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Vida de Solteira – 19: Julgamentos

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Rodrigo

 

Ela era minha vizinha. Eu estava sentado em frente ao portão da minha casa quando a vi pela primeira vez, na varanda do seu quarto. Senti uma sensação estranha, que arrepiou meu corpo todo, inclusive aquele órgão responsável por gerar outras pessoas. Coloquei as mãos sobre as pernas para esconder sua agitação.

Até aquele dia eu já tinha vivido 16 anos e as garotas não eram meu principal interesse. A minha diversão era jogar futebol e beber escondido com meus amigos.

Foi a menina de olhos brilhosos, o castanho-escuro mais fascinante que eu já vi, que me apresentou um mundo totalmente desconhecido, incrivelmente interessante e ao mesmo tempo perigoso.

Ela saiu da sua casa, atravessou a rua e veio falar comigo. A cada passo dado eu me apavorava. Como iria ficar em pé daquele jeito? Ela chegava cada vez mais perto e eu permanecia sentado com as mãos sobre as pernas.

– Oi.

– Oi vizinho. Qual seu nome?

– Rodrigo. E o seu?

– Jasmim. Nome pelo qual são conhecidas as espécies do gênero Jasminum, oriunda da Europa, famosa pelo seu cheiro delicado. No folclore francês, jasmim representa 66 anos de casamento.

Eu precisava aprender mais sobre a origem do meu nome. Depois que ela se apresentou me senti tão idiota por ter dito apenas “Rodrigo”.

– Legal!

Não tinha jeito. Eu não conseguia demonstrar um pouquinho, sequer, de inteligência nas minhas falas. A cabeça não conseguia pensar em nada além de: “como ela é linda!”

 – Vamos me apresentar à cidade? Cheguei aqui há uma semana e ainda não conheço nada.

– Agora? Como?

– A pé, de ônibus, metrô… Por quê? Você não consegue andar?

Não achei estranho ela pensar que eu não pudesse andar. Eu continuava sentado no chão.

– Sim, eu posso! Espere só um minuto.

Levantei em um pulo e corri para dentro de casa. Tomei um banho bastante frio até o “agitado” se acalmar e fui encontrá-la novamente.

Saímos caminhando pela cidade. Mostrei um parque que ficava próximo as nossas casas, pegamos um ônibus para o shopping e por último fomos à praia. Ela olhava tudo maravilhada, como se cada detalhe fosse uma novidade extraordinária.

– O mar é tão lindo – ela disse com os pés na areia e os olhos fixos na água.

– Você nunca tinha visto antes?

– Não. Quer dizer, só pela televisão.

Ainda admirávamos as ondas quando ela segurou a minha mão. Uma explosão aconteceu dentro de mim. Sorri feito um pateta. O ar entrou na via errada e meu sorriso pareceu um ronco de porco. Acabei de perder todas as minhas chances com ela. Pensei. Mas, por alguma razão, ela me olhou feliz e sorriu de volta.

Jasmim mudou minha vida para sempre. Até hoje lembro a primeira vez que minha boca tocou a dela. O mundo parou. Era só eu e ela flutuando no universo. Se existiam outras pessoas, passavam completamente despercebidas.

Por que tudo mudou?

Paro de pensar um pouco em Jasmim e vejo o meu estado. Sozinho, no meu apartamento, com os olhos inchados e ardendo de tanto chorar. Carol me acertou em cheio. “Como você pode ficar em paz causando o sofrimento nas pessoas?” Foram essas as palavras que ela usou. O que mais me destruiu foi perceber que ela tinha razão. Eu, realmente, era desprezível.

Fecho os olhos e volto a lembrar de Jasmim.

Era oficial. Estávamos namorando. Fui apresentado à família dela e ela a minha. Ambos os pais aprovaram o namoro e todos os dias, no final da aula, voltávamos para casa juntos.

–Não quero ir para casa agora – ela disse na saída da escola.

– Por quê? Aconteceu alguma coisa?

– Meus pais não param de brigar. Eles prometeram que na nova cidade tudo seria melhor, mas já começaram a brigar como sempre. Gritos, choros, discussões… Quero fugir de tudo isso, pelo menos por hoje.

– Quer ir ao parque?

– Não. No parque ainda me sinto sufocada. Preciso de um lugar mais longe.

– Então vamos à praia.

– Hoje sua mãe foi para o trabalho com seu pai? Poderíamos pegar o carro dela.

Em alguns dias da semana, quando o horário dos meus pais coincidia, os dois iam trabalhar juntos e um carro ficava em casa. Eu sabia dirigir, só não tinha carteira de motorista. Por isso fiquei com medo de pegar o carro da minha mãe escondido, mas não conseguia ver Jasmim triste.

