porta entreaberta

Vida de Solteira – 20: Sobrinho, tio e mãe

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Júlia

 

Um frio percorreu todo o meu corpo. Que segredo era esse que Rodrigo sabia da minha mãe? Coisa boa não podia ser, caso contrário ele não teria feito todo esse suspense para me contar. Comecei a sentir medo de descobrir.

Talvez fosse melhor eu desligar o telefone e nunca mais falar com ele. Rodrigo não era meu amigo de verdade. Estávamos tentando iniciar uma amizade que provavelmente nunca daria certo.

– Júlia, você ainda está aí?

Continuei em silêncio.

– Júlia?

Desliguei o celular. A noite foi longa, não consegui dormir nem por 1 minuto.

Tia Eunice e meu pai viajaram na manhã seguinte. Foram fazer um cruzeiro internacional de uma semana. Fingi ter acabado de acordar e fui me despedir deles tentando demonstrar animação.

 Depois que eles saíram, voltei para o meu quarto. A noite inteira eu não chorei. Apenas fiquei deitada me obrigando a não pensar na minha mãe. Mas de manhã, quando voltei para o quarto, chorei sem parar. Abri a torneira e não consegui mais fechar. Como você teve coragem de fazer isso comigo, mãe? Sua única filha. Meu Deus, você nunca me ligou para saber como eu estava.

Eu fingia para todo mundo que tinha superado o que minha mãe fez. Que o fato dela ter ido embora e nunca ter perguntando, sequer, se eu estava viva, não me incomodava. Mas, na verdade, doía tanto que eu evitava pensar nela.

O problema de você esconder seus sentimentos é que um dia ele supera sua força e aparece como um tsunami. Foi o que aconteceu. Chorei com raiva dela, depois com raiva de mim e por último, chorei de tristeza. As lágrimas transbordavam dos meus olhos. Tentei parar, mas foi impossível. O lençol da minha cama ficou com uma mancha. Não sabia que um ser humano era capaz de chorar tanto.

Fiquei tão impressionada que depois fui pesquisar sobre lágrimas. Descobri que elas são formadas por água, sais minerais, gordura e proteína. Não tive dúvidas que naquele dia, além de desidratada e desnutrida, perdi, no mínimo, 5kg.

Em algum momento eu dormi. Sonhei que ficava presa dentro de um buraco fundo e gritava por socorro. Acordei suada e com a garganta ardendo. Abri os olhos e vi que continuava no meu quarto, o buraco negro tinha sumido, só a sensação de pavor permaneceu.

Senti o choro se formando novamente lá dentro do meu coração, mas não deu tempo descer.

TOC! TOC! TOC! TOC!

– Júlia?

Me assustei com a voz de Rodrigo. Será que eu ainda estava sonhando?

TOC! TOC! TOC! TOC! TOC!

– Júúúúúúliaa! Júúúúúlia!

– Oi?

“Ela respondeu”. Uma voz diferente falou.

– Quem tá aí?

– Sou eu, Júlia. Rodrigo.

– E quem mais?

– Eu, o porteiro e o chaveiro. Você está bem?

Que invasão era aquela? Como eles entraram na minha casa?

Coloquei uma camiseta e abri a porta.

– Oi?

Rodrigo me abraçou e cochichou no meu ouvido: Por favor, confirme o que eu disser.

– Você disse que estava sentindo muita dor e de repente parou de falar. Pensei que tivesse desmaiado. Corri pra cá e o porteiro disse que seu pai e sua tia tinham viajado. Fiquei apavorado e ele me deixou chamar o chaveiro para abrir a porta da sua casa.

Até o porteiro caiu na conversa de Rodrigo. Tudo bem que não era completamente mentira. Eu desliguei o telefone, mas não falei nada de dor e ele conversou comigo de madrugada e não há 10 minutos, como contou ao porteiro.

