguei o bilhetinho e li novamente. Meu coração sem controle já começava a contagem regressiva para encontrá-lo outra vez.

Nessa época, eu ainda não tinha celular e, no pouco tempo em que fiquei com Rafael, nenhum dos dois pegou o telefone residencial um do outro. Ou seja, a única opção era aguardar. A minha esperança era que ele ligasse pra Betânia e pedisse o número da minha casa. Mas isso não aconteceu e, depois de três meses sem nenhuma notícia, eu comecei a desacreditar que nos veríamos novamente. Devido à falta de discrição de Betânia, que eu já conhecia muito bem, não tive coragem de perguntar nada sobre Rafael a ela. Além disso, estávamos nos encontrando pouco, pois ela andava indisposta e quase não ia à cidade.

Saí da aula e passei na casa de Paulinho. Seu pai estava mais tranquilo em relação a nossa amizade. Paulinho agora treinava numa escolinha de futebol e fez amizade com vários meninos. A mãe dele me chamou para almoçar, eu aceitei e, depois de um tempo, fui embora. Precisava estudar para não deixar a matéria acumular.

Comecei a ler a lição de português, mas o sono apareceu se fazendo de amigo e me derrubou. Acabei adormecendo e só acordei depois das 18h quando minha mãe chegou. Os gritos se espalharam pela casa e demorei alguns minutos para entender o que acontecia. Uma briga dela com meu pai.

– Como você teve CORAGEM de fazer isso comigo? – minha mãe gritava e chorava ao mesmo tempo.

– Eu não fiz nada Marília.

– MENTIROSO! Ainda é cínico. Seja homem e assuma o que você faz.

Eles entraram no quarto e não consegui escutar mais. Nunca esqueci aquela briga, porque foi a primeira de muitas que ainda viriam. Até aquele dia eu acreditava que meus pais jamais pudessem brigar daquela forma. Um grande engano. Seria bem pior.

Alguns minutos depois escutei alguém chamando no portão. Tive vergonha de ir abrir. Não queria que ninguém visse a confusão na minha casa. A pessoa chamou novamente. Parecia a voz do meu avô. Escutei quando a porta do quarto da minha mãe se abriu e em minutos ouvi meu avô falar na cozinha.

– Ela está mal. Com muitas dores. O que eu faço, minha filha?

Ele falava um pouco desesperado.

Resolvi ir olhar o que estava acontecendo. Mas meu avô e minha mãe já tinham saído. Depois eu soube que Betânia não queria ir para o hospital e ele foi pedir ajuda a minha mãe para convencê-la.

O médico fez os exames inicias, mas a cidade em que morávamos não tinha equipamentos modernos que ­possibilitassem um diagnóstico preciso da doença de Betânia. Ela foi transferida, naquele mesmo dia, pra um hospital maior, em uma cidade que ficava a 200 km de distância. Lá, os médicos descobriram um câncer no fígado e, infelizmente, duas semanas depois, ela não resistiu e faleceu.

A minha convivência com Betânia se resumia aos poucos meses que ela passou com meu avô, mas, mesmo assim, fiquei muito triste. O enterro foi realizado na cidade da família dela e apenas meu avô foi. Depois disso, não houve mais nenhum contato. Rafael nunca apareceu. Fiquei somente com seu bilhete “falso” de recordação.

A vida amorosa dos meus pais também não ia bem. Brigas todos os dias. Nem Paulinho eu chamava mais para ir a minha casa, por medo de, a qualquer momento, começar uma confusão.

No início da noite de um sábado, formou-se uma briga gigantesca que acabou com vários objetos quebrados no chão. Eu não conseguia dormir. O som do vidro quebrando ecoava na minha cabeça. Não sabia o que fazer e me escondi dentro do meu guarda-roupa. Apesar da escuridão, me senti mais segura e o barulho da discussão ficou bem menor. Acabei adormecendo lá dentro. Acordei, às 9h da manhã do dia seguinte, molhada de suor. Quando saí do guarda-roupa encontrei minha mãe desesperada.

– Graças a Deus! – ela gritou ao me ver.

– O que aconteceu, mãe?

– Eu que pergunto, minha filha. Onde você estava?

