Vida de Solteira – 2: O cheiro do EX

 

Júlia

Diego tinha pedido um perfume de aniversário. E eu, fazendo papel de trouxa, fui pesquisar o melhor. Encontrei na internet um da Chanel por R$ 785,00. Como o limite do meu cartão universitário era de R$ 500,00 eu precisava dar um jeito. Falei com tia Eunice se podia comprar 2 livros no cartão dela, porque o meu não tinha limite suficiente.

Tia Eunice não conhecia nada sobre perfume e quase nunca olhava as faturas do cartão. Ela anotava todas as compras num caderninho e só me repassava o valor para que eu pagasse pela internet. Seria muito difícil ela descobrir que os “livros” eram pra Diego.

 – A senhora pode me emprestar o seu? Eu parcelo e vou pagando.

– E quanto é isso?

– R$ 785,00

– Dois livros por R$ 785,00? Que livros caros são esses?

– Ah, tia. É assim mesmo. São livros cheios de ilustrações.

– Eu vou emprestar, mas você vai pagar até o final. Nem pense em esquecer.

 Agradeci, peguei o cartão e corri para o meu quarto. Fechei a porta, acessei o site e efetuei a compra. Parcelei em 10 vezes de R$ 78,50.

– É o presente de aniversário de Diego, Carol.

– Pelo jeito que falou eu pensava que era, no mínimo, uma bomba. Você comprou o que mesmo?

– E é. Uma bomba que explodirá todo dia 05 durante os próximos 9 meses.  Eu comprei um Allure Homme Sport de 150 ml por R$ 785,00. Dividi em 10 vezes no cartão de tia Eunice e paguei a primeira parcela agora. Você tem ideia que se eu e Diego não voltarmos eu vou ficar lembrando do “fora” por pelo menos 9 meses? E ainda gastando dinheiro, tanta coisa que eu poderia fazer com esses R$ 78,50.

– Afff Júlia. Você parece que ficou louca, comprar um presente tão caro pra Diego. Vamos vender esse perfume pra alguém.

– E por acaso eu tinha como saber que ele ia terminar, Carol? Vamos vender pra quem? Se pelo menos você ainda tivesse namorando Vitor, ele poderia comprar.

– Vamos colocar um anúncio nesses sites de vendas. Eu tenho uma conta, vou fazer um anúncio para você. O que você acha de vender por R$ 700,00?

Achei ótima a ideia de Carol. Esperava que desse certo e eu recuperasse pelo menos uma parte do dinheiro.

 


 

Carol

 

Só Júlia mesmo para comprar um presente tão caro. Diego não merecia nem um sabonete, imagine um perfume importado.

Júlia me mandou algumas fotos do perfume e divulguei no site de vendas. Passei a noite atualizando e as mais de 50 pessoas que visualizaram não disseram nada. De 00h30 quando estava quase dormindo, recebi uma mensagem no site de RodrigoS8.

“Eu pago R$ 500,00.”

Olhei surpresa aquela mensagem. Como uma pessoa tem a coragem de apresentar uma contraproposta de R$ 500,00 pra uma coisa que eu anunciei por R$ 700,00?

Respondi.

“Por esse preço eu não tenho interesse em vender. Obrigada.”

RodrigoS8:

Percebe-se que não tem nenhuma experiência em vendas. Nunca ouviu falar em negociação? Diga qual seu menor preço.

Que homem sem noção!

“O menor preço é o valor escrito no anúncio. Caso não tenha visto, é R$ 700,00. Não posso vender abaixo disso, pois já tem um desconto bastante razoável e não estou vendendo o frasco vazio.”

Fiquei esperando a resposta dele, mas ele parou de enviar mensagens. Melhor assim. Se não tem dinheiro pra comprar, então não encha a minha paciência.

Meu celular começou a tocar e era um número desconhecido. Quem será que tá me ligando de quase 1h da manhã?

Atendi, podia ser algo importante.

– Alô?

– Oi. É a menina do perfume?

Ah, não. O número do meu celular deve ter ficado visível no anúncio para qualquer pessoa. Droga!

