vidro estilhaçado

Vida de Solteira – 11: Danos inevitáveis

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Júlia

A família de Beto parecia ser agradável, com exceção do seu irmão, que não sabia falar como uma pessoa educada. Ficar conversando com eles aliviou um pouco a tensão do dia e adormeci muito rápido depois que todos foram deitar. Eu sabia que Carol não ficava tranquila com aquela tempestade, mas o sono foi mais forte do que eu.

Acordei com uma frestinha de sol, que ultrapassava a porta, batendo no meu rosto.

Ainda bem que a chuva parou. Preciso ver como meu pai está. Pensei ainda deitada no sofá.

Na noite anterior, antes de sair para procurar Carol, tive receio de deixá-lo sozinho, mas ele me garantiu que estava bem e eu poderia ir tranquila.

“Jesus, que coisa horrível!” “E agora, será que ele vai resistir?” Uma mulher e um homem conversavam na varanda a poucos metros de onde eu estava deitada. Levantei imediatamente para saber o que de tão grave tinha acontecido.

Passei pela porta da sala, já destrancada por alguém, e na varanda me deparei com Sebastião e dona Rosângela conversando.

– Sebastião? O que aconteceu?

– Já acordou? Tão cedo! – dona Rosângela falou um pouco assustada.

Ignorei dona Rosângela e me dirigi novamente a Sebastião, que me olhava apavorado.

– Sebastião, fale logo o que aconteceu. É com meu pai?

– Júlia, seu pai foi encontrado hoje pela manhã na margem do rio.

– Não!Não!Não! Meu pai… Meu Deus, meu pai não!

– Calma, minha querida. Ele vai ficar bem – Dona Rosângela tentava me acalmar.

– Seu Maurício foi encontrado com vida, Júlia. O estado dele é grave, mas há chances dele sobreviver.

– O que foi, Júlia? – Carol apareceu na porta.

– Meu pai, Carol. Ele está internado em estado gravíssimo.

– Então vamos agora para o hospital – Carol disse determinada, me fazendo agir.

 


 

Carol

Nós nascemos sabendo que um dia vamos morrer, mas insistimos em agir como se pudéssemos resolver tudo amanhã, quando, na verdade, não temos certeza se esse amanhã existirá.

Quando eu soube que o pai de Júlia estava no hospital, fiquei pensando o quanto eu errei em ter ido embora da fazenda sem tentar conversar com ela antes. Eu fazia parte do grupo do “amanhã eu resolvo”, “amanhã eu converso”, “amanhã eu falo que me arrependi”. E, de repente, o amanhã se transformou em um furacão totalmente imprevisto.

O estado dele é grave. Muito grave, infelizmente”. “Ele respirou muito água. Se ele sobreviver, poderá ficar com sequelas”.

O médico conversava comigo e com Júlia em uma salinha fechada do hospital.

– Mas, numa escala de 0 a 10, o senhor acredita que as chances dele sobreviver ficam em quanto? – Júlia perguntou ao médico.

– Você acredita em Deus? – Ele disse olhando diretamente para ela.

Júlia balançou a cabeça em sinal afirmativo.

– Então eu peço a você que reze. Apenas Deus poderá determinar qual a posição do seu pai nessa escala.

Saímos da sala do médico e encontramos Beto e Rosângela nos aguardando na recepção do hospital. Eles nos levaram até a minha casa e voltaram pra fazenda.

Eu ainda não tinha encontrado meu pai depois que a traição foi descoberta, mas quando o olhei, tive certeza que a denuncia anônima partiu dele. Seu rosto, abatido e culpado, o causava de longe. Ele e minha mãe nos receberam com um abraço apertado e passamos a noite rezando. Seguimos o conselho do médico e imploramos por uma nova chance ao único capaz de oferecê-la, Deus.

Ninguém sabia o que realmente tinha acontecido. Se ele tentou tirar a própria vida, se foi um acidente. Quando o ajudante de Sebastião o encontrou, seu Maurício já estava desacordado.

Insisti que Júlia passasse alguns dias na minha casa, mas ela não quis. Disse que precisava conversar com a mãe e ajudar Eunice, que estava inconsolável com a notícia.

A conversa entre ela e a mãe nunca aconteceu.

– Olha o que encontrei ontem em cima da mesa – Júlia falou assim que chegou na minha casa no outro dia.