– Não precisava se preocupar. Não aconteceu nada demais, eu acabei adormecendo enquanto falava com você.

– Você é ruim de conversa, hein? Fez até a menina dormir – O chaveiro falou sorrindo e deixou Rodrigo sem graça.

– Acho que vocês podem ir agora. O problema já foi resolvido. Obrigado pela ajuda. Eu vou ficar um pouco mais aqui.

– Tudo bem esse moço ficar aqui, Júlia?

– Sem problemas, Josué. Pode ficar tranquilo.

Josué era um porteiro amigo. Ele sempre me contava as fofocas do condomínio e passou a me olhar de um jeito mais protetor quando o escândalo da minha mãe veio à tona.

Rodrigo fechou a porta quando eles saíram e falou balançando a mão.

– A chave da sua casa.

– Por mais que eu tente, nunca vou chegar ao seu nível. Convenceu Josué a entrar na minha casa, trocou a fechadura e passou a ser a única pessoa com acesso pela porta principal.

– Hahaha. Eu tento, mas você estraga meu potencial. Dizer que dormiu falando comigo foi golpe baixo.

– Você me deixou sem opções.

– Vou desculpar apenas essa vez.

– Obrigada, Rodrigo – falei debochada.

– Podemos conversar um pouco?

Imediatamente, lembrei do segredo.

– Não sei se quero saber disso agora.

– É porque já vai ser amanhã. Não queria ir sem te contar.

Amanhã?

– Fale logo, então!

– Sua mãe vai “casar”. É amanhã e o noivo é meu tio.

– Seu tio?

– Sim. O dono da empresa que eu trabalho é meu tio. Sua mãe começou a se envolver com ele um pouco depois de ter iniciado a parceria com a empresa. Eu sabia que ela era casada. Mas não fazia ideia de quem era você e nem quanto mal isso poderia te causar.

– Você ajudou minha mãe a trair meu pai? E com seu tio?

– Eu não ajudei, Júlia. Eu apenas sabia.

– Minha mãe vai casar? Você sabe que ela não falou mais comigo depois que decidiu ficar com seu tio? Você tem ideia de como é ter uma mãe e no outro dia ela sumir?

– Júlia, eu não tive culpa. Foi uma coincidência infeliz.

– Acho que não podemos ser amigos, Rodrigo. É muita coisa para minha cabeça. É melhor você ir embora.

Ele sorriu sem graça.

– Nunca ouvi tanto a frase “é melhor você ir embora”, como nos últimos dias. Acho que minha presença não tá valendo muito. Desculpe, não queria te deixar pior.

Ele virou e foi saindo. Meu peito se apertou. Sabia que Rodrigo precisava de mim. Lembrava o jeito devastado como ele chegou ao apartamento de Beto. Me senti traindo um amigo quando mandei ele ir embora

– Espere. Fique um pouco. Talvez com sua ajuda eu consiga digerir melhor essa história. Ficar sozinha será insuportável.

– Se você tá pedindo, eu fico. Mas não vá pensando que é sempre assim, geralmente eu sou mais difícil.

– Você vai para o casamento?

– Se te incomodar muito, eu não vou.

– Será que eu poderia ir com você?

Rodrigo se assustou com a minha pergunta.

– Pode. Mas não acho que foi a melhor ideia que você já teve.

Ele tinha razão. Aquilo era me torturar ao máximo. Se minha mãe quisesse a minha presença no novo casamento dela, ela teria me convidado.

– Pode ser que você tenha razão. Vou pensar melhor até amanhã. O que vamos fazer agora?

– Que tal comer? Você tá com cara de fome.

– Espero que isso não seja uma indireta para me chamar de feia.

– Não. Jamais. Apesar de pentear os cabelos não fazer mal a ninguém.

– Idiota.

Empurrei o ombro de Rodrigo e ele ficou sorrindo.

– É brincadeira. Nem tá tão desarrumado.

– Mentiroso! – falei entrando no quarto e ele ficou na sala sorrindo.