– Oi. Meio tarde para ligar, não acha?

Escutei um sorrisinho e ele começou a falar.

– Desculpe. Como seu número estava na descrição do produto achei que não houvesse problema. Posso desligar se quiser.

– Já que ligou, fale logo!

Ele começou a me perguntar detalhes sobre o perfume, que já estavam especificados no site, mas respondi por educação. No final ele perguntou se poderia me encontrar para ver o produto e combinarmos melhor o preço. Na hora pensei em Vitor. Ele ficaria irritadíssimo se soubesse que fui encontrar um garoto, ainda mais desconhecido. Aí lembrei que estava SOLTEIRA e não precisava dar satisfação a ele.

– Tudo bem. Vou ver um dia e te mando uma mensagem.

– Ok. Aguardo ansiosamente um horário na agenda da vendedora virtual mais linda. Desculpe, mas não resisti e olhei sua foto no WhatsApp antes de ligar.

Sorri e desliguei o celular. Já fazia tanto tempo que eu não passava por uma situação como aquela que fiquei sem saber o que dizer.

Precisava ver a foto dele também. Salvei o número na agenda e corri para o WhatsApp. Estou com a boca aberta até agora.

Lindo! Lindo!Lindo!

Uma mistura de Brad Pitty com Ashton Kutcher. Um maxilar bem marcado, um olho azul quase transparente e cabelos castanho-escuros. Tudo bem que na foto do perfil geralmente as pessoas parecem ser mais bonitas, mas, mesmo que ele piorasse um pouco pessoalmente, continuaria lindo.

Eu ainda estava olhando a foto quando chegou uma mensagem.

“Eu sabia que seria a primeira coisa que você ia fazer. hahaha. E aí, o que achou?”

Eu não podia dizer que achei gato, maravilhoso, tudo de bom, mas também não ia ser grossa, afinal ele era do tipo de guardar no potinho e ficar olhando o dia todo ou fazendo outras coisas melhores. Calma… Estou pensando apenas em beijinhos inocentes.

Carol:

Gostei. Você até que é bonito.

Rodrigo:

Agradeço o elogio, embora pareça mais uma ofensa.

Carol:

Boa noite.

Eu queria parecer descolada. Solteira, feliz e de bem com a vida. Não sei se o meu “boa noite” conseguiu passar a mensagem.

Rodrigo:

Boa noite, Carol. Estarei te esperando no local e horário que você marcar.

Achei a coisa mais sexy ele falar: “Boa noite, Carol”. Já tinha lido e escutado as pessoas dizerem meu nome diversas vezes, mas naquela mensagem “Carolparecia o melhor elogio que alguém podia receber. Talvez eu tivesse ficando com alguma síndrome devido a minha recém – solteirice.

Respondi “ok” e liguei para Júlia. Já passava de 1h da manhã, mas se tinha uma coisa que Júlia sabia fazer muito bem era dormir tarde. Chamou três vezes e ela atendeu.

– Oi, Carol

– Consegui vender o perfume, Juh. Ele só queria pagar R$ 500,00, aí eu disse que não vendia. Quando ele viu que eu não ia ceder, pediu para combinarmos melhor o preço pessoalmente. Você não vai acreditar. Ele é L.I.N.D.O.

– Fale mais devagar. Como você conheceu esse menino? Não acho seguro nos encontrarmos com ele. Se ele for um bandido e quiser nos assaltar?

Eu gostava de Júlia, mas pelo amor do pai celestial. Como a pessoa pode ser tão racional?

– Ai Júlia, você é muito chata. Ele entrou em contato pelo site de anúncios e  vi a foto dele depois que me adicionou no WhatsApp.

– E se ele tiver usando a foto de outra pessoa no perfil?

Respirei fundo, porque Júlia era mais psicopata do que todos os psicopatas juntos.

– Podemos marcar no shopping, na entrada no cinema, que sempre tem muita gente. Se ele não for a pessoa da foto, provavelmente, não vai nem aparecer.

