pássaros cantando

Vida de Solteira – 18: Serenata

pássaros cantando
Imagem de autoria desconhecida.

Carol

 

Chegamos à portaria do apartamento de Beto, mas o porteiro só permitia a nossa entrada se ele autorizasse.

– Chama e ninguém atende, senhorita.

– Mas ele tá em casa. Tente novamente, por favor.

– Ninguém atende.

– O senhor tá desistindo muito fácil. Ele pode tá tomando banho ou dormindo e não escutou.

– Eu não posso fazer nada se o rapaz não quer recebê-la.

Senti uma raiva gigantesca do porteiro. Qual a necessidade dele esfregar no meu rosto algo que eu já tinha percebido? Respirei fundo e fingi não me incomodar com seu comentário maldoso.

– Tente outra vez.

Repeti o “tente outra vez” pelo menos mais umas dez vezes e o resultado era sempre negativo. Pela expressão do porteiro, ele nem interfonava mais, apenas fingia.

– E agora, Júlia?

– Não sei. Meu estoque de ideias zerou depois do desastre da última.

– Não acredito que Beto não vai querer me escutar.

– Não fique assim, Carol. Talvez ele só precise se acalmar um pouco.

Sentei na calçada do prédio me sentindo derrotada. Não tinha nada que eu pudesse fazer. Invadir o condomínio passou pela minha cabeça rapidamente, mas logo vi que só arrumaria mais confusão.

– Deve ter algum jeito de falar com ele – Julia disse, sentando ao meu lado.

– No momento, só se for por telepatia.

– Acabei de encontrar um jeito! – ela disse e correu em direção a um carro que estacionou em frente ao prédio.

Júlia bateu forte com a mão na janela do carro.

– Ei, tá louca?

Ouvi Rodrigo falar. Me levantei e fui ajudar Júlia. Dessa vez a ideia dela era boa. Ele era a única chance de entrarmos ali.

– Rodrigo, você precisa autorizar nossa entrada aqui.

Ele me olhou e sorriu. Ao seu lado já tinha uma miss simpatia.

– Eu? Por que eu faria isso por uma pessoa que sente nojo de mim e me expulsou da sua casa?

– Porque foi culpa sua. Você não cansa de magoar os outros, Rodrigo? Como você pode ficar em paz causando o sofrimento nas pessoas? O que você ganha iludindo essas meninas e destruindo meu noivado com Beto? Tenho certeza que existe um vazio enorme aí. Eu não tenho culpa se alguém te machucou um dia. E tenho certeza que essas atitudes só ajudam a manter a sua ferida aberta.

Aquele sorriso safado que ele sempre mantinha no rosto sumiu. Rodrigo ficou sério.

– Vai me ajudar a falar com Beto ou não?

– Entrem logo no carro.

Talvez Rodrigo ainda tivesse salvação um dia.

– Obrigada! – falei antes de descer.

– Não se acostume.

Ele sorriu meio sem vontade e antes de entrarmos no elevador, vi quando ele deu meia volta no carro e saiu com a menina. Não sei se desistiu de ficar com ela ou se foram se divertir em outro lugar.

– Será que Beto vai abrir a porta, Júlia?

– Não sei que horas ele vai abrir, mas vamos ficar lá até que isso aconteça.

Décimo andar, porta de Beto, agora era tocar a campainha.

Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don! Din-don…

Meu dedo já estava dormente e o “din-don” jamais sairia da minha cabeça. Se eu ainda tivesse oportunidade, diria a Beto para trocar aquela campainha por outra com barulho mais moderno.

– Ele não vai abrir, Júlia.

– Deixe eu tentar um pouco mais.

Ela assumiu meu lugar ao lado da campainha.

 – Será que Beto não está em casa?

– Se ele não estiver, é até bom. Assim quando chegar, já estaremos aqui. Mas, na dúvida, vou continuar tocando.

Eu admirava o otimismo de Júlia, apesar da sensação crescente de que tudo tinha chegado ao fim.

Só que, inesperadamente, um barulho de algo caindo veio de dentro do apartamento.

– Ele tá aí, Júlia! Ele tá em casa!

Uma alegria súbita apareceu. Ele estava me ignorando, mas podia me ouvir, então eu precisava fazer algo. Comecei a andar, enquanto Júlia tocava desesperadamente a campainha e um anjinho soprou no meu ouvido: Cante!

– Pare de tocar Júlia, eu tive uma ideia. Você conhece aquela música chamada “Fica” de Anavitória que Mateus & Kauan participam?

– Escutei algumas vezes, por quê?

– Vamos cantá-la. Eu faço a primeira voz e você a segunda.

– Carol, nossa voz não é das melhores, será que isso vai funcionar?

– Não sei. Mas preciso tentar alguma coisa.

– Então vamos. Comece!

No auge do desespero comecei a cantar.

