janela, rede e plantas

Vida de Solteira – 12: Amanheceu

janela, rede e plantas

 

Júlia

 

Passei a frequentar muito mais a fazenda depois que meu pai ficou doente. Era meu refúgio. Apesar de ser o lugar onde eu descobri a traição da minha mãe e onde meu pai quase morreu, lá eu me sentia muito melhor do que em casa. Na fazenda encontrei a verdade, embora não fosse a mais agradável, já na minha casa me sentia cercada por paredes de mentiras.

Uma semana antes do meu pai acordar, eu o visitei e fui dormir na fazenda. Ana, a mulher de Sebastião, e dona Rosângela estavam conversando na cozinha.

Vamos, Ana. Você e Sebastião nunca saem. João Victor vai ficar muito feliz se vocês forem. Dona Rosângela insistia para que Ana fosse a algum lugar com ela.

– Oi!! Ana, vá com dona Rosângela. Deixe que hoje eu cuido da fazenda.

– Júlia! Nem acredito que você veio hoje. Agora é que não vou mesmo, Rosângela. Não posso deixar minha menina aqui sozinha.

– Então vamos todos. É o aniversário de João Victor. Será bom para você se distrair um pouco.

Não queria ir, mas fiquei com vergonha de dizer não a Rosângela, ela era sempre tão agradável.

Acabei aceitando seu convite e dona Rosângela bateu palminhas demonstrando sua felicidade.

Enquanto eu tomava banho, Ana e Sebastião se arrumavam.

Coloquei uma calça jeans skinny rasgadinha no joelho, uma bota preta de cano curto e uma regata preta. Nunca tinha ido a uma festa na fazenda antes. Pensei está suficientemente arrumada, mas quando desci do carro. As convidadas do aniversariante pareciam que iam a um baile de formatura. Vestidos, saltos, bolsas… Eu apenas sorri diante da cena. Ia fazer o quê? Não tinha mais como trocar de roupa. Entrei e sentei com Ana e Sebastião na mesa mais escondida da varanda.

– Boa noite. Seja bem-vinda. Quer beber alguma coisa? – João Victor se aproximou tão educado que desconheci.

– Um copo de refrigerante, por favor.

– Claro, só um minuto que servirei a senhorita.

– Você tá se sentindo bem?

Ana e Sebastião começaram a sorrir e João Victor entendeu o que eu quis dizer.

– Muito bem, apesar da simpatia ser ideia da minha mãe.

– Ah, agora entendi. Tudo bem. Pode ir pegar meu refrigerante.

Ele me olhou com raiva e já ia saindo, quando uma menina se aproximou.

– Amor, não vai me apresentar a seus amigos rurais?

– Camila! Não são amigos rurais, são apenas amigos.

– Me desculpa se ofendi vocês. Eu não sei me expressar direito com pessoas que não moram na cidade.

João Victor, com toda sua grosseria, merecia alguém melhor. Que menina falsa e preconceituosa.

– OI, eu sou Júlia. Mais conhecida como Juh Caipira.

Levantei e dei duas tapas nas costas dela. Foi o cumprimento mais rústico que lembrei na hora. Ela fez uma careta de dor e deu um sorrisinho falso.

– Nós, amigos rurais, temos uma tradição. Sempre que conhecemos uma pessoa, levamos para dormir na nossa casa. Lá a cama é feita de capim, mas não precisa se preocupar, cobrimos com uma colcha grossa, dificilmente você sente algumas espetadas na pele. E só mais uma coisinha.

Falei mais próximo do ouvido dela.

– Nunca faça muito barulho antes de todos acordarem. Temos armas embaixo dos travesseiros e se nos assustar enquanto dormimos, podemos atirar em você sem querer.

 – HAHAHAHAHAHAHA. Vamos Camila – João Victor caiu na gargalhada e saiu puxando a namorada que me olhava apavorada.

– Muito bem, Júlia. Colocou essa menina no seu devido lugar. Rosângela tem razão de não gostar dela. Um menino tão bom quanto João Victor achar de se engraçar por uma pessoa dessas – Ana falou assim que voltei pra mesa.

– Seu refrigerante. Não sabia que a cama de vocês era tão confortável – João Victor puxou uma cadeira que estava encostada na mesa e sentou.

Sebastião, que até então tinha observado toda a situação em silêncio, entrou com um mortal carpado bem no peito de João Victor.

– Não achei engraçado o que a sua namorada fez. Não sabia que você gostava de ter a companhia desse tipo de gente. É bom você ensiná-la a ter respeito pelos outros.

– Calma, Sebastião. Só estou brincando.

– Não gosto desse tipo de brincadeira.

