plano

Vida de Solteira – 17: Planos inevitáveis

plano

Júlia

 

A chegada de Rodrigo foi uma novidade que ninguém queria receber. Carol enlouqueceu, falava sem parar. Vi-me obrigada a ser mais racional e encontrar uma solução rápida, porque o problema estava bem na nossa frente, prestes a explodir. Foi aí que uma ideia muito louca surgiu.

– Eu vou falar com ele, Carol!

– Você? Não, Júlia. Não quero você brigando com Rodrigo no portão da minha casa. Vai chamar atenção de todo mundo, a situação ficará ainda pior.

– Eu sei muito bem o que vou fazer, não sou louca!

Carol estava exagerando, eu só agi sem pensar uma vez. Não poderia ser considerada uma pessoa descontrolada por ter rasgado, completa e propositalmente, a camisa do meu ex-namorado durante uma festa. Poderia? Em minha defesa, alego que ele era mentiroso, dissimulado, interesseiro… Quem não perderia a cabeça com uma pessoa dessas? Além disso, a camisa foi um presente meu. De certa forma, só peguei de volta, ainda que não tenha sido do jeito mais delicado.

O importante era que agora o meu plano não envolvia nada de tumulto. Totalmente paz e amor.

– Oi, Rodrigo. O que você veio fazer aqui?

– Eu preciso falar com Carol. Não aceito que ela suma assim, sem nenhuma explicação. Só acredito que ela não quer mais ficar comigo, se ouvir da boca dela.

– Rodrigo, hoje é impossível você falar com ela.

– Então eu vou continuar aqui.

Quando a pessoa nasce para ser inconveniente, não tem educação na Suíça que mude isso.

– Mas ela não vem, porque neste exato momento está acontecendo a comemoração do noivado dela, com direito a presença do noivo, da futura sogra, do futuro sogro, do cunhado…

– Noiva? Carol está noiva? Por que ela não me avisou? Não acredito que ela foi capaz de fazer isso comigo. Eu preciso falar com ela.

Já esperava aquele teatro dele quando elaborei o plano.

Eu não culpava Carol por ter caído na conversa de Rodrigo. O desgraçado, além de lindo, tinha um charme envolvente. Se eu não conhecesse a figura, acreditaria que ele era um homem apaixonado. Eu precisava ser mais esperta que ele.

– Rodrigo, eu entendo seu sofrimento e conversei com Carol. Ela concordou em falar com você outro dia.

Era a minha primeira tentativa de convencê-lo a ir embora. Se não desse certo, infelizmente, entraria em ação a parte mais arriscada do plano.

– Eu não saio daqui sem falar com ela, Júlia. Nem adianta você tentar me convencer. Pode desistir. Se o noivinho dela não gostar, diga que venha falar comigo também.

– Rodrigo, causar uma grande confusão aqui não é bom para ninguém, inclusive pra você. Podemos fazer de outra forma. Eu deixo você entrar, você finge ser meu convidado e que está conhecendo Carol hoje. Se fizer tudo certinho, ela fala com você amanhã. Se não fizer, direi que é um bandido. Que se aproximou com a desculpa de comprar um perfume anunciado por mim em um site de vendas, mas, se aproveitando de um momento de total fragilidade minha, conseguiu que eu enviasse algumas fotos mais intimas para você e desde então vem me chantageando. Só para deixar mais claro, caso ainda não tenha entendido, se escolher a segunda opção, direi a todos que sua entrada no noivado de Carol só aconteceu porque você me ameaçou no portão. A decisão é sua!

Ele precisava entender que eu também sabia mentir. E para defender Carol, faria todos acreditarem que eu fui ajudante de Deus e a pessoa responsável por definir a cor dos cabelos de Eva.

– Hahaha. Você é louca. Tudo bem, combinado. Sou seu amigo, seu convidado e não conheço Carol. Mas, se ela não falar comigo amanhã, eu volto aqui novamente.