Minha mãe me procurou em vários lugares, mas nunca pensou que eu estivesse dentro do guarda-roupa. Ela insistiu em saber por que eu me escondi lá dentro e não tive como mentir. Até então ninguém falava sobre as brigas que aconteciam diariamente. Admiti que sentia medo, vergonha e vontade de fugir de casa quando eles começavam as confusões. Ela escutou atentamente, pediu desculpas e disse que ia resolver a situação.

Quinze dias depois meus pais se separaram e eu me mudei para Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte, com minha mãe. Meu pai e meu irmão continuaram morando na nossa casa, no interior.

A cidade nova era imensamente maior que a antiga. Chegamos sem dinheiro e um pouco perdidas. O primeiro mês foi de restrição total. Nesse período, ficamos dependendo exclusivamente do dinheiro que meu pai mandava. Mesmo assim, eu me sentia bem melhor do que acordar e dormir ao som de brigas. Era como estar na pior lanchonete da cidade, mas na companhia do menino por quem você é loucamente apaixonada. O coração fica tão feliz que supera o sabor ruim da comida.

Na minha nova escola o pessoal passava por uma fase financeira bem melhor do que a minha e sempre dizer “não” quando me chamavam pra fazer alguma coisa podia acabar impedindo que eu fizesse novas amizades, então passei a culpar a minha mãe.

– Eduarda, vamos ao cinema?

– Minha mãe não deixa.

– Eduarda, hoje o pessoal da sala vai à pizzaria, vamos?

– Queria ir, mas minha mãe não deixa.

– Eduarda, vamos tomar um sorvete depois que sair da aula?

– Não posso. Minha mãe não deixa.

– Nossa! Sua mãe não deixa você ir tomar um sorvete?

– Não.

Após o começo difícil, tudo melhorou. Minha mãe conseguiu um emprego e minhas novas amigas começaram a vê-la com outros olhos, porque ela passou a “deixar” eu sair.

Nessa época faltavam dois meses para o meu aniversário de 15 anos e eu nunca tinha ficado com ninguém. Todas as minhas amigas já conheciam outras bocas, algumas até namoravam, eu era a única esquisita. Eu morria de vergonha e não queria que ninguém soubesse. Só contei a Ana, que ficou sorrindo da minha cara, mas guardou segredo.

Além das meninas, eu fiz dois amigos homens na sala, Sérgio e Daniel. Um dia, nós três estávamos na lanchonete da escola e eles começaram o assunto do primeiro beijo.

– E aí, Eduarda, você já beijou alguém?

– Claro!

Respondi como se fosse a mais experiente no assunto.

– E como foi? – Sérgio perguntou.

– Normal. Nada demais.

Sérgio começou a contar como foi o dele e eu fiquei apavorada.

– O meu foi horrível. A língua da menina parecia grande demais dentro da minha boca e eu não sabia o que fazer direito.

– No meu, eu fiquei com falta de ar. Quis mostrar que sabia beijar e segurei o pescoço da menina por muito tempo. Quando soltei mal conseguia respirar – Daniel disse.

Se eles desconfiavam de que eu nunca tinha beijado e queriam me assustar, estava funcionando. Depois daquela conversa eu escrevi um passo a passo de como agir para nada sair errado e o menino não perceber que era meu primeiro beijo:

  • Não colocar a língua toda de uma só vez na boca do outro;
  • Não pressionar demais a minha boca contra a dele para não sufocar;
  • Cuidados com os dentes, eles não podem bater;
  • Não girar demais a cabeça enquanto beija;
  • Controlar a respiração.

No primeiro dia das férias Ana ligou chamando para ir a uma festa. Ana conhecia o colégio inteiro e a metade da cidade. Festa era com ela mesma.

– O pessoal combinou de alugar uma Van. O motorista é conhecido do meu pai. E o valor do aluguel será dividido por todos. Vamos, Duda? Todo mundo vai.

Convencer minha mãe a me deixar sair com o pessoal do colégio para um show que começava às 0h e terminava às 4h da manhã, para quem nunca tinha ido a uma festa sozinha, não ia ser uma tarefa muito fácil.

– Mãe! Todo mundo do colégio combinou de sair hoje, eu posso ir também?

– Vão pra onde?

– É uma festa. O pessoal vai alugar uma Van e todo mundo vai e volta junto.