Sebastião finalizou a conversa. João Victor ficou desconfiado e após alguns segundos levantou.

– Vou falar com o restante do pessoal. Se o garçom deixar faltar alguma coisa, vocês me falem ou então chamem meu irmão.

Ele apontou para Beto, que estava atracado com uma convidada, aos beijos nada discretos.

– Bom, acho melhor só me chamarem mesmo – João Victor sorriu e saiu.

Não sei como dona Rosângela, uma pessoa tão simpática e de bem com vida, conseguiu ter dois filhos tão estranhos. Beto foi outra surpresa desagradável. Me tratou muito bem no dia que eu vim procurar Carol, mas hoje não falou nem “oi” e passou a noite toda agarrado com uma menina bem na minha frente, como se eu precisasse ver aquilo. Muito louco. Não posso esquecer de depois comentar com Carol.

Passamos mais trinta minutos na festa de aniversário e resolvemos ir embora. Nenhum de nós três estava com vontade de ficar ali. Já tínhamos sido educados com dona Rosângela, agora era a hora de voltar para casa.

Fui procurar dona Rosângela para dizer que estávamos indo e escutei ela conversando com Beto.

Que menina é essa que você tá de agarramento, meu filho? Se dê o respeito. Faz pouquíssimo tempo que você estava beijando aquela mocinha aqui no sofá. Gostei tanto dela, tão linda e educada. Por que não falou mais com ela?”

“A senhora pensa que conhece as pessoas mamãe, mas nem tudo é o que parece”.

De quem será que eles estavam falando? Era melhor eu falar alto para chamar atenção deles e ir logo embora dali, eu não tinha nada a ver com a vida amorosa de Beto.

– Dona Rosângela, cadê a senhora?

– Oi, minha queridinha. Estou aqui na cozinha.

– É só para me despedir, já estamos indo embora.

– Tão cedo? Fiquem mais um pouco.

– Eu agradeço o convite, mas precisamos ir. O dia foi muito cansativo, passei muito tempo no hospital conversando com o médico depois que a visita acabou. Necessito da minha cama quentinha para dormir.

– E sua querida amiga, ainda está viva? – Beto perguntou.

Era louco mesmo. Completamente amargo.

– Beto, isso é coisa que se diga? – Ela repreendeu o filho.

Não respondi a pergunta idiota dele. Falei com dona Rosângela e saí.

No outro dia pela manhã acordei com Ana me chamando.

– Júlia, acorde, tem uma pessoa aí querendo falar com você.

– Comigo, quem é?

– Tá sentando lá na sala.

Ana preferiu manter o suspense e eu me levantei para ir olhar.

– João Victor? O que veio fazer aqui?

– Podemos dar uma volta pelo pasto? Queria falar com você.

Desde que aconteceu o acidente com meu pai, eu não tinha mais psicológico para aquele tipo de suspense. A primeira coisa que me vinha à cabeça era que ele tinha morrido e estavam tentando me esconder.

– O quê foi? Fale logo. Meu pai morreu?

Meu corpo inteiro já tremia e as lágrimas se seguravam para não cair.

– Não, Júlia – ele me abraçou.

– Não é possível que isso tenha acontecido. Diga logo a verdade. O que mais poderia trazer você aqui? Meu Deus, ele morreu!

Ana e Sebastião surgiram na sala ao ouvirem minha voz descontrolada.

– Seu Maurício morreu?

Sebastião foi o primeiro a falar.

– Meu Jesus Cristo. Não é nada disso. Eu só vim pedir desculpas pelo que Camila fez ontem. Quando vocês vieram embora eu fiquei pensando em Júlia. Como você parecia triste, mesmo tendo respondido a ela. Não deve ser fácil ter um pai internado em estado grave no hospital e você não merecia ter aguentado as grosserias de Camila.

– Seja mais direto da próxima vez, rapaz. Ninguém aqui tem mais cabeça para histórias pela metade – Sebastião falou nervoso e não fez nenhuma questão de ser simpático.

– Desculpem. Eu não queria causar mais problemas. Vou embora, outra hora eu passo aqui.

– Não, tudo bem. Me desculpe você pelo mal entendido. É que ultimamente fico muito assustada que o pior venha a acontecer com meu pai. Vou trocar de roupa e saio para falar com você.

Sebastião foi até João Victor e deu duas tapinhas no ombro dele. Foi sua forma silenciosa de pedir desculpas também.

Troquei de roupa em menos de cinco minutos e saí pra conversar com João Victor.

– Bom, o que eu tinha pra te falar, praticamente já falei lá dentro. Espero que não tenha ficado chateada com Camila.

– Não, nem um pouco. Aprendi que apenas as coisas relevantes merecem a minha preocupação e a sua namorada, definitivamente, não é uma delas.

