Bienal do Rio 2017: Do lançamento à minha primeira Bienal

Bom dia,

Hoje o conto é um pouquinho diferente. Quero compartilhar com vocês a trajetória do lançamento até a minha primeira Bienal.

No dia 19/01/2017, às 18h10, eu estava indo em direção ao shopping para o lançamento do meu primeiro livro. Falei com amigos, familiares, fiz convites fofinhos, mas justamente naquele dia os presos resolveram fazer uma rebelião e, por isso, surgiram diversos boatos na cidade.

– Minha filha, recebi uma mensagem dizendo que vão colocar fogo no shopping na hora do lançamento do seu livro. Deve ser mentira!

Minha mãe falou isso por volta das 9h da manhã. Meu coração deu aquela leve pisada no freio com o susto que levou.

– Quem é o terrorista que tá dizendo isso? É mentira, mãe. Isso é corrente de WhatsApp.

– É mesmo, não devemos dar atenção.

Só que, nos 30 minutos seguintes, recebi pelo menos 10 mensagens falando do tal atentado na hora do lançamento.

Eu nunca desejei tanto que tivesse uma decisão judicial para “derrubar” o WhatsApp por, pelo menos, algumas horas. Talvez tenha sido um pensamento egoísta. Mas eu desejei.

As pessoas começaram a me enviar mensagens:

“Florzinha, eu queria muito ir ao lançamento do seu livro, mas estou com medo!”

“Amiga, eu não sei se vou para o lançamento porque estão falando que ocorrerá um atentado no shopping. Estou assustada.”

Eu tinha certeza que aquilo era mentira mas as pessoas estavam acreditando.

“NÃO VAI NINGUÉM!!!”

Não foi um pensamento, foi um grito na minha cabeça. Um não, vários.

“NÃO VAI NINGUÉM!!!”

“NÃO VAI NINGUÉM!!!”

“NÃO VAI NINGUÉM!!!”

Minha mãe entrou no quarto e me viu em pé, com as costas apoiadas na parede, olhando fixo para o nada.

– Não desanime! Nós vamos resolver – ela disse.

PLIMMMMM

Chegou uma mensagem no celular dela.

– Quem é, mãe? Mais alguém dizendo que não vai?

Ela me olhou meio confusa como se estivesse com receio de falar.

– É uma mensagem falando dessas besteiras de atentado.

Cometi o erro de pegar o celular para ler. A mensagem dizia que um amigo, filho do vizinho, do tio, do avô, do pai que era policial, tinha confirmado o atentado. E dizia para ninguém ir ao shopping a partir daquele horário.

Me tranquei no quarto e apaguei as luzes. No escuro eu penso melhor. É aquela coisa, quando a luz surge não tem risco de não ver. E a luz apareceu.

Abri a porta do quarto.

– Mãe, já sei! Vamos almoçar no shopping.

– Agora? – ela perguntou assustada.

Até ela já estava começando a acreditar na conversa do atentado.

– Sim, mãe. Se eu quero que as pessoas compareçam à noite, eu tenho que ir primeiro para mostrar que está tudo bem.

E assim fizemos.

O shopping estava uma tranquilidade infinita. Não tinha atentado e nem pessoas.

Tirei algumas fotos do único local que tinha mais gente, a livraria, e mandei para os meus amigos avisando que estava tudo normal. A maioria acreditou.

Fiquei esperando alguém aparecer. O primeiro chegou, depois o segundo, outro e mais outro.

Meus dedos ficaram doendo de tanto que escrevi. Mas a tensão do dia deixou várias sequelas.

Quando sentei, na cadeirinha de autora, a minha mão tremia.

Era a primeira vez que eu estava recebendo alguém para escrever dedicatória no meu livro e ainda não tinha me recuperado das ameaças do suposto atentado.

Eu não sabia o que dizer na dedicatória. Tudo que tinha pensado desapareceu na minha cabeça.

O primeiro se aproximou da mesa.

– Oi, boa noite! Escrevo a dedicatória para quem?

– Boa noite, para Larissa.

Meu pai protetor da má escrita, como se escreve Larissa?

Eu não lembrava.

Calma, Kalliny, respire fundo. Larissa começa com L, escreva o L.

Escrevi o L e parei. O homem ficou olhando pra mim com cara de “não vai terminar?”

Mas eu não continuei e permaneci olhando para ele.

Ele virou a cabeça para um lado, depois para o outro, parecia procurar ajuda e, por fim, disse: “se tiver com alguma dúvida a pessoa do caixa colocou um papel com o nome dela na capa.”

Olhei a capa umas 3 vezes para, finalmente, escrever o nome e ainda errei. Tive que escrever um S por cima do outro porque, no final, percebi que estava faltando um.

Até hoje fico imaginando o que aquele homem saiu pensando sobre a minha pessoa. Espero que, pelo menos, tenha gostado do livro.

Alguns meses se passaram e surgiu a oportunidade de ir para a Bienal do Rio. Não acreditei. Saí pulando pela casa inteira com meu cachorro correndo atrás de mim.

A Bienal era um sonho muito distante e, de repente, estava ali, bem na minha frente.

Começamos os preparativos: reimpressão da 2ª tiragem do livro, brindes, camisetas, …

Cada detalhe pensado com todo cuidado.

Um dia antes da viagem, enquanto conferíamos os livros, um medo surgiu: e se eles amassassem?

Quem já foi ao aeroporto sabe como as malas são tratadas com “carinho”. E foi aí que o mozão teve uma ideia.

“Vamos levar como bagagem de mão.”

Entramos no avião com 2 caixas pesando 9,8 Kg cada uma. E eu, na tentativa de ser fina e elegante, resolvi viajar de salto. 

Depois de andar todo o aeroporto com aquele “pequeno” peso, eu parecia uma girafa com problemas na coluna. Minhas pernas não conseguiam mais se mover em cima daquele sapato horroroso. 

Cheguei ao hotel com os pés destruídos, uma pequena dor de cabeça, mas meus livros estavam intactos.

No dia 31/08/2017, pela manhã, fomos deixá-los no local da Bienal. Dessa vez, o mozão carregou as 2 caixas sozinho, quase morrendo, para não correr o risco de acontecer alguma coisa comigo, pois à tarde seria meu grande momento: eu estaria como expositora na Bienal.

Chegamos 1h antes do horário previsto. Peguei meu crachá de autora e andei um pouco pelo local. Quando sentei na cadeirinha, meu coração estava mais relaxado. Fiquei pensando: será que vai aparecer alguém?

E não é que apareceu!

Conheci novas pessoas, novos leitores, escrevi algumas dedicatórias e acabei o dia sorrindo. Não vendi milhares de livros e minha conta bancária não está transbordando de dinheiro. Mas, quando levantei da cadeirinha, meu coração estava cheio de amor, com a certeza de que todo o esforço valeu à pena e mais um passo foi dado.

Obrigada pelo carinho de sempre.

Espero que gostem desse texto “diferente” que postei hoje.

Deixem seus comentários.

Daqui a pouco voltarei ao mundo mágico novamente e mandarei mais notícias.

 

4 comentários em “Bienal do Rio 2017: Do lançamento à minha primeira Bienal

  1. Parabéns por seres agraciada por um dom tão lindo…me emocionei em ler o teu relato…me senti feliz em ter participado de um momento tão especial na tua vida…que DEUS continue abrindo as portas … NB

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