– Isso dá certo, Eduarda? O motorista é conhecido? Seu pai não vai gostar.

O meu pai, mesmo separado da minha mãe, queria determinar as regras que deveríamos seguir. E, para ele, eu não podia sair sozinha com meus amigos, de jeito nenhum. Mas, ainda bem, que minha mãe estava determinando suas próprias normas e parando de seguir as orientações dele.

– Dá sim, mãe! Ele não precisa saber e o motorista é conhecido do pai de Ana. Vai todo mundo, eu não queria me sentir excluída. Deixa eu ir, por favor?

Fiz um pequeno drama, ela se sensibilizou e me deixou ir. Há uma semana eu tinha completado 15 anos e a ausência de comemoração deve ter pesado na decisão dela. Combinamos que meu pai não precisaria saber, seria um segredo nosso. Eu vibrei de felicidade, mas, infelizmente, a realidade não correspondeu a minha grande expectativa.

Liguei para Ana avisando que eu iria. Ela disse que, por eu morar perto do local da festa, seria uma das últimas a ser pega e confirmou o horário para às 22h. Às 21h30 eu já estava pronta. Minha mãe saiu com uma amiga do trabalho e eu fiquei sozinha esperando o pessoal.

Passava das 23h, ninguém aparecia e Ana não atendia o telefone. Eu estava quase chorando quando o carro buzinou. Saí feliz por não ter sido esquecida. Quando entrei no carro, notei que não conhecia ninguém, além de Ana e Hugo. Eram pessoas de outras salas; da nossa só tinha nós duas. O “todo mundo” que ela falou não pertencia ao meu mundo.

Após trinta minutos, chegamos ao local da festa. Para quem só conhecia as comemorações da minha antiga escola, com no máximo cem pessoas, aquilo era assustador. Não contei uma por uma, mas devia ter no mínimo vinte mil pessoas ou um milhão, talvez. Colei do lado de Ana. Não podia me perder no meio daquela multidão.

Foi aí que Hugo, o namorado de Ana, ainda antes de entrarmos, resolveu começar uma confusão. Segundo ele, um menino olhou pra ela e Hugo a culpou por ter sido “oferecida”. Ele não era normal. Como percebeu tudo aquilo em menos de cinco minutos que tínhamos descido do carro? Eu não quis ser mal educada e me afastei um pouco. Alguns segundos depois, olhei para trás querendo saber se a briga tinha acabado e… Cadê? Sumiram!!! Desespero total. Procurei por todos os lados e nem sinal deles.

Bem distante, quase na entrada da festa, vi o pessoal que veio na Van comigo. Corri até chegar perto deles. A solução não era das melhores, mas foi a única que me restou para não ficar sozinha.

– Posso ficar com vocês? Ana e Hugo sumiram.

Elas concordaram e continuaram andando. Na verdade, eu não integrei o grupo, fiquei apenas andado atrás delas, sem nenhuma conversa.

Depois de muito empurra-empurra conseguimos entrar. A primeira banda iniciou o show e, com quarenta minutos de festa, começou uma briga entre duas meninas do meu mais novo grupo de “amigas”. Uma queria ficar com um menino de quem a outra gostava e a discussão era pra saber de quem ele gostava mais.

Uma delas falou:

Eu sou muito mais bonita que você. Fico com ele na hora que eu quiser!”

A outra respondeu:

“Quem disse que você é bonita? Além de feia, é invejosa!”

Se eu soubesse que aquelas meninas superavam meus pais nas brigas, jamais teria me aproximado. Uma segurou no cabelo da outra, que respondeu cravando-lhe as unhas no pescoço. O pessoal começou a gritar, incentivando a confusão. O resto do grupo tentou apartar a briga e eu fui ajudar. Deveria ter ficado quieta na minha. Levei um empurrão que caí longe e rasguei um pedaço da minha blusa. Alguém estendeu a mão e me ajudou a levantar.

Bonito, alto, moreno, olhos azuis. Finalmente um pouco de sorte. As meninas tinham se espalhado e eu resolvi ficar sozinha, ou melhor, na companhia de Bruno. Ele me chamou para dançar e eu aceitei. Se ele não ligou para minha aparência um pouco bagunçada, não ia ser eu a reclamar.

– Quantos anos você tem? – ele perguntou.

– 15 e você?

