dois livros e um intruso

Vida de Solteira – 16: Intruso

dois livros e um intruso

 

Carol

 

Tenho certeza que na sua vida, alguém já veio dar uma opinião que você não pediu. Comentou com seus pais sobre as suas amizades ou interferiu em algo sem você ter chamado.

No meu caso, foi o desocupado do vizinho. Por que ele não pegou uma vassoura e foi varrer a casa, espanar os móveis, lavar a louça do café? Não, ele tinha que ficar observando a minha casa e ver o exato momento em que Beto descia pela varanda.

Escutei os gritos de Beto e corri para ver o que tinha acontecido. Com plena consciência de que, não apenas eu, mas a casa inteira, tinha ouvido. A cena, no futuro se tornaria cômica, mas naquele momento era totalmente trágica. Beto pendurado na varanda e o vizinho com um aparelho de choque, conhecido como taser, ameaçando derrubá-lo lá de cima.

– Não faça isso, seu Luciano. Eu conheço ele.

– Se conhece por que ele tá descendo pela varanda? Você tá envolvida com coisa errada, menina?

Sou uma pessoa da paz, não apoio violência, mas se eu tivesse uma pedra enfiaria na boca daquele homem para impedi-lo de falar tanta besteira.

– O que está acontecendo aqui, Carolina?

O momento mais temido acabava de acontecer. Meu pai apareceu.

– Pai, eu…

– O vagabundo ia fugindo da sua casa pela varanda.

O vizinho, metido, não parava de falar.

– É mentira! – Júlia gritou.

– Eu ajudei Beto a entrar aqui. Ele queria fazer uma surpresa pra Carol. E a ideia de subir pela varanda foi minha.

– Que lindo! Tão romântico amor, lembra nós dois.

Minha mãe já tinha entendido tudo e tentou me ajudar a convencer meu pai.

– NÃO! Essas meninas estão querendo enganar vocês.

– Muito obrigada pela preocupação, Luciano. Mas isso é um assunto de família, resolveremos entre nós.

HAHAHA. Idiota. Deveria ter gritado, mas apenas sorri para seu Luciano discretamente.

– Depois não diga que eu não avisei – ele ainda falou antes de entrar em casa.

Meu pai foi pegar uma escada para Beto descer.

– Que surpresa era essa que você queria fazer? – meu pai perguntou.

– Eu? Eu, eu… Só queria dizer que já tinha escolhido o terno do casamento.

Beto era péssimo pra inventar mentira.

– E por que não disse isso pelo telefone?

– Ele queria ver Carol e ficou com receio de vocês se incomodarem por já ter passado boa parte da noite aqui. Quando Beto me ligou pedindo ajuda, eu sugeri que ele entrasse pela varada, fizesse essa pequena surpresa e fosse embora. Por isso que cheguei cedo, para ajudá-lo a entrar sem vocês perceberem. Mas aí, o vizinho medonho se meteu.

Apesar da história ser um pouco confusa, Júlia parecia convincente e meu pai acreditou.

– Não faça mais isso, rapaz. Quando quiser falar com Carol pode vir aqui sem problema.

Beto sorriu desconfiado e pediu desculpas. Meu pai esqueceu rapidamente o incidente e o chamou para olhar as bebidas que ele ia servir no almoço. Assim que eles entraram, minha mãe passou de advogada de defesa a de acusação.

– Interessante. Beto ter vindo com a mesma roupa que usava ontem e toda amassada.

– Pois é, Carol. Não aceite isso. Homem também tem que se preocupar com a aparência.

Sorri e minha mãe também.

– Júlia, não precisa mais gastar sua criatividade.

Minha mãe falou e me chamou para uma conversar em particular. A hora da bronca.