– Tudo bem. Mas fale que vamos ficar ao lado do segurança. Assim se ele for algum bandido, já desiste.

– Tá. Eu vou falar.

Desliguei o telefone e fiquei pensando naquela pessoa da foto dizendo: “Boa noite, Carol”. Depois de imaginar pela décima vez eu me obriguei a parar de pensar naquilo porque já estava demais.

No outro dia, depois das 10h da manhã, eu mandei uma mensagem pra ele:

“Quarta, às 19h, no Shopping Rio Sul, ao lado do segurança do cinema. Pode ser?”

Depois de quase duas horas ele respondeu.

“Essa quarta eu não posso. Tenho que entregar um projeto lá no trabalho e estou beeeem atrasado. Pode ser outro dia?”

Será que Júlia tinha razão?

Certo. Sem problemas.”

Não insisti. Tudo bem que eu estava louca para ver aqueles olhos azuis de perto, mas e se tudo fosse uma grande mentira como Júlia pensava?

Carol:

Juh, ele disse que não pode na quarta. Pediu pra marcar outro dia.

Júlia

Tá vendo. Eu sabiiiiiia! É um mentiroso.

Júlia achava ter descoberto o assassino do século. Eu também não ia mais falar nada. Apaguei o número dele e fim de conversa. Tinha coisas mais importantes para me preocupar, como a minha primeira festa solteira.

Todo mês de Janeiro acontecia o festival da cachaça na minha cidade. Era a festa mais famosa. Sempre que começavam as aulas todo mundo ficava comentado como tinha sido bom, contando quem bebeu demais, quem ficou com quem e eu só escutava imaginando o dia que eu iria também.

No próximo sábado ia ser o festival e eu precisava de alguém pra ir comigo. Os anos de namoro me renderam menos amizades solteiras. As pessoas mais próximas estavam todas namorando. Só me restava apelar pra Júlia que não gostava de sair, ainda mais solteira.

Falei, insisti, implorei e ela nada. Não queria ir de jeito nenhum. Tive que apelar “E se Diego for? Acho bem provável encontrar ele por lá”.

Ela ficou em silêncio. Na verdade eu não acreditava que pudéssemos encontrar Diego, porque o festival era muito grande. Mas Júlia precisava sair de casa e era a oportunidade perfeita.

Depois de alguns minutos em silêncio ela disse que ia.

A festa começava às 18h e só terminava no outro dia pela manhã. Eu queria ir cedo para aproveitar todos os momentos. Ainda tive que esperar quase 1h até Júlia terminar de se arrumar. Às 20h a mãe dela foi nos deixar.

O som da primeira banda dava pra ouvir de longe. Desci do carro e me senti uma criança no parque de diversão. Música, agitação, pessoas bonitas. Tudo que eu estava procurando.

– Ande mais devagar, Carol. Meu salto tá afundando nessa grama.

– Eu não sei por que você colocou um salto tão alto. Como vai passar a noite em pé com isso?

– Minhas pernas ficam muito mais bonitas de salto. Diego precisa me ver linda e perceber a besteira que fez.

Júlia tinha certeza que ia encontrar Diego e me senti um pouco culpada, já que, de certa forma, eu fui responsável por implantar aquela ideia na cabeça dela.

E o castigo veio rápido. Quando colocamos o pé dentro da festa a primeira pessoa que eu vi, no meio daquele mar de gente, foi Diego. Júlia enlouqueceu e por melhor que fossem meus argumentos não consegui convencê-la a não ir falar com ele.

Eles começaram a conversar na minha frente e fiquei parada esperando. Não podia ser tão ruim, logo apareceriam vários garotos solteiros querendo conversar, dançar, jogar charme e a festa melhoraria.

Quase quarenta minutos depois eu continuava lá em pé completamente esquecida. Ninguém se aproximou nem pra pedir uma informação.

Devia ter me arrumado mais.

Quando eu estava namorando sempre notava um ou outro menino me olhando mesmo sem estar arrumada e agora não aparecia um.