– Eu tenho 18.

Continuamos a conversa e Bruno dançava cada vez mais perto. Ele tentou me beijar, mas afastei meu rosto. Ficar com um desconhecido em uma festa, não parecia nada romântico, ainda mais para o primeiro beijo. Mas depois de algumas músicas, meus pensamentos mudaram. Ele era legal, bonito e eu queria me livrar do rótulo de boca virgem. Quando ele se aproximou pela segunda vez deixei que me beijasse.

A culpa não foi minha pelo beijo ter sido um completo desastre. Bruno com certeza não leu nada sobre como beijar uma garota. A boca grande dele praticamente engoliu minha cabeça. Babou meu rosto inteiro. A língua preencheu todo o espaço da minha boca, quase me engasgava. Aquilo não foi um beijo, parecia mais uma briga. Eu tentei afastar meu rosto, mas ele puxou de volta com tanta força que nossos dentes bateram.

Horrível! Quando finalmente ele permitiu que eu respirasse, falei que ia ao banheiro e não voltei mais.

Encontrei Ana, Hugo e o grupo das “amigas”, que agora estava dividido, perto da saída. Nem tive tempo de brigar com ela por ter me abandonado, só queria saber se já podíamos ir embora. O Senhor Língua Grande não podia me achar. Por sorte, todo mundo estava querendo ir para casa. Chegamos ao estacionamento e a Van não estava lá.

O motorista sumiu!

 


 

Capítulo 4

Ame

 

Sair com casal de namorados não é legal, principalmente se for como Hugo e Ana; é melhor ficar em casa vendo um filme. Como se não bastasse terem me deixado sozinha com aquelas meninas, começaram uma nova briga no estacionamento por causa do sumiço do motorista com o nosso dinheiro.

– A culpa é sua. Eu disse que não ia dar certo contratar um motorista que você nem conhecia – Hugo gritou.

– Hugo, vá se ferrar! Eu não aguento mais suas idiotices. ACABOU!

Ana terminou o namoro na frente de todo mundo e Hugo foi embora.

– Ana, você não disse que o motorista era amigo do seu pai? – eu perguntei.

Ela fez cara de menina sofrida.

– Desculpe, Dudinha. Na verdade eu peguei o contato dele na internet.

É difícil você conseguir ter uma vida tranquila quando tem o poder de atrair gente maluca. Na hora eu senti vontade de gritar com ela, mas respirei fundo e só balancei a cabeça em sinal negativo.

– E agora? Como vamos voltar para casa?

Hugo já tinha ido embora, as “amigas” estavam conseguindo carona com outras pessoas, minha mãe ainda não tinha carro e descobri que os pais de Ana estavam viajando, por isso que ela conseguiu ir para festa com todas aquelas mentiras, sem que ninguém desconfiasse.

– Eu não sei, Dudinha. O imbecil do Hugo gastou todo o meu dinheiro comprando bebida pra ele. O que sobrou só dá pra gente pegar um ônibus.

Quase 5h da manhã, saímos do estacionamento em direção a uma parada de ônibus que nem sabíamos se existia. Andamos muito pouco e um carro parou do nosso lado.

– Princesinha! Você sumiu. Tá indo pra onde?

Ai não! O Senhor Língua Grande. Precisava inventar alguma coisa e sair o mais rápido possível. Mas antes que eu pensasse em algo, Ana contou toda a história do sumiço do motorista. E aconteceu o que eu temia, ele se ofereceu para nos levar em casa.

– NÃO! Não precisa. Nós vamos de ônibus – falei olhando para Ana.

Ela parece que finalmente entendeu que eu tinha um motivo forte para não aceitar aquela carona.

– Eduarda tá certa. É melhor irmos de ônibus.

Bruno não aceitou nossas desculpas e insistiu até concordarmos em ir com ele. Apesar do pouco tempo, eu não acreditava que Bruno pudesse ser um assassino, o problema era que, em troca da carona, provavelmente ele ia querer um novo beijo.

Ele pediu que eu fosse no banco da frente do carro. Já fiquei tensa. Fui o tempo todo pensando como poderia fugir dele. Quando eu percebi que estava chegando perto da minha casa, coloquei a mão sobre minha barriga e fiz uma careta. Bruno me olhou e perguntou se eu estava sentindo alguma coisa.