Peguei a folha de papel ofício dobrada ao meio e abri.

“Minha filha, talvez você tenha raiva de mim, mas tudo isso que está acontecendo não é minha culpa. Eu tentei conversar com seu pai várias vezes para mostrá-lo que o nosso relacionamento não ia bem. Eu não queria que o nosso amor morresse, mas ele não conseguia perceber e sempre achava que eu falava besteira. Que era porque eu gostava de implicar.

Seu pai esqueceu que o relacionamento se constrói todo dia. Ele sempre esperava que a iniciativa fosse minha. Pra sair, pra ir ao cinema, para jantar. Chegou um momento que eu cansei de tentar sozinha e um muro de silêncio foi crescendo entre a gente.

Um dia eu conheci uma nova pessoa. Ele era atencioso, escutava meus desabafos e sempre me tratava com muito carinho. Acabei me apaixonando.

Eu errei pela falta de coragem de ser sincera com o seu pai. Eu devia ter pedido o divórcio, mas fui fraca.

Não vou voltar para casa. Não quero mais encontrar sua tia Eunice e você já é adulta, conseguirá ficar bem sozinha. Espero que um dia você me perdoe e entenda a sua mãe.”

Acabei de ler e fiquei sem reação. Eu não sabia dizer se dona Isabel era vítima ou vilã, mas abandonar a filha numa situação daquela, não foi a atitude mais nobre que ela poderia tomar.

Olhei para Júlia e ela começar a chorar na sala da minha casa. Não ligou que minha mãe e meu pai também estavam lá. Soluços abafados e lágrimas incontroláveis deixavam claro seu pedido de ajuda.

Meus pais passaram a orientar Júlia na organização da casa. Como administrar o dinheiro, fazer compras, pagar as duas empregadas que trabalhavam lá… E ela se saiu muito bem. Júlia só não queria voltar para aula. Ela tinha pavor de encarar a turma e todo o falatório.

Tentei passar a matéria pra ela nas duas primeiras semanas, mas Júlia ignorava as minhas tentativas.

– Júlia, você não pode desistir assim.

– Eu posso. Eu não quero mais, Carol. Na verdade eu nunca me identifiquei muito com medicina. Optei pelo curso mais por uma vontade da minha mãe do que minha. Mas, se nem ela sabe o que quer para a vida dela, não tem o direito de influenciar a minha.

– Júlia, suas notas eram as melhores da sala. Todos os professores estão decepcionados com essa sua desistência.

– Eu já me decepcionei com tanta coisa. Eles superam. Não adianta, Carol. Eu não vou mais. Vou dar um tempo para pensar em outra coisa que eu me identifique e começar a estudar novamente.

E foi assim, que a melhor aluna da sala, desistiu do curso.

Senti muito a falta de Júlia durante as aulas, apesar de estarmos mais próximas do que nunca. Mesmo não estudando mais juntas, resolvíamos várias outras coisas que antes não era preocupação nossa. Por exemplo, a quantidade de presunto necessária para duas pessoas comerem durante a semana, sem estragar.

Os dias foram passando e seu Maurício continuava internado, sem nenhuma previsão de melhora.

Não falei mais com Beto depois que ele nos levou do hospital para casa. Eu, assim como Júlia, também surtei um pouco. Me senti culpada por passar uma das madrugadas mais felizes da minha vida, enquanto o pai de Júlia quase morria. Porque, de forma indireta, a culpa ainda era minha. Se eu tivesse entrado em casa e conversado com Júlia, nada daquilo teria acontecido.

Beto ligou várias vezes e eu não atendi. Cada vez que eu deixava de atender meu coração doía, mas era como se eu merecesse aquilo, uma autopunição.

Hoje completou um mês que seu Maurício foi internado no hospital. Eu sempre ia com Júlia visitá-lo, mas, hoje eu tinha uma prova no horário da visita e ela foi sozinha com Eunice.

Uma prova longa e cansativa. Fui uma das últimas a entregar, mas esperava ter me saído bem. Até porque era a matéria do professor chato que me expulsou da sala e, como vingança, eu precisava tirar uma nota altíssima.

Entreguei a prova e saí da sala. Peguei meu celular para ver se tinha alguma mensagem e a primeira coisa que vi foram 12 ligações perdidas de Júlia.