Passamos na minha casa, pegamos o carro e seguimos pra praia. Fiz cócegas em Jasmim, contei piada, dei cambalhotas na areia e, em troca, ela retribuía com beijos deliciosos. A tarde voou. Às 17h45 olhei para o relógio e a chamei para voltarmos. Meus pais chegavam por volta das 20h. Não poderíamos correr o risco de pegar engarrafamento e chegar depois deles.

No caminho de casa, Jasmim ligou o som e começou a cantar.

– Olha como eu canto bem!

Ela cantava a música Céu Azul de Charlie Browm JR. Ainda consigo ouvir sua voz dizendo: “Vamos viver e cantar. Não importa qual seja o dia”.

Olhei para ela, que sorria, balançando o corpo de um lado para o outro no banco do carro.

Em segundos, tudo mudou. A música silenciou. Não lembro de nada, além de vultos girando ao meu redor. Acordei minutos depois. Fiquei preso nas ferragens. Percebi que Jasmim não estava mais ao meu lado. Comecei a gritar por ela, mas ninguém respondia.

– Jasmim! Jasmim! Jasmim!

Silêncio.

– Jasmimmmmm. Você viu Jasmim?

Perguntei ao homem que tentava retirar minha perna das ferragens.

– Fique calmo, rapaz. Tudo irá se resolver.

Quando conseguiram me retirar do carro, minha perna sangrava bastante. Uma pessoa me empurrava para entrar na ambulância, enquanto eu olhava para todos os lados procurando por Jasmim. Foi quando vi um pano preto que cobria alguém deitado no chão.

Eu sabia o que significava aquilo. Só não podia aceitar. Consegui me levantar rapidamente, corri e levantei o pano. Não podia ser, mas era. O pano preto significava o fim de Jasmim. Eu matei meu amor.

Nunca mais consegui ouvir o barulho do silêncio. Era perturbador demais para minha culpa.

Depois de um tempo comecei a ficar com outras garotas. Queria mostrar a meus pais que eu tinha superado, mas dispensava todas quando percebia que elas estavam gostando de mim. Sentia raiva por quererem roubar o lugar de Jasmim e queria machucá-las. Desejava que chorassem e sofressem, para entenderem que o amor é falso e pode matar, de forma literal ou metafórica. E, qualquer das duas, doí assustadoramente.

Carol fugiu da regra. No primeiro momento não senti vontade de machucá-la, porque ela me transmitia uma doçura que lembrava Jasmim. Um olhar inocente e sonhador de quem ainda acreditava no amor. Ela me fez recordar o Rodrigo que eu tentava matar todos os dias. Só que meu lado devastado me obrigou a fazer alguma coisa antes que ela me iludisse com aquele sorriso ingênuo.

Fiquei satisfeito, após nossa primeira vez, quando percebi a sua decepção. À noite, uma pequena parte de mim, quase sem voz, tentava dizer que aquilo não fazia sentido. Que magoar várias mulheres, durante anos, não me deixava feliz, não ia trazer Jasmim de volta. Ignorei. Em breve eu a dispensaria.

A reação de Carol foi atípica. Ela sumiu e não atendeu minhas ligações. Não podia aceitar aquilo. Ela precisava gostar mais de mim e chorar quando eu a dispensasse. Fui atrás dela e descobri o seu noivado. Me senti traído ao vê-la feliz com outro. Queria que ela terminasse tudo, mas não consegui.

Não podia voltar para casa e ficar sozinho depois da perturbação que Carol me causou. Liguei pra Érica e a levei comigo para o meu apartamento. Não esperava ver Carol na entrada do meu prédio. Descobri que o noivo dela morava lá e escutei suas duras palavras em um momento de fragilidade. Desisti de Érica. A dor estava muito forte para fingimentos.

Deitado naquele chão, revivendo todas as minhas dores, uma voz, quase morta, começou a ganhar força dentro de mim. Pare com isso! Machucar as outras pessoas não está certo. Você ainda não percebeu que isso só provoca mais sofrimento? Carol não merecia o que você fez.

Enxuguei as lágrimas e decidi ir falar com ela. Não podia permitir que a única pessoa que conseguiu me deixar um pouco menos triste, durante todos esses anos, partisse. Queria desabafar e ouvir sua opinião. Eu necessitava das palavras dela.

A porta do apartamento já estava aberta, nem precisei tocar a campainha.

– Rodrigo? O que você quer aqui? Por favor, não aguento mais confusão! – Júlia falou quando me viu entrar na sala.

– Eu não quero confusão. Prometo. Quero apenas falar com Carol, só alguns minutos.