– Uma leve dor no estômago – respondi.

A dor “aumentava” à medida que se aproximava da minha casa. Quando ele estacionou o carro em frente ao meu prédio, eu estava quase gritando. Bruno e Ana ficaram assustados e queriam me levar ao hospital. Não aceitei de jeito nenhum. Depois que entramos no prédio, comecei a sorrir. Ana me olhou confusa, mas logo entendeu o que estava acontecendo.

– Sua mentirosa safada! Eu aqui preocupada e era tudo mentira.

Ela bateu no meu ombro e nós duas começamos a sorrir.

Eu não tinha esquecido os ensinamentos da minha mãe sobre não mentir, mas se alguém já teve o rosto todo babado, vai entender que foi extremamente necessário.

Depois do trauma da primeira festa, preferi passar o resto das férias de julho fazendo coisas mais seguras como assistir a filmes, comer brigadeiro e dormir. As brigas de Hugo e Ana continuavam e eu escutava as lamentações dela sem expressar minha opinião, porque Ana amava e deixava de amar Hugo pelo menos umas três vezes por semana.

O meu primeiro beijo foi uma tragédia, mas pelo menos eu já sabia como era beijar e desejava de todo o meu coração que os próximos pudessem ser melhores. Voltamos às aulas e começaram as provas, os testes e os trabalhos. Estudei muito e, no final do ano, passei por média. Minha mãe ficou tão feliz que viajou para o interior e deixou que eu passasse o réveillon com Luana em um luau de Nando Reis, na praia.

Luana estudava comigo e, juntamente com Ana, Daniel e Sérgio, formávamos um quinteto quase perfeito. O pessoal ia passar o réveillon em outras cidades e apenas nós duas iríamos ao luau. O pai de Luana chegou às 21h na minha casa e fomos para festa. Ele nos deixou na entrada e falou para ligarmos assim que acabasse.

O local do show era imenso, uma parte gramada com tendas, onde vendiam comidas e bebidas. Do outro lado, ficava o palco e, atrás, víamos o mar. Eu e Luana ficamos perto do palco do lado direito. Combinamos que esse seria nosso ponto de encontro para o caso de, por algum motivo, uma se perdesse da outra.

O show começou e foi aquela gritaria com a primeira música, “All Star”. Eu também amava e fiquei cantando tão empolgada que nem percebi quando Luana sumiu. Olhei para todos os lados e não consegui achá-la, mas não me apavorei e continuei no mesmo lugar. Quando ela voltasse me encontraria ali.

O show continuou, Nando Reis tocou todas as músicas conhecidas, cantei até a garganta ficar seca e nada de Luana. Não aguentava mais a sede e fui até uma das barraquinhas comprar água. Quando estava voltando, a vi dormindo numa cadeira. Cheguei mais perto e percebi que ela estava embriagada, completamente bêbada. Fiquei apavorada.

O pai de Luana era extremamente rígido. Como eu iria explicar aquilo? Pense em alguma coisa, Eduarda! A única ideia que me veio à cabeça foi levá-la para minha casa. O problema era como ir. Eu não tinha dinheiro suficiente para o táxi; e Luana, pior, nem consciência lhe restava. Se eu imaginasse que uma coisa daquela pudesse acontecer, teria levado todo o dinheiro que minha mãe deixou para gastar na semana.

Nando Reis se despediu e o pessoal começou a ir embora. Luana continuava desacordada e eu em pé, olhando para todos os lados, tentando encontrar alguém conhecido que pudesse nos ajudar.

O local estava quase vazio quando decidi pegar o celular e ligar para o pai dela. Eu não sei se ele ia acreditar, mas já tinha pensando na mentira. Iria dizer que Luana bebeu uma água “batizada” sem perceber e ficou daquele jeito. Foi a melhor coisa que consegui pensar.

Peguei o celular e comecei a digitar o número, mas alguém bateu nas minhas costas com tanta força que caí de cara no chão, por pouco não quebro meus dentes. O meu celular, coitado, ficou só a capinha, a tela se quebrou completamente.

Festa, ­realmente, não era pra mim. Levantei com a minha raiva no nível máximo, olhei para trás e vi um rapaz me observando assustado.

– QUEM ME EMPURROU?