Concordei e nós entramos. Amanhã era um novo dia, encontraríamos outra solução.

Começamos a subir a rampa do jardim e Carol estava na porta de entrada com Beto ao seu lado. Ela conversava com ele visivelmente nervosa e quando me viu entrar com Rodrigo, paralisou com os olhos esbugalhados na nossa direção.

– Oi, prazer. Você é a noiva? Júlia fala muito de você. Eu sou Rodrigo, amigo dela.

Rodrigo estendeu a mão e Carol me olhou. Dava para ver pontos de interrogações saindo da cabeça dela.

 


 

Carol

 

Que plano estúpido foi esse que Júlia inventou, pelo amor de Deus?

– Oi. Eu sou a noiva.

Sorri desesperada com vontade de sair correndo.

Estendi a minha mão e ele se aproximou. Rodrigo não fez nenhuma questão de ser discreto e beijou meu rosto como se eu tivesse duas bocas nas bochechas. Ridículo.

– Vamos entrar, Carol? – Beto falou demonstrando um pouco de irritação com aquela cena.

Concordei, mas antes de voltarmos à mesa do almoço, Rodrigo nos interrompeu.

– Espere aí. Eu conheço você de algum lugar. Pode ser da academia. Você malha onde?

– Conhece não. Engano seu – Beto respondeu sem olhar para ele.

Já tinha escutado várias vezes as pessoas falarem “Ele foi curto e grosso” e estava ali um exemplo bem claro de “curto” e “grosso”. Beto não quis conversa com Rodrigo o que me causou um alívio. Seria muito pior se os dois se tornassem amigos. Infelizmente, eu sabia que Rodrigo tinha razão. Ele lembrava de Beto porque os dois moravam no mesmo prédio.

– Temos mais um convidado?

Mamãe falou toda admirada com a beleza de Rodrigo. Não tinha como negar que ele tinha uma beleza enorme, uma pena ser desperdiçada em um coração vazio.

– Temos sim. É um amigo meu, convidei para comemorar conosco o noivado de Carol. Desculpe, esqueci de avisar. Tem algum problema? – Júlia se mantinha calma.

– Imagina, minha querida. Seu amigo é muito bem-vindo aqui. Sentem-se.

Minha mãe teve a brilhante ideia de colocar Rodrigo sentado bem na minha frente. Eu não podia levantar a cabeça que ele estava me olhando. Resultado: comi com meu rosto quase dentro do prato. Que dia! Só podia ser um castigo por eu ter mentido para os meus pais.

– Como você conheceu seu noivo, Carol?

Não sei onde Júlia estava com a cabeça quando deixou Rodrigo entrar. De longe, foi a pior ideia dela. Eu ainda pensava como responder a pergunta dele, quando Júlia disparou.

– Hoje em dia tem tantas pessoas que são vítimas de ameaças pela internet, você não acha, Rodrigo?

– Acho, meu amor. Um absurdo esse povo que se esconde atrás do computador para ofender e ameaçar pessoas.

Todos na mesa começaram a prestar atenção na conversa e João Victor bateu a faca com tanta força no prato que senti o coração da minha mãe se apertar. Ela olhou discretamente para ver se a sua porcelana se mantinha intacta. Beto aproximou a boca do meu ouvido

– Tá acontecendo alguma coisa? Estou achando você tão tensa.

– Não. Impressão sua.

Uma vontade de chorar surgiu repentinamente. Uma simples omissão sobre um “ficante” que me fez sofrer, me levou para um poço de mentiras. Rodrigo era a pior pessoa que eu já tinha conhecido na minha vida. Ele não gostava de mim e só estava ali por causa do seu ego. Para ele eu deveria ter ficado disponível eternamente, como um objeto que ele usava e guardava para usar novamente quando sentisse vontade. Ser “trocado” por outro era uma ofensa inadmissível.

 


 

Júlia

 

O almoço finalmente acabou. Eu estava perdendo a paciência com Rodrigo que não parava de tentar provocar Carol e, para piorar tudo, ainda resolveu me chamar de amor.