– Mas ela não quer falar, Rodrigo. Aquilo tudo foi mentira minha. Ela não vai conversar com você nunca mais. Carol não tem culpa por você ter destruído os sentimentos dela com as suas mentiras, frieza e egoísmo. Não acredito que ainda insiste nessa conversa. Você não tem coração? Vá embora!

Talvez tenha sido o “Você não tem coração?” ou o “frieza e egoísmo”. Não sei qual foi a palavra que desencadeou a crise de choro. Chorei compulsivamente na frente de Júlia.

Júlia arregalou os olhos e se aproximou. Ela tocou a minha mão e voltei no tempo. Jasmim tocando a minha mão na praia. A felicidade que sorria pra mim.

– Como eu fui deixar isso acontecer? A culpa foi minha. Eu matei. Eu morri.

 Ela me abraçou sem dizer uma palavra e me levou até o sofá. Por alguma razão, Júlia me transmitiu confiança e contei, de uma só vez, toda a história para ela.

 


 

Júlia

– Eu teria me casado com ela, sido completamente fiel e acordado feliz ao ver aquele sorriso aventureiro. Mas eu a matei, Júlia. Matei.

Rodrigo falava e soluçava ao meu lado. O “bandido” do chat de vendas parecia uma criança perdida. Quantos julgamentos podemos fazer sem conhecer verdadeiramente uma pessoa? Eu mesma já tinha feito vários a respeito de Rodrigo e acabava de perceber que não fazia ideia de quem ele era.

– Foi um acidente, Rodrigo. Não foi culpa sua. Tenho certeza que Jasmim jamais culparia você e, de onde ela estiver, deve ficar triste ao ver você assim.

Ele não respondeu nada, apenas continuou chorando. O abracei e deixei que encharcasse minha blusa com as suas lágrimas.

Aproximadamente trinta minutos depois ele conseguiu se controlar.

– Me desculpe, Júlia. Eu não devia ter magoado Carol e nem constrangido você no noivado. Obrigada por me ouvir. Já me sinto melhor. Vou embora para não causar mais problemas.

– Tudo bem. Eu também quero pedir desculpas por ter atirado pedras precipitadamente.

– Eu mereci.

Ele abriu um pequeno sorriso e beijou minha bochecha. Finalmente, um pouco de paz.

– Júlia? Que safadeza é essa? O que vocês estão fazendo no apartamento do meu irmão? – João Victor falou empurrando a porta.

Pensei em gritar: SEXO!

Pra ver se ele deixava de ser idiota, mas fiquei calada e Rodrigo respondeu por mim.

– Nada demais, pode ficar tranquilo. Já estou indo embora.

– Muito engraçado você. Se agarrando com a minha namorada e me pedindo calma.

Rodrigo se virou pra mim com um olhar interrogativo de: “ele surtou?”

Sorrimos e João Victor não gostou.

– É Júlia, você aprendeu muito bem com sua mãe.

João Victor tinha me pedido desculpa na casa de Carol, mas voltava a me ofender novamente. A dor provocada por suas palavras me paralisou. Como ele teve coragem de dizer aquilo outra vez, ainda mais na frente de outra pessoa?

– Não fale assim com ela! Respeite sua namorada. Ou você não sabe o que é isso?

– Olha! O defensor das traidoras.

– Acho melhor você parar de falar besteira – Rodrigo disse segurando a gola da camisa de João Victor.

Ele respondeu com um soco no estômago de Rodrigo e os dois começaram a rolar pelo chão.

Beto e Carol correram em direção à sala depois do meu pedido de ajuda.

– O que significa isso aqui? – Beto gritou.

Eles se afastaram e se levantaram.

– A amiga da sua namoradinha estava me traindo na sua sala.

– Você tá louco, João Victor? Eu não fiz nada. Apenas ajudei Rodrigo com um problema dele.

– Eu não acredito que você deixou ele entrar no meu apartamento, Júlia.

– A culpa não foi dela. A porta estava aberta e eu entrei.

Carol permanecia em silêncio, visivelmente confusa.

– Ele virou o defensor dela. A recompensa deve ser boa. Cuidado, é só questão de tempo para ela te trair também. A genética aí fala mais alto.

– João Victor! – Beto falou repreendendo o irmão.

– Quer saber, eu vou embora. Carol, depois eu falo com você. E Beto, a culpa de tudo isso é do seu irmão que, infelizmente, não sabe o que é respeito e nem educação.

Saí correndo e entrei no elevador. Antes que a porta se fechasse, Rodrigo entrou também.

– Deixa eu te levar em casa.

– Não. Quero ficar sozinha.