– Eu não empurrei, eu esbarrei em você, mas foi sem querer. Me desculpe – o rapaz respondeu nervoso.

– NÃO DESCULPO!!! Por acaso viu o que você fez? Quebrou meu CELULAR!

A raiva deu lugar ao nervosismo e algumas lágrimas foram surgindo.

– Foi minha ex-namorada que me empurrou, eu me desequilibrei e acabei esbarrando em você.

Pronto! Até uma briga de casal apareceu. Não faltava mais nada. Não aguentei e comecei a chorar. O rapaz se aproximou e pediu para que eu me acalmasse.

– Não precisa chorar. Eu vou pagar o celular.

– Eu não estou chorando pelo celular. Eu não tenho como ir para casa, minha amiga está desacordada, não sei como contar isso ao pai dela e você acabou de quebrar a única forma de falar com ele.

– Desculpe. Eu não fiz por querer. Se quiser eu posso deixar vocês em casa.

Antes que eu pudesse responder, uma mulher gritando se aproximou do local onde estávamos.

– Quem é essa, Pedro?

– Mariana, pare de escândalo.

– Responda!!! Você acabou porque está tendo um caso com essa daí, não é?

– JÁ CHEGA, Mariana. Me deixe em paz. Já basta o que você fez.

Até agora Pedro tinha passado despercebido, mas depois do grito olhei melhor para ele. Sim, ele era bonito, na verdade, bem mais do que eu gostaria.

– Fiz e faço novamente. Quem você pensa que é para terminar comigo?

– Mariana, faça o favor de ir embora.

Realmente a querida sorte me abandonara por completo.

Parei de chorar e fui em direção a Luana. Coloquei o braço dela no meu ombro e a retirei da cadeira. Precisava procurar ajuda. Se fosse depender daquele povo eu ia acabar terminando na delegacia.

Luana já não estava totalmente desmaiada, apesar de não falar nada com nada, ela conseguia caminhar apoiada em meu ombro. Comecei a subir a rampa que dava acesso à saída e Pedro veio correndo pedindo que eu esperasse. Continuei caminhando como se não ouvisse, mas ele nos alcançou rapidamente. Com Luana naquele estado era impossível correr.

– Espere. Eu posso deixar vocês em casa.

– Não precisa. Obrigada.

– E vocês vão voltar como?

– Ainda não sei. Mas não quero a doida da sua namorada me perseguindo.

– Isso não vai acontecer. Deixa eu te ajudar. É perigoso vocês ficarem sozinhas na rua a essa hora.

Pelo menos nisso Pedro tinha razão. Ficar na rua esperando que um milagre acontecesse era muito perigoso. No entanto, ir embora com ele também não me parecia nada seguro. Resolvi não responder nada e continuei andando. A rua estava praticamente deserta, tirando alguns bêbados, não restava mais ninguém. Pensei, pensei e decidi aceitar a carona do tal Pedro.

Entramos no carro e comecei a rezar. Rezei o caminho inteiro para que ele não nos fizesse nenhum mal. Depois de vinte minutos, paramos em frente ao prédio em que eu morava. Baixei o vidro para o porteiro me ver e a entrada foi liberada. Por mais arriscado que fosse, tive que aceitar a ajuda de Pedro para subir com Luana.

Conseguimos levá-la para minha cama e pedi a Pedro que me esperasse na sala. Tirei a roupa e os sapatos dela, coloquei uma camiseta, liguei o ar condicionado e apaguei a luz do quarto. Voltei pra sala.

– Pronto, tudo resolvido. Obrigada por me ajudar.

– Era o mínimo que eu poderia fazer. Desculpe por derrubar você e quebrar seu celular. Amanhã eu compro outro e deixo aqui.

– Tudo bem.

Eu podia ter dito que não precisava comprar outro, mas meu celular era novinho. Minha mãe ainda estava pagando. E como a culpa foi dele junto com sua namorada, nada mais justo que comprasse um novo.

A campainha tocou e achei estranho. Quem poderia ser uma hora daquela? Ah, deveria ser o porteiro querendo saber se estava tudo bem. Afinal entrei com Luana bêbada junto com um rapaz que ele nunca viu antes.

Olhei pelo olho mágico e não era o porteiro. Meu Deus! O pai de Luana.

 

Continua…

 

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