As pessoas foram se espalhando pelo jardim. Deixei Rodrigo conversando com um primo de Carol e fui ao banheiro para tentar me acalmar um pouco depois de toda a tensão do almoço. Abri a porta do banheiro, entrei e estava quase fechando, quando alguém empurrou e impediu que eu fechasse. Era João Victor.

– Então é por isso que você quis terminar? Já estava saindo com esse aí, neh?

– Não devo satisfação da minha vida pra você. Vá procurar Bia, o seu amor.

– Quem é você pra falar de mim, Júlia? Em menos de um dia tem um homem te chamando de amor bem na minha frente.

– Não gosto de nada escondido. Se é pra chamar de amor, que seja na sua frente mesmo.

Não ia tentar acalmar João Victor, queria que ele sentisse pelo menos um terço da dor que eu senti ao escutá-lo falar da tal Bia.

– Você estava me traindo, Júlia?

– Pense o que quiser!

– Fale! Diga a verdade uma vez na vida. Acreditei em você, não sabia que trair era de família.

Eu tinha uma ferida, causada por minha mãe, que provavelmente nunca cicatrizaria, embora melhorasse a cada dia. A traição dela e toda a dor que passei depois disso era algo impossível de esquecer. E João Victor sabia, mas resolveu me atingir mesmo em cima.

 – Saia daqui agora!

– Desculpe, Júlia. Eu não devia ter dito isso, mas você me fez perder a razão.

Ele tentou me abraçar.

– Não encoste em mim. Vá embora, João Victor.

– Me desculpe, Júlia. Por favor? Eu não queria te magoar. Mas fiquei louco quando você deu a entender que estava me traindo.

– Eu não traí você com ninguém. Satisfeito? Agora saia daqui.

Ele foi embora e fiquei ali lembrando de tudo que me fazia sofrer. Lágrimas e mais lágrimas chegaram para me fazer companhia.

Não sei quanto tempo fiquei perdida na minha dor, mas quando voltei ao jardim percebi que algo de errado estava acontecendo quando vi Carol chorando e correndo em direção à garagem.

 


 

Carol

 

Depois que o almoço terminou fiquei conversando com Beto na varanda da minha casa. Não queria descer para o jardim e ficar esbarrando com Rodrigo me olhando o tempo todo. Quando ele fosse embora, eu falaria com Júlia para entender o que tinha acontecido.

Entre um beijo e outro, sorríamos lembrando do que tinha acontecido um pouco mais cedo, com Beto pendurado na varanda. Finalmente um pouco de calmaria naquele dia tão agitado.

– Beto? Seu irmão está procurando por você.

Beto acompanhou meu pai e foi ver o que João Victor queria. Permaneci no mesmo lugar. Fechei meus olhos e tentei relaxar enquanto esperava ele voltar.

– Então você fica noiva e nem fala nada?

Tomei um susto ao ouvir a voz de Rodrigo, abri os olhos e o vi bem na minha frente.

– Rodrigo, não estou entendendo o que você quer. Há muito tempo que eu não falo mais com você. Que saudade repentina é essa agora? Acho que sua hora de ir embora já passou.

– Você não ama esse menino, Carol. Eu sei que você só ficou noiva dele para me provocar. E funcionou. Então acabe logo com isso.

– Admiro muito a sua autoestima, mas sinto informar que dessa vez você se enganou. Pode ir embora tranquilo que estou muito feliz com meu noivo.

– Duvido que não sinta minha falta.

Rodrigo me puxou e encostou seu corpo no meu. O empurrei e consegui me afastar.

– Tá louco, Rodrigo? Vá embora. Não tenho mais nada para conversar com você.

– Tudo bem. Sei que não quer constranger seu noivinho. Amanhã de que horas?

– Amanhã?

– Sim. Júlia disse que você conversaria comigo amanhã se eu mantivesse a mentira de que não te conhecia.

– Como é? – Beto falou nas minhas costas.