Ele não insistiu e eu saí do prédio. Duas horas de caminhada me ajudariam a aliviar a sensação de angústia.

Depois de 1 hora andando o cansaço começou a aparecer.

– Quer continuar indo a pé?

Um carro parou ao meu lado e Rodrigo falou.

– Não quero, mas eu vou.

– Pare de besteira, Júlia. Você me ajudou, deixe eu te ajudar também.

Meus pés gritavam para que eu entrasse naquele carro imediatamente.

– Tudo bem. Eu vou.

– Seu namorado entendeu tudo errado – Rodrigo falou assim que sentei no banco.

– Ele já não era mais meu namorado e depois de hoje, não será nunca mais.

Rodrigo se manteve calado até chegarmos na minha casa.

– Posso te ligar mais tarde?

– E você tem meu número?

– Não. É por isso que estou perguntando se posso te ligar. Se você disser que sim, eu peço seu número.

Será que ele queria me conquistar para depois me machucar, como fez com todas as outras que ele contou? Ah, que se dane. Eu jamais cairia na conversa de conquistador de Rodrigo. Dei meu número e ele ficou me esperando entrar em casa.

Às 1h33 da manhã meu celular vibrou.

Podemos ser amigos?

Ass. Rodrigo

Júlia:

Geralmente não costumo ser amiga de quem me manda mensagem de madrugada perguntado se pode ser meu amigo.

Rodrigo:

Hahaha. A minha consciência me perturba muito quando eu fico sozinho. Queria ter uma amiga para conversar.

Júlia:

O que você vê quando me olha?

Rodrigo:

Como assim? Essa pergunta foi muito complexa. Explique melhor.

Júlia:

Estou suspeitando que alguém colou nas minhas costas uma placa com os dizeres: “pessoas problemáticas, por favor, se aproximem”.

Rodrigo:

HAHAHAHAHA! Eu sei a resposta. São seus olhos. Eles dizem: “se precisar de ajuda, pode contar comigo”. Mas vou deixar você dormir. Desculpe a perturbação.

Júlia:

Estou com insônia. Conte uma história para que eu possa dormir.

Rodrigo:

Eu?

Júlia:

Sim. Para que eu quero um amigo se ele não me serve nem para contar histórias quando eu estou com insônia?

Rodrigo:

Uma amizade sem nenhum interesse. Que lindo.

Vamos lá. Era uma vez uma menina que tinha poderes. Ela imaginava ter nascido com defeito por atrair pessoas com problemas. Mas tudo fez sentindo quando ela descobriu que era especial e tinha o dom da cura. As feridas das pessoas que se aproximavam dela ficavam cicatrizadas.

Júlia:

Gostaria muito de conhecer essa menina. Tenho tantas feridas para serem cicatrizadas.

Rodrigo:

Eu tive a sorte de encontrá-la hoje. Foi maravilhoso.

Júlia:

🙂

Rodrigo:

Júlia, já que somos amigos. Eu tenho que te contar um segredo.

Júlia:

O quê? Não me diga que você é um fantasma, habitante de outro planeta.

Rodrigo:

Hahaha. Até poderia ser isso, mas é sério.  É sobre a sua mãe.

Ah, não. Minha pequena paz dava adeus mais uma vez.

 

Continua…

 


 

Plá:

Os julgamentos precipitados são bastante prejudiciais. Melhor evitá-los.

 

 

5 comentários em “Vida de Solteira – 19: Julgamentos

  1. Eu só queria dizer pro Seu Luciano guardar o Taser. Eu ainda odeio o Rodrigo, mas em uma escala bem menor. João Vitor por outro lado, se não começar a se comportar eu quero dar uma lição nele. Me coloca na história que eu ensino boas maneiras para ele rapidinho. Pelo menos o Beto não surtou quando viu ele no apt. Julia e Rodrigo como casal? Não sei como me sinto sobre isso. AMANDO A HISTÓRIA DO FUNDO DO MEU CORAÇÃOZINHO. E claro que a maldade tinha que comer solta e você tinha que parar de escrever na melhor parte né? Se não, não seria você. Vai ser uma semana muito longa até o próximo capítulo. E Julia… E teria gritado Sexo, só pra ver a cara do João. Até sabado Bjs!!

  2. Quero maaaais/2
    Amei Rodrigo❤ Quero q eles fiquem juntos. O Rodrigo e a Júlia.❤ Continuaaa logooo Kallinyyy

  3. “Pessoas problemáticas, por favor se aproximem.” Minha frase de vida! 😂😂 Gostei muito dessa aproximação de Júlia e Rodrigo… Será que vai dar em algo??
    Obs.: Sorry por eu não ter deixado meu comentário sabado! 😂

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