Mapeei a dedo tuas sardas
Contornei sem jeito tuas linhas
Que te entregam e desvendam o melhor em ti

Me perdi no céu das suas pintas
Me encontrei no céu da tua boca
Tu é labirinto, rua sem saída
Me rendi a tua alma nua, vem cá

– Vai Júlia! Esqueci o resto da letra.

Congela o teu olhar no meu
Esconde que já percebeu
Que todo meu amor é teu amor
Então vem cáaaaaaaa. Aaaaaaaa! Aaaaaaa! Aaaaaaaaa!

Júlia se perdeu nos As.

– Eu só sei até aí, Carol. Vamos pular para o refrão – ela sussurrou.

Concordei balançando a cabeça e passamos direto para o refrão.

Fica
Fica, me queira e queira ficar
Fica
Faz o que quiser de mim
Contanto que não falte tempo pra me amar. Aaaaaa! Oouououou! Aaaaaaaa! Aaiaiaiaiaai!! Ouououououuuu!

Nos empolgamos nos As e Oouous para demonstrar nossa vontade de agradar e uma risada vinda do outro lado da porta massageou os meus ouvidos. Ele sorriu! Ele sorriu! Olhei pra Júlia e pulamos para comemorar nosso feito, sem parar de cantar.

Ficaaaaaaaaa. Ficaaaaaaaa
Faz o que quiser de mim
Contanto que não falte tempo pra me amaaaaaaaaaaar.

Após alguns minutos a porta se abriu.

 


 

 

Beto

 

João Victor me chamou para perguntar se eu podia deixar nossos pais em casa. Ele disse que teve uma discussão com Júlia e ia embora. Não vi nenhum problema. Avisei a minha mãe e combinamos dela me chamar quando quisesse ir. Falei rapidamente com alguns convidados que me pararam para dar os parabéns e fui encontrar Carol. Só não esperava que o mundo desabasse na minha cabeça.

“Júlia disse que você conversaria comigo amanhã se eu mantivesse a mentira de que não te conhecia.”

Levei um choque de alta voltagem. Ela conhecia aquele Rodrigo. Foi por isso que ele tentou se aproximar dela o almoço inteiro. Não acredito, Carol mentiu pra mim. Quando eu falei e ela se virou para me olhar, não era preciso que dissesse nenhuma palavra, sua reação já entregava a mentira. Mesmo assim, insisti que me contasse tudo. A verdade, infelizmente, não aliviou minha dor e ainda tive que me controlar para não calar a boca daquele imbecil com meus punhos.

Carol tentou se explicar, mas era impossível ouvir. A decepção e a tristeza não me permitiam enxergar mais nada. Saí daquela casa completamente atordoado. Como era possível tanta mentira em tão pouco tempo? Esqueci que tinha combinado de deixar meus pais, entrei no carro e fui embora. Por sorte João Victor ainda estava lá.

Dirigi até meu apartamento de forma automática. Chorei um pouco no sofá e esmurrei a almofada, até abrir um pequeno buraco. Eu não queria acreditar que João Victor tinha razão. Será que apenas eu sentia um amor verdadeiro por ela? Carol só queria brincar comigo enquanto não conseguia alguém melhor?

Em algum momento, entre uma noite no paraíso e um amanhecer no pesadelo, alguém roubou meus órgãos. Eu estava sentido um vazio tão grande, que por mais que eu me abraçasse, a sensação de oco por dentro não passava. Talvez a oportunidade de estudar fora fosse minha única saída. Um remédio que eu recebi antes mesmo de saber que seria ferido.

 Entrei no chuveiro e tomei um banho bem frio. Tentei lavar a dor, na ilusão que ela diminuiria, mas só sangrou ainda mais. No chuveiro, lembrei nós dois tomando banho na noite anterior e chorei alto. Ah, Carol! Por que você foi fazer isso comigo?

Ainda estava no banho quando escutei o interfone tocar. Não iria atender de jeito nenhum, certamente era João Victor com meus pais querendo saber o que tinha acontecido. Mas um aviso surgiu na minha cabeça: “E se fosse Carol?” Corri para olhar a câmera de segurança e lá estava ela. Linda, gesticulando com o porteiro, certamente reclamava de alguma coisa. Minha bravinha. Não, não posso pensar mais assim, ela mente. Meus sentimentos começaram a brigar: Proteja-se, burro! Se você for falar com ela, só vai se machucar ainda mais! Pare de ser idiota. Se ama a menina, desça e converse com ela. Enquanto eles travavam uma briga interna, eu fiquei parado em frente à tela olhando todos os passos de Carol. Vi Júlia correr na direção de um carro que parou na portaria e depois as duas entraram no prédio com ele. De quem será aquele carro?