– Minha filha, eu sei que Beto dormiu aqui. Não adianta mentir. Não vou dizer a seu pai e vou confiar em você que isso não vai mais se repetir. Ele está muito feliz com Beto e isso o deixaria muito decepcionado. Vão com calma, não ultrapassem os limites da confiança que demos a vocês. E outra coisa, espero que esteja consciente de tudo que já conversamos sobre prevenção, gravidez indesejada.

– Eu sei, mãe. Quanto a isso não precisa se preocupar. Obrigada por não me entregar ao papai. Pode deixar que não farei mais nada errado.

Minha mãe ficou na cozinha e saí procurando Beto. Encontrei ele no jardim com meu pai e Júlia.

– Meu amor, venha aqui! Estou precisando da sua ajuda.

Minha mãe chamou meu pai e fiquei sozinha com Júlia e Beto. Nos olhamos e começamos a sorrir.

– HAHAHAHAHA

– KKKKKKK

– HAHAHAHA

– Meu Deus, estou tremendo até agora. – Beto disse.

– Já podem me agradecer.

– Obrigada, Juh. Você foi excelente. Estou surpresa com a sua capacidade de contar mentira tão bem.

– Não sei se posso te agradecer tanto assim, Júlia. A varanda, o local mais baixo que você disse para descer, era muito alta. Enquanto eu estava lá pendurado só conseguia pensar se eu iria quebrar uma ou as duas pernas quando pulasse. Acho que, na verdade, o vizinho me salvou.

– Carol, já sinto que você foi enganada. Esse cowboy, pelo jeito, não tem nada de valente.

– Não vai se defender, cowboy?

– Não queria decepcioná-la, meu amor. Mas meu nível de valentia não chega a tanto. Quando ele me ameaçou com a máquina de choques, me vi estraçalhado no chão e a valentia sumiu do meu vocabulário.

Sorrimos.

– Acho melhor você ir para casa, trocar de roupa e voltar. Daqui a pouco seus pais chegam. João Victor vem, Júlia?

– Não sei.

Ela ficou séria e percebi que tinha alguma coisa errada. Beto avisou a meus pais que ia em casa colocar uma roupa mais apresentável para o almoço e eu subi com Júlia para o meu quarto.

 


 

Júlia

 

Carol saiu cavalgando com Jam Black. Usei a desculpa de esperar o pessoal do som, para deixá-la ir sozinha. Tem momentos que precisamos ficar sozinhos até a dor suavizar.

Depois do almoço não consegui relaxar, precisava descobrir o que estava acontecendo para ajudar a minha amiga. Resolvi ir procurar João Victor. Quando cheguei na fazenda Beto ia saindo feito um furacão. Ele passou tão rápido por mim que nem me viu.

“Seu irmão não é você, João Victor. Não é a mesma história, meu filho. São pessoas e situações diferentes.”

Dona Rosângela conversava com João Victor e escutei ele chorar.

Ele é muito burro. Beto vai se ferrar como eu me ferrei, mãe.”

“Meu filho, você não pode agir assim. Seu irmão não é você e Carol não é Beatriz. Você não pode decidir por ele e querer que ele corrija um erro seu.”

Dona Rosângela e João Victor continuavam conversando sem perceber a minha presença. O meu corpo sentiu um calafrio ao ouvir Beatriz. Quem era Beatriz?

“Eu amava aquela desgraçada, mãe. Amava demais. Até hoje não acredito que ela teve coragem de fazer aquilo comigo.”

“João Victor, esqueça isso, meu filho. Você está tão feliz com Júlia. Uma menina boa, quem também parece gostar de você.”

“Júlia é muito especial pra mim. Eu gostei dela assim que a vi. É diferente de Camila, que só fiquei porque era bonita e eu queria mostrar pra todo mundo que estava bem. Eu fui atrás de Júlia, eu insisti pra ficar com ela e é muito bom quando estamos juntos, mas, por mais que eu queira, talvez eu não a ame como amei Bia.”