Cadê aqueles desgraçados? Bando de cobiçadores de mulher alheia.

A conversa entre Júlia e Diego se transformou num barraco. Ela começou a chorar e falar alto. Resolvi me aproximar antes que a situação piorasse.

– Ele não quer mais namorar comigo, Carol.

– Calma Júlia, vamos sair daqui. Não dê mais ibope a esse idiota.

– Hahahaha. Eu sou idiota? Ela que veio implorar pra voltar.

Júlia era uma pessoa completamente serena. Do tipo que assumia a culpa para evitar uma confusão. Eu nunca imaginei que ela pudesse perder o controle daquele jeito. Ela enxugou as lágrimas e partiu pra cima de Diego.

– TIRE essa camisa AGORA! – ela disse com os olhos arregalados que causavam medo.

– Tá louca, Júlia? Quer me ver sem roupa é? – ele falou querendo parecer engraçado, mas o medo estava estampado no seu rosto.

– TIREEE. Tire agora ou eu rasgo.

Ele deu dois passos para trás como se fosse correr e Júlia segurou na gola da camisa.

– Me ajude aqui, Carol. Essa camisa foi caríssima e quem pagou foi eu.

Eu fui pra festa imaginando encontrar diversão, garotos bonitos… Mas se o que me sobrou foi um barraco, então vamos nessa.

– Devolva a camisa da minha amiga. Seu ladrão!

Júlia puxou de um lado e eu do outro. Foi botão e pedaço de camisa pra todo lado. Deixamos ele só de calça.

– Vocês são loucas. Suas malucas, sem noção!

– Quer perder a calça também? – Júlia gritou.

Ele olhou pra ela, depois pra mim e correu até sumir no meio da multidão.

Algumas pessoas em volta nos olhavam sorrindo, outras espantadas. Se ninguém tinha se aproximado antes, imagine agora depois dessa pequena demonstração de selvageria.

Júlia me olhou e começamos a sorrir. Era muita adrenalina.

– E agora sua louca, vamos fazer o quê? kkkkk.

– Ué, se estamos no festival da cachaça vamos provar algumas para saber que gosto tem.

Júlia, realmente, estava irreconhecível.

Provamos a roxa, a envelhecida, a prata, a artesanal… Resolvi parar antes que perdesse o controle das minhas pernas. Tomamos pequenos goles, mas o teor alcoólico era muito alto.

Júlia provou mais uma e caiu no choro. Deixei que ela chorasse até se acalmar e chamei para irmos embora. Outro dia eu aproveitaria mais da minha solteirice.

– Vamos pra casa, Juh? Você não tem mais condição de ficar aqui.

– Não. Eu quero ficar. Não vou pra casa chorar enquanto Diego se diverte.

– Ele nem deve tá mais aqui depois do que fizemos.

– Não vou embora. Eu quero dançar.

Reclamei tanto da Júlia sensata e agora que ela enlouqueceu já quero a antiga de volta.

Saímos da barraquinha e caminhamos em direção ao centro da festa. Alguém segurou na minha mão. Não dei atenção. Puxei rapidamente e continuei andando. Passei mais de uma hora esperando alguém se aproximar, agora eu estava sem paciência pra gracinha. Ele pegou a minha mão novamente e apertou com força.

– Aiiii! Tá louco?

Olhei pra ver quem era e ele sorriu.

– Acho que encontrei a vendedora virtual ou estou enganado?

Continua…


Plá:

Cuidado com os argumentos que vai usar para retirar sua amiga de casa. Você pode transformá-la em outra pessoa.

 

10 comentários em “Vida de Solteira – 2: O cheiro do EX

  1. Uouuuuuu Primeiro, isso de comprador gato nunca acontece comigo. Só pra constar. Carol é isso aí!!! A vida segue. Me identifico muito mais com você, menos pela parte do psicopata, porque também imagina sempre as piores coisas nos encontros as cegas. Julia meio surtou agora. Agora quero ver como vai ser. E esse Rodrigo? Não tem um amigo pra Julia não? Adorando!!! Bjs!

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