Olhei no espelho e não era só meu cabelo que estava um terror. Meus olhos engravidaram durante a noite e minhas pálpebras inferiores estavam de nove meses cada uma.

Que horror! Rodrigo foi até generoso em só falar do cabelo.

Lavei o rosto com água gelada para tentar diminuir o inchaço, tomei um banho e coloquei uma roupa bonitinha para amenizar a primeira impressão.

– Pronto.

– Já estou quase finalizando um tutorial de como matar um homem de fome. Você tem ideia de quanto tempo passou lá dentro?

– Trinta minutos?

– Duas horas e meia, Júlia. Nunca mais eu falo mal do seu cabelo.

– Eu não sabia que você também queria comer. Pensei que a cara de fome fosse somente minha.

– Quando você desligou o telefone eu só pensava em conversar com você. Mas agora que está tudo bem e já são 15h, se me oferecessem pedra eu aceitaria. Só que nem água eu tomei nessa casa.

– Pare de reclamar e vamos logo!

Decidimos almoçar sanduíche. Não era a opção mais saudável, mas a gordura era um item fundamental para afogarmos nossas mágoas. Pedi o maior que encontrei no cardápio.

– Você ainda não tinha me apresentado o monstro devorador que habita no seu estômago – ele disse.

– Ele só aparece em ocasiões trágicas.

– Não fale assim. Almoçar comigo não é tão ruim.

– Não estou falando de você. Você é insignificante diante dos outros problemas.

– Tudo bem, Júlia. Já fiquei comovido com os seus elogios. Pode parar.

– KKKK. Eu quis dizer que você não é relevante em…

Fui interrompida por ele.

– Não. Pode parar. Já entendi.

– Você é muito dramático, Rodrigo.

– E você é tão linda.

Fiquei sem jeito.

– Tô brincando, Júlia. Não precisa ficar preocupada. Não vou te atacar. Você é muito criança pra mim.

– Nossa! Falou o adulto.

O garçom se aproximou da mesa com nossos pedidos.

– Com licença. O Bonucci Premium Burguer da senhora e o Potato Bacon do senhor.

– Obrigada. Só assim ele para de falar tanta besteira.

– E você deixar de me fazer tantos elogios.

O garçom olhou para nós dois e sorriu.

– Hummm. Maravilhoso. E o seu?

Rodrigo não teve tempo de responder. Alguém o chamou.

– Rodrigo?

– Tio?

A palavra tio fez meu coração disparar. Olhei e vi um senhor de cabelos grisalhos, alto, um pouco forte. Será que aquele era o tal tio? O que ia casar com a minha mãe?

 

Continua…     

 


 

Plá:

Se o ambiente te sufocar, corra! Mas não esqueça de olhar para os lados antes de atravessar a rua.

 

4 comentários em “Vida de Solteira – 20: Sobrinho, tio e mãe

  1. É oficial. Eu não odeio mais o Rodrigo. Ele e Julia são fofos juntos. COMO ASSIM A MÃE DELA VAI CASAE////????? Não to sabendo lidar com isso. Rodrigo era a ultima pessoa que eu esperava que ficasse com a Julia. E como assim, ta acabando??? Não pode não!! Vai ter outra história?? Diz que sim!!! Esse é o tal tio? Tem que ser!!! Quero treta!!! Muita treta!! E quero casamento da Carol e do Beto. Quero tudo!!!

  2. Me diga como a raiva que eu tinha de Rodrigo foi tão fácil desaparecer?? Ele e Júlia são tão fofooooooooos!!!! Quero mais capítulos!!!

  3. Amei Rodrigo e bem, a mãe dela vai casar?! Ta. Espero q ela faça as pazes com a mãe dela e bem..apoio ta #JuRo ou #RoJu sei la kkkk contt logo e quero logo esse livro pronto em minhas mãos kkk💙💙💙💙💙

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