– Hahahaha. Ok.

– Você vai ficar aqui até a noite? Hoje vai ter a festa da fogueira. Queria que você fosse, é muito legal. Tem cantador de viola, milho assado nas brasas… Vamos?

– Deve ser legal mesmo. Mas não estou muito no clima de festa, sem falar que encontrar sua namorada dois dias seguidos é um castigo que eu não mereço.

– Ela não vai. Camila não gosta desse tipo de festa.

– Eu vou tomar café agora e vou voltar para cidade. Preciso resolver algumas coisas e ir visitar meu pai. À noite eu venho dormir aqui, se eu resolver ir dou um jeito de te avisar.

– Certo. Daqui a pouco também irei até a cidade, tenho aula hoje à tarde. Anote meu celular e me ligue avisando se você vai.

Anotei o número do celular dele, nos despedimos e João Victor foi embora. Eu não iria pra aquela festa de jeito nenhum. Queria ficar quieta no meu canto. Eu nunca fui muito fã de festas e agora então. O silêncio me causava dor, mas ao mesmo tempo me ajudava a curar.

Voltei pra fazenda depois das 20h e encontrei Ana e Sebastião animados. Eles adoravam essa festa da fogueira. Tentaram me convencer a ir, explicando nos mínimos detalhes tudo que teria lá, mas preferi ficar em casa.

Tomei um banho, peguei um livro de romance que Carol tinha me emprestado, Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, deitei na minha cama e comecei a ler. O sono me venceu rápido e antes de acabar o primeiro capítulo eu já estava dormido.

Júlia! Júlia! Júlia! JÚLIA! JÚLIA!

Acordei com João Victor me chamando próximo a janela do meu quarto. Olhei no relógio e eram 21h40. Será que aconteceu alguma coisa com Ana e Sebastião? A sensação de angústia, tão presente ultimamente, aparecia outra vez.

– Já vou.

Saí do jeito que eu estava, de blusa e shortinho de renda.

– Oi, João Victor! O que aconteceu?

Ele ficou me olhando um pouco envergonhado. Percebi que era por causa da minha roupa e cruzei os braços, escondendo o decote da blusa.

– Não aconteceu nada. Não trago nenhum recado ruim, apenas vim te chamar pra ir à festa. Ana e Sebastião disseram que ficou sozinha.

Ele estava muito lindinho. Um sorriso desconfiado no rosto, os olhos brilhantes, camisa azul-marinho de manga longa e calca jeans preta. Uma vontade de ir, só pra ficar ao lado dele, surgiu repentinamente, mas logo lembrei que ele tinha NAMORADA. Namorada, Júlia. Os problemas já estão vindo de forma espontânea, não procure mais um.

– Agradeço o seu convite e a sua preocupação comigo, mas hoje eu não vou.

– Posso ficar aqui com você, então?

O coração carente, já gritava que SIM.

– Se você acha que vale a pena perder a sua festa, então pode ficar.

– Claro. Se não valesse eu nem teria vindo.

Júlia, Júlia. Controla esses pensamentos.

Entrei para colocar um casaco, porque a minha roupa não estava apropriada para o frio que fazia lá fora.

– Pronto. Agora estou mais aquecida.

– Eu fiquei aqui pensando. Se você quiser, posso fazer uma receita que minha mãe sempre faz nos dias frios. O que acha?

– Quem diria? Nunca imaginei que soubesse cozinhar.

– Hahahaha. Só para pessoas especiais.

João Victor me olhou, mas eu desviei o olhar e mandei ele entrar. Fomos pra cozinha. Ele preparou uma espécie de chá quente doce. Não era bem o tipo de coisa que eu gostava, na verdade, eu odiava chá, mas tomei tudo fingindo que estava adorando.

Em algum momento, entre um gole do chá e outro, ele se aproximou e tentou me beijar. Naquela hora lembrei da minha mãe traindo meu pai, o acidente, ele desacordado no hospital.

– Não fico com ninguém que tenha namorada. Acho melhor você ir embora.

– Desculpa, Júlia. Agi por impulso.

João Victor foi embora.

No dia seguinte, ele voltou. Dessa vez ele chegou cedo, umas 18h20, e pediu a Sebastião para falar comigo.

– Oi, João Victor.

– Não tenho mais namorada.

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa ele me abraçou forte e me beijou.

– Tá louco, alguém pode ver! – o empurrei e dei um passo para trás.

– Qual o problema? Agora eu estou solteiro e que eu sabia, você também. Desconheço essa lei que proíbe dois solteiros de se beijarem.

Ele me abraçou novamente

– Calma. Não quero que Sebastião veja. Quando você acabou o namoro? Ela aceitou numa boa?