Ou a notícia era muito boa, ou então…

Fiquei com medo de ligar de volta. Não queria saber de notícia ruim, mas ao mesmo tempo eu precisava apoiá-la. Criei coragem e retornei a ligação. Chamou, chamou, chamou e ela não atendeu. Tentei novamente e nada.

Parei no corredor da Universidade sem saber o que fazer.

Twaang. Twaang…

Meu celular começou a vibrar. Era Júlia ligando. Respirei fundo e me preparei para atender.

– Oi, Juh.

– Carol, meu pai acordou. Ele acordou. Tá falando. Aparentemente sem sequelas. O médico olhou pra mim e disse: “a recuperação de seu pai é uma coisa inexplicável para a medicina”. A segunda chance de Deus, amiga. Meu pai foi sorteado com ela.

– Estou indo aí agora mesmo.

Senti como se um sol brilhante batesse na porta e pedisse para entrar depois de uma tempestade violenta. O hospital deixou de ser sombrio e passou a ter alegria. Seu Mauricio acordou outro homem. Forte e decidido a aproveitar sua nova chance.

Ele contou que a sua intenção ao se jogar no rio era realmente morrer. Só que, quando começou a se afogar, tentou sair, mas a correnteza estava muito forte e não conseguiu. Subiu e desceu várias vezes e por último bateu a cabeça contra uma pedra e apagou.

Como ele foi parar na margem do rio ainda era um mistério.

No sábado, seu Maurício resolveu dar uma grande festa na fazenda para comemorar a nova vida. Ele e Júlia organizaram tudo. Eu não tive tempo de ajudar por causa das minhas provas e ainda chegaria um pouco atrasada. A professora marcou um seminário muito importante no dia e eu só poderia ir quando acabasse.

Minha mãe e meu pai foram mais cedo e eu fiquei com o carro dele pra ir depois. Apresentei o seminário, passei em casa, tomei um banho, me arrumei e fui pra fazenda. Cheguei por volta das 21h. Quase todos os convidados já estavam lá.

De longe vi Beto. Ele conversava e sorria com alguns amigos. Fui me aproximando e ele me viu. Pelo jeito que reagiu, tive certeza que em algum momento entre a saída da minha casa e a chegada na fazenda, eu troquei a roupa que usava por uma fantasia de bruxa.

Tentei sorri pra ele, mas Beto me olhou tão sério que meu sorriso ficou intimidado e se recolheu. Júlia logo veio ao meu encontro e começou a me apresentar os outros convidados. Falei com o pessoal e sentei ao lado dos meus pais.

Fiquei o tempo todo prestando atenção em Beto. Eu precisava conversar com ele de alguma forma. Uns quinze minutos de observação e a oportunidade surgiu. Ele se afastou dos amigos para pegar uma bebida e eu fui atrás.

– Posso falar com você?

– Falar o quê? – ele respondeu muito “simpático”.

– Conversar um pouco. Não nos falamos mais depois daquele dia.

– É mesmo, Carol? Eu nem tinha percebido. Será que é porque eu liguei várias vezes e você nunca me atendeu e nem retornou?

– Eu sei que errei, Beto. Mas tudo isso que aconteceu com o pai de Júlia me afetou muito. Não achei justo tá feliz com você enquanto ela sofria.

– Você deveria ter pensando em uma desculpa melhor, porque essa não convence nem meu sobrinho de 10 anos.

– Beto, por favor, me escuta! Eu estou falando a verdade.

– Ok. Ainda que seja verdade. Olha a importância que você me dá. Custava atender uma única vez e conversar comigo?

– Carol?

Uma voz familiar me chamou.

– Pai? Oi.

– Desculpe interrompe sua a conversa, mas lembra do filho de Roberto que te falei? Ele chegou agora e eu gostaria muito que vocês se conhecessem. Esse é o Luís Antonio, minha filha.

Meu pai apontou para um rapaz ao seu lado. Não consegui identificar se era alto, baixo, feio, bonito, magro ou gordo, porque minha atenção se voltou totalmente para Beto que acabava de virar as costas e sair.

– Pai, depois conversamos! Vou ter que resolver um problema e já volto.

Apontei para Beto e saí correndo, enquanto meu pai me olhava meio sem graça.

– Que falta de educação sair desse jeito. Espere! – falei assim que alcancei Beto.