Fui procurar respostas e acabei levando um soco no estômago, uma paulada na nuca e dois chutes violentos nas pernas. Depois daquilo, saí silenciosamente e entrei no carro sem que ninguém percebesse.

Numa história perfeita meu pneu furaria na estrada e apareceria um príncipe de sorriso largo, com olhos encantadores, para me salvar. Mas nada disso aconteceu. Dirigi até a fazenda do meu pai fazendo uma força enorme para não deixar as lágrimas caírem até eu entrar no meu quarto. Felizmente, eu consegui.

Vou contar uma breve história para vocês.

Era uma vez uma menina que sonhava em casar. Um dia ela conheceu um garoto que imaginava ser seu príncipe. Ela, a idiota, fazia tudo por ele. Inclusive comprar perfume caríssimo dividido em 10 parcelas. Um dia o suposto príncipe disse que seria bem mais feliz longe dela e foi embora. A “fossa” dominou sua vida, até que surgiu outro, com olhos intensos e falando de amor. Ela, mais uma vez, acreditou no continho de fadas e PÁ. Acabava de descobrir que ele ainda amava uma tal de Bia.

Agora me ajudem, qual a esperança pra uma pessoa com uma vida amorosa dessa? Já me vejo sozinha, enrugada, sendo chamada de tia pelos filhos de Carol.

Liguei o rádio que meu pai comprou para o meu quarto, procurando uma música triste que me deixasse ainda pior e estava tocando:

Você partiu meu coração

Mas meu amor não tem problema, não, não

Agora vai sobrar, então

Um pedacim pra cada esquema…

A música não era triste, mas eu chorei. Chorei muito ao lembrar que eu não tinha nenhum esquema para compartilhar um “pedacim” sequer do meu coração que acabava de ser partido. Passei o resto do dia dentro do quarto. Meu pai e tia Eunice continuavam passeando e Ana respeitou o meu momento. À noite João Victor chegou lá em casa.

– Júlia, João Victor está aqui.

– Certo. Fale pra ele que estou indo. Obrigada, Ana.

Antes de sair do quarto, gritei três vezes com a boca abafada pelo travesseiro. Isso foi fundamental para que eu mantivesse o controle ao vê-lo.

– Oi, João Victor.

– Oi meu amor. Queria te pedir desculpa pelo escândalo de hoje de manhã. Não imaginei que Beto viria atrás de mim e aconteceria aquilo tudo.

Meu amor? Mentiroso! Mentiroso! Mentiroso! Por que mentem tanto?

– E qual foi o motivo daquela briga toda, afinal?

– Beto foi aprovado para fazer um mestrado no Colorado e não quer ir por causa de Carol.

– E por qual motivo você está tão incomodado dele não querer ir?

– Só estou pensando no melhor pra ele. E essa grosseria toda é por quê?

– Grossa? Eu? Imagina! Jamais ficaria chateada em saber que Bia é muito mais importante pra você do que eu.

João Victor arregalou os olhos pra mim.

– Bia? Quem falou de Bia pra você. Não acredito que Beto foi capaz de fazer isso.

– Eu escutei, João Victor. Hoje de manhã, você conversando com a sua mãe. Eu só não entendo uma coisa. Se você sabia que não me amava, pra que veio com todo aquele papo de nos conhecermos melhor? Que o amor acontece de forma repentina e blá blá blá.

– Júlia, você entendeu tudo errado. Eu gosto muito de você. Depois que Bia foi embora, você foi a primeira pessoa que despertou aquele sentimento bom em mim novamente. Mas não é fácil esquecê-la. Ela foi o meu primeiro amor, nos conhecemos no colégio, pensei que um dia nos casaríamos, desisti de ir estudar o último ano da escola no Canadá por causa dela. E sabe o que aconteceu? Três meses depois ela foi morar em outra cidade porque o pai foi transferido e após um mês que estava lá, me ligou terminando tudo, dizendo que tinha se apaixonado por outro.