– Hoje pela manhã. Ela achou que eu estava tendo um surto e logo voltaria a procurá-la, porque ela disse que é insubstituível. Não sei se isso é considerado “aceitar numa boa”.

– Meu senhor! Há quanto tempo que não conheço alguém normal… Eu não sei se quero arriscar ter mais um problema na minha vida.

 – Prometo não ser mais um. Quero ser algo bom pra você, Júlia. Deixa eu pelo menos tentar. Gostei de você desde a primeira vez que te vi, toda molhada e linda. É meio inesperado, eu sei, mas o amor não é assim?

Ele veio decidido, mas eu estava com tanto medo.

– E então, vamos nos conhecer melhor?

O medo se rendeu àquele olhar intenso. Nossas bocas se tocaram e nos beijamos sem pensar em mais nada. Me senti tão leve e feliz que por alguns minutos esqueci do furacão em que a minha vida se encontrava.

– Eu não quero que ninguém saiba por enquanto. Vai ser um segredo nosso, ok? – eu falei e ele concordou.

Toda noite João Victor vinha me ver. Ele chegava sempre depois que Ana e Sebastião já tinham ido dormir e ficávamos namorando na varanda. Preferi não dizer nada a Carol. Não queria que ela sofresse comigo, caso João Victor fosse mais um erro na minha vida.

Uma semana depois meu pai acordou. Chorei de felicidade por Deus ter me concedido aquele presente. Uma vida nova começava a partir daquela dia. Meu pai me pediu perdão e passou a ser mais alegre e feliz. Partiu dele a ideia de fazermos a festa para comemorar seu “renascimento”. Organizamos tudo e quase não tive tempo de ver João Victor durante a semana, porque meu pai estava comigo o tempo todo e a noite ele ia dormir super tarde.

– Alô?

– Oi. Sou eu, pode falar agora? – ele me ligou quando eu estava fazendo as compras da festa com meu pai.

– Mais ou menos. Era o quê?

– Quero te ver. Estou com saudade.

Deixei meu pai ir andando na frente e combinei meu encontro com João Victor.

– Estacione o carro lá na primeira entrada. Depois que todos dormirem, eu saio pra te encontrar. Mas isso deve ser bem tarde. Meu pai demora muito a dormir e tia Eunice também.

– Ok. Vou te esperar. Até a noite.

O nosso plano falhou.

Meu pai e tia Eunice resolveram assistir um filme de umas dez horas de duração. Entrei e saí do meu quarto infinitas vezes e eles continuavam na sala vendo o tal filme. Eu não podia nem ligar para João Victor e dizer que não ia dar certo, pois o celular não funcionava na fazenda. Diante da demora eu acabei adormecendo e só acordei de manhã.

Dei um pulo da cama. Todos já estavam acordados. Ana sorriu assim que me viu.

– Dormiu demais ontem?

– Eu? Não. Por quê?

– Sebastião encontrou João Victor dormindo dentro do carro dele na entrada da fazenda. Ele não soube explicar o que estava fazendo ali e saiu apressado. Será que ele esperava alguém?

Ana sabia. Sorri fingindo desentendimento.

– Não faço ideia, Ana.

Só encontrei João Victor na festa do meu pai. Ele não parecia muito feliz pelo acontecido na noite anterior. Dei um jeito de fugirmos para o mirante, mas antes que pudéssemos aproveitar nosso momento sozinhos, encontrei Carol e Beto sentados no chão bem próximos um do outro.

– Carol?

– Júlia?

– Você é rápido, hein? Quase não desgrudava da boca daquela menina no aniversário do seu irmão e agora já quer ficar com minha amiga?

– O quê? – Carol se virou para Beto.

 

Continua…

 


 

Plá:

Sincero: aquele que se expressa sem artifício nem intenção de disfarçar seu pensamento ou sentimento.

Seja sincero!

 

 

4 comentários em “Vida de Solteira – 12: Amanheceu

  1. Mas como assim já acabou gente??? Amigos rurais kkkkkkkkk Rachei de rir. Eu sabia que a Camila ia rodar. Já foi tarde. To adorando o João. Beto. Quer explicar quem era a menina que o senhor estava beijando? Adoreio capítulo, mas podia ter durado mais né? Nem teve PV da Carol.

  2. Menina!! Pra que esse bendito continua ai ein?? Só sábado agr!! OMG!!!! 😣😣
    Quero ver oq Beto vai explicar pra Carol agr… E será que Júlia se deu bem mesmo?? Run

  3. Aff ja acabou? Como assim? Beto vai ter q se explicar viu? To amando o João! Tenho q esperar até sábado agora. 😪

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