– Já terminou sua conversa com o filho de não sei quem? Não acho que seja bom para você ser vista conversando com um simples médico veterinário. Sua imagem na alta sociedade vai ficar manchada.

– Beto, não seja ridículo.

Ele se virou rapidamente e falou com o rosto bem próximo ao meu.

– Ridículo por ter gostado de você, por te querer perto e ser obrigado a aceitar que você, simplesmente, sumiu? Devo ser ridículo mesmo.

Ele tentou ir embora, mas eu não deixei. Segurei seu rosto e o beijei. Não queria nem saber se meu pai ou qualquer outra pessoa ia ver.

Beto resistiu por menos de 1 segundo. Ele me abraçou forte e continuou o beijo.

– Vamos sair daqui! – ele falou.

Olhei a nossa volta. As pessoas mais próximas estavam a uns dez metros de distância e aparentemente não prestavam atenção em nós dois. Mas concordei com ele.

Caminhamos até um mirante que ficava um pouco afastado da casa. Sentamos no chão, sob a luz da lua que brilhava no céu.

– O que você quer comigo, Carol? Eu não quero ficar com você hoje, pra depois você sumir novamente.

– Eu não sumi por sua causa. Acredite, por favor. A verdade é que senti sua falta todos esses dias.

– Eu vou acreditar em você, mas não vá fazer besteira outra vez, ok?

– Ok.

Beijei meus dedos em sinal de juramento. Sorrimos e ele me abraçou. Beto começou a me beijar e foi deitando seu corpo por cima do meu.

“Aqui tá bom. Eu não vou ficar me escondendo feito um bandido”. “Mas eu não quero que ninguém me veja com você”. “Por quê, qual o problema?”. “Você tem namorada”. “Não tenho mais, você me fez terminar com ela, lembra?”

Um casal conversava próximo de onde estávamos, sem perceberem a nossa presença.

– Que droga! Tá muito difícil ter um momento sozinho com você – Beto falou meio irritado, meio sorrindo.

– Quem será?

– Acho que conheço bem essa voz. Não estou acreditando.    

Agora ele se divertia com a situação e eu continuava sem identificar a voz, até ouvir:

– Carol?

– Júlia?

 

Continua…

 

Plá:

Antes de brigar, converse. Brigas são sempre muito destrutivas e podem causar danos irreparáveis.

P.S. Uma semana linda e cheia de amor para vocês! Feliz páscoa!!!

Ah, e obrigada por deixarem meus dias mais felizes

11 comentários em “Vida de Solteira – 11: Danos inevitáveis

  1. Primeiro. Menina, eu já falei que tu é dumal? Porque tu é. E eu amo isso. Segundo. Eu sabiaaaaa Camila rodou. É o irmão do Beto com a Júlia. SABIA!!! Pelo menos você não deixou em suspense se o pai da Júlia ia acordar ou não. Não ia aguentar. Eu concordo com algumas coisas da mãe dela, mas ainda sim foi errado. Coitado do pai dela. Júlia largou o curso. E agora? Vai fazer o que? O que o irmão do Beto faz? É veterinário também? Adeus Camila. Perdeu pra Júlia hahaha. Adorando a história. EU QUERO RESPOSTAS!!!! Sábado virou meu dia favorito da semana. Bjs!!

  2. aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah senioooor ela sempre faz isso….. meu coração não aguenta. SUSPENSE me mata. Verdade uma conversa as vezes resolve tudo, então tenhamos paciência nessas horas ne. super feliz aqui pela julia não aguento ver ninguém sofrer, já basta eu na vida.

  3. Olha… Rum… Agradeço por ter finalizado à situação do pai de Júlia logo neste capítulo, se não eu iria ficar doida 😂😂
    Cada capítulo fico mais ansiosa!!
    Ah! Brigas são realmente muito destrutivas kkk

  4. Mais um suspense pro sábado que vem eiim😉😂 Amoooo…. ansiosa desde já. ..😦 Tô amando essas aventuras

  5. Kkkkk aiiiiii meeeeuuuu Deuuuuuusssss
    Será q meu coraçãozinho aguenta mais uma semana??!!!
    Garotaaaa, pare de me deixar nesse suspense!!!!

    Amando demais essa série. Essas meninas são um máximo e você, nem preciso falar né?! Arrasa Sempre!!!

    Sou sua fã garota.
    Beijão 😘😘😘😘

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