Não. Não. Não. Não.

A voz sumiu.

– O que ele tá dizendo, Carol? Que mentira é essa?

– Beto eu…

– Diga a logo a verdade a seu noivinho. Vai ser melhor pra todo mundo e você não precisará mais esconder que gosta de mim.

Eu podia sentir a dor de Beto ao ouvir aquilo.

– Cale a boca. Eu não perguntei nada a você.  Fale, Carol. O que você está me escondendo?

Que Deus me ajude!

– Eu já fiquei com Rodrigo algumas vezes.

Ai não. Comecei do jeito errado. Já fui logo falando que fiquei com ele várias vezes. Burra! Burra! Burra!

– Mas ele não tem a menor importância pra mim, Beto. Eu não sei por que essa criatura resolveu aparecer aqui. Eu não falo com ele há muito tempo. Acredite em mim, não tenho mais nada com ele e nem quero ter. Só menti para não estragar a nossa festa de noivado.

Beto permaneceu em silêncio por alguns minutos. Não tinha visto, mas em algum momento João Victor chegou e também estava ali.

– Eu preciso pensar, Carol. Não acredito que você foi capaz de mentir pra mim desse jeito. Não sei o que pensar agora.

– Eu falei pra você, meu irmão. Você ia cometer o mesmo erro que eu cometi. As mulheres são assim, só pensam nelas.

A mesma pedra que eu teria colocado na boca do vizinho, serviria perfeitamente para João Victor naquele momento.

– Beto, por favor, acredite em mim.

Ele se virou e foi embora sem olhar para trás.

– Feliz agora, seu estúpido? Saia da minha casa. SAIA! – falei com toda a raiva que um coração era capaz de suportar e empurrei Rodrigo.

– Agora podemos ficar juntos.

– Eu não vou ficar com você nunca mais. Eu tenho nojo de você. NOJO!

Corri em direção à garagem para pegar o carro do meu pai e ir atrás de Beto.

– Carol, o que está acontecendo? – Júlia apareceu ao meu lado.

– Beto descobriu tudo. Onde você estava com a cabeça de deixar Rodrigo entrar aqui? Não acredito que tudo vai acabar assim. Vi a decepção no rosto dele, Júlia. Isso só pode ser um pesadelo.

– Não sei. Me desculpe. Ele tava dizendo que não ia embora de jeito nenhum e tentei ajudar de alguma forma.

Entramos no carro e fomos para a casa de Beto.

– Estamos noivos, Júlia. Não vai acabar tudo assim, não é? Ele vai me entender, não vai?

– Vai amiga. Vamos ter fé.

Senti que Júlia não acreditou no que disse. Eu também não acreditava. Por favor, que nós estivéssemos enganadas e não fosse o fim. Beto não podia ir para outro país brigado comigo.

 

Continua…

 


 

Plá:

Quando não houver saída, tente a janela lateral.

 

 

5 comentários em “Vida de Solteira – 17: Planos inevitáveis

  1. Primeiro… Por que essa ameba do Rodrigo tinha que voltar agora????????????? João Victor eu quero muito te dar um tapa pelo que você disse pra Julia. Eu senti minha garganta fechar quando li isso. FECHAR!! Adorei a manipulação que a Julia fez com o Rodrigo, mas tinha que dar errado né. Cade o taser do Luciano pra usar contra o Rodrigo quando se precisa dele? Não pode terminar assim #betovoltaatras #joãodeixadeseridiota e #somesuaameba São esses meus desejos depois de ler o capítulo. Vamos deixar as meninas serem felizes um pouco, vamos?? Amei o capítulo como sempre. Bjs!!

  2. Quando digo que ex (seja ficante ou namorado) só aparece pra trazer prejuízo, tô é certa!! 😂😂

  3. Eita lasqueira.. é cada situação q essas duas se metem, tão precisando de um banho de sal grosso kkk
    Connnnnntuaaa o mais rápido possível

Deixe seu comentário