Fiquei nervoso. O que eu faria se Carol viesse ao meu apartamento? Abriria ou não porta? A campainha tocou a primeira vez e não parou mais. Ela, realmente, queria falar comigo. Comecei a andar de um lado para o outro sem saber o que fazer, foi quando tropecei e derrubei o centro de mesa. A campainha continuou tocando sem parar e aí… Tudo ficou em silêncio. Me odiei por não ter aberto a porta.

Ela foi embora. Burro! Burro! Burro! Burro!

Sentei no sofá e coloquei as mãos no rosto, completamente perdido. Ouvi alguém falar. Me aproximei da porta e Carol estava cantando. Fiquei escutando e percebi que ela cantava para mim. Foi como se eu estivesse em uma corrida de Fórmula 1 e no segundo final eu conseguisse sair do último lugar e chegar em primeiro. Uma felicidade avassaladora chegou destruindo todo o meu ressentimento. Grudei meu ouvido na porta. Era desafinado, mas tão doce. Sorri quando ela e Júlia aumentaram a voz e ficaram cantando AAAAAAA, certamente tinham esquecido a letra. Abri a porta.

– Oi – ela disse um pouco assustada.

Sorri. Naquele momento me dei conta que teríamos que aprender a conviver com os nossos erros, porque separar era impossível.

– Beto, eu…

Não deixei que ela falasse. Peguei Carol nos braços e levei para o meu quarto.

– Me desculpa? – ela disse ainda nos meus braços.

– Desculpo. Só não faça mais isso.

Entramos no quarto e tranquei a porta. Não esperei mais nenhum segundo. Beijei Carol demonstrado todo o desejo que sentia por ela.

– Você tá ouvindo esse barulho?

– Não quero nem saber o que é. No momento, só você importa pra mim. Minha cantora.

– Kkkkkk. Tá me levando pra onde?

– Pssiu. Hoje quem manda sou eu!


Carol

 

Ele sorriu e voltou a me beijar. Beto me levou para o seu closet. Sentamos em uma poltrona que tinha lá dentro e senti uma enorme pressão entre as minhas pernas. Olhei para baixo e percebi que ele estava só de toalha.

– Você está sem nada por baixo dessa toalha?

– Não era essa a minha intenção, mas você chegou de surpresa.

Ele sorriu de um jeito safado e me agarrou deixando bem claro qual era sua intenção no momento. Quase destruímos o closet. Antes de atingir o nível máximo de felicidade, ele gritou um eu te amo e estrelas apareceram no teto. Deitamos no chão do cômodo quase secreto e ele começou a falar.

– Meu amor, eu sei que tínhamos um acordo, mas eu não vou cumprir.

– O quê?

– Eu não vou fazer esse mestrado fora do Brasil. Eu faço qualquer outro curso que você quiser aqui, mas não me peça para viajar pra outro país.

– Ainda estamos noivos?

– Que pergunta é essa? Pra mim você já é a minha esposa, só falta oficializar.

Lindo! Pulei em cima dele e comecei a beijá-lo.

– Eu preciso te falar uma coisa.

TOC! TOC! TOC! TOC! TOC! TOC!

Antes que eu pudesse dizer a Beto que Rodrigo morava no mesmo prédio que ele, para aquela história ser enterrada de uma vez, alguém quase derrubou a porta do quarto.

 – Carol! Socorro!!!

– Meu Deus, é Júlia.

Nos vestimos rapidamente e Beto abriu a porta.

– O que foi, Júlia? – Beto perguntou

– Na sala! Na sala! – ela falou apontando e nós corremos.

 

Continua…

 


 

Plá:

Fica! Me queira e queira ficar”

 

 

7 comentários em “Vida de Solteira – 18: Serenata

  1. Eu acho tanta maldade você ficar brincando com meu coração assim pessoa. Você me dá um capítulo fofo e cheio de arco íris, pra no final jogar uma bomba e me deixar na curiosidade até semana que vem. É bonito isso gente? Carol e Julia cantando foi taoooo fofo. Rodrigo se arrependeu e vai tomar um rumo ou vão continuar estrovando ? Beto seu lindo. Tem mais é que ficar com ela mesmo. E o que diabos aconteceu na sala pra interromper esses dois dona Júlia? Amei o capítulo. Mal posso esperar pra semana que vem.

  2. Criatura,que capítulo foi esse????? Meu Deeeeus!!! Que coisa linda!! 🙈🙈🙈🙈 quem será dessa vez ein?? Kkkkkkkk Amei,amei,amei!! “Fica, me queira e queira ficar.” ❤❤🙈

  3. Mata logo o Rodrigo, ele só serve pra atrapalhar…
    Kkkkk kkk 🙊🙂
    (Brincadeira, mas bem que podia acontecer)

  4. Que capítulo hein, quase tive um infarto hahah que bom q ta tudo certo entre eles… só espero não nada estrague isso . Ansiosa pelo próximo poste ♥_♥

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