A história era triste. Até fiquei com pena dele, mas eu não merecia ser bengala de ninguém. Não sou analgésico para curar a dor dos outros.

– Eu entendo você, mas eu não quero ser o que sobrou. Não quero, João Victor. Prefiro terminar logo.

– Júlia, você está exagerando. Eu gosto muito de você e percebo que esse sentimento cresce cada dia mais.

– Pra mim não existe essa conversa de sentimento crescer. Isso aí é tudo mentira que se inventa para enganar o coração. Já deu, João Victor. Vou entrar agora.

Voltei para o meu quarto, tranquei a porta e chorei até o sono ter pena de mim e me fazer dormir. Acordei com Ana batendo na porta do quarto.

– A mãe de Carol ligou aqui pra fazenda e disse que ela ficou noiva de Beto.

– Noiva?

– Sim. E hoje vai ter um almoço em comemoração. Ela ligou nos convidando.

Tomei um banho e corri para casa de Carol. Precisava sair daquela atmosfera cinzenta do meu quarto e compartilhar da alegria dela. Além de estar mega curiosa para saber como aconteceu esse noivado.

Apesar da tristeza que ainda pesava em meu peito, me diverti horrores tentando ajudar Carol a sumir com Beto de dentro de casa. Depois de um quase desastre, fomos para o seu quarto escolher a roupa que ela usaria no almoço. Contei o que tinha acontecido comigo e com João Victor e ela me fez trocar de blusa para ficar mais bonita, caso ele também aparecesse na comemoração do noivado.

João Victor, para a minha surpresa, foi acompanhando os pais. Os convidados sentaram no jardim e troquei poucas palavras com ele, que me olhava sem disfarçar. A mãe de Carol avisou que o almoço estava pronto e entramos.

O pai de Beto fez um pequeno discurso e agradeceu a Carol por está fazendo o filho dele muito feliz. Todos se emocionaram e quando eu ia dar a primeira garfada a cozinheira entrou na sala e avisou que tinha um rapaz no portão querendo falar com Carol. Vi a cara de espanto que ela fez e a acompanhei.

 


 

Carol

 

Quem será que quer falar comigo justamente agora? Será alguma coisa da faculdade? Mas se fosse isso tinham me ligado.

Peguei meu celular que estava na mesinha da sala só para verificar se alguém tinha me ligado e… Não podia ser!

Dez chamadas perdidas de Rodrigo. Caminhei em direção ao portão com as pernas tremendo. Meu medo se confirmou. De longe vi que a pessoa era ele.

Parei sem saber o que fazer. Olhei para trás pensando na possibilidade de telefonar para o vizinho e pedir que ele usasse a arma de choque em Rodrigo. Foi quando vi Júlia.

– Júlia! Rodrigo tá aí. Não acredito que ele apareceu na minha casa justamente hoje. O que eu faço?

Enquanto eu me desesperava Júlia permanecia em silêncio e de repente reagiu.

– Eu já sei!

 

Continua…

 


 

Plá:

Amigos, um pedaço físico do céu ao nosso lado.

5 comentários em “Vida de Solteira – 16: Intruso

  1. MISERICÓRDIA. O verme surgiu das cinzas. Some sua praga. João Victor. Eu amo você, mas nesse momento quero dar na sua cara. Pelo que tá fazendo com a Julia. Precisava dizer isso? Tem coisas que a gente não fala. Nunca ouviu que paredes tem ouvidos? Beto. Seu lindo. Continue assim. E para o vizinho intrometido, vai cuidar dá sua vida. E usa aquele Taser na praga do Rodrigo e não no gato do Beto. Amei o capítulo e amei mais ainda ter saído antes. Continua!!!

  2. Eu num digo!!
    Abriram a cova do defunto!!
    Mas será possível que Carol não tem sossego nesta vida? E Júlia?? Sou eu escritinha!! Amei!!

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