fera

Vida de Solteira – 21: Um conto sem fadas

fera

 

Carol

 

Eu pensei que depois de fazer a pazes com Beto tudo ficaria tranquilo. Aí aparece Rodrigo e João Victor fazendo a maior confusão. E não foi só isso. Até agora estou extremamente chocada por ter visto Júlia defender Rodrigo. Sua maior acusadora no banco da defesa? Como assim? Quanto tempo passei no quarto de Beto pra tudo ter mudado desse jeito?

Não tive oportunidade de falar com Júlia para entender o que estava acontecendo, pois João Victor disse coisas inacreditáveis envolvendo a traição da sua mãe e ela saiu correndo.

Por falar em João Victor, depois que Júlia foi embora ele ficou andando de um lado para o outro da sala e começou a chorar. Sabe uma criança que tem seu brinquedo favorito arrancado das mãos? Ele parecia pior. Mas não tive pena, João Victor merecia aquele sofrimento depois de ofender tanto Júlia.

– Chorar agora não vai adiantar muito. Você tem que pensar antes de sair falando besteiras – Beto disse.

– Eu só não queria me machucar outra vez.

– João Victor, você já percebeu que esse seu medo de se machucar não resolve nada? Sentimentos não podem ser calculados até se obter um resultado exato. Você tá perdendo a razão para tentar controlar algo que não tem controle. O que você fez hoje com Júlia foi terrível.

– Eu não sei se estou totalmente errado. Acho que ela tem mesmo um caso com aquele Rodrigo. Quem sabe não é um triângulo amoroso? Talvez sua namorada possa explicar melhor, não é Carol?

A postura compreensiva de Beto sumiu imediatamente.

– Escute aqui, João Victor. Essa foi a última vez que você ofendeu minha NOIVA. Vá pra casa e pense melhor nas besteiras que você anda falando.

– Eu vou mesmo. Não quero ficar mais nenhum segundo nessa droga de apartamento.

João Victor bateu a porta com tanta força que a sala vibrou.

– Beto, isso que ele disse. Do triângulo…

– Por favor, Carol. Não precisa comentar os absurdos que João Victor fala.

– Estou assustada. Ainda não entendi direito o que aconteceu. Tenho medo que isso possa nos prejudicar de alguma forma. E também estou preocupada com Júlia. Ela deve tá muito mal.

– Meu amor, vamos deixar Júlia quieta por hoje. Acho que será melhor pra ela. E quanto a nós dois, não precisa se preocupar com nada. Eu sou o seu amor, você é o meu, e juntos vamos superar qualquer coisa. O resto é bobagem.

Beto sorriu e me deixou mais calma.

Era difícil acreditar, mas eu tinha – realmente, verdadeiramente, indiscutivelmente, falando sério – encontrado o meu amor.

– Caramba! Eu ainda nem completei vinte anos.

– Não entendi. Explique melhor o contexto dessa frase – ele falou em tom de brincadeira.

– É muito surreal encontrar o verdadeiro amor com 19 anos. Por exemplo, num quebra-cabeça eu nunca sou a primeira a achar as peças que se encaixam, mas agora eu olhei uma vez e já encaixou perfeitamente. É tão louco quanto você ir andando na rua e encontrar várias notas de cem reias pelo caminho.

– Hahaha. Várias notas de cem reais? Mais ou menos quantas, para eu ter ideia do meu valor?

– Uma chuva delas.

– Mas como é essa chuva? Grossa ou fraquinha?

Ele sorria e mantinha o olhar fixo nos meus olhos enquanto falava.

 – Um dilúvio. São tantas notas caindo na minha cabeça que as poças na rua parecem a piscina do tio patinhas.

Beto me abraçou e suspendeu meu corpo no ar.

– Hahaha. Te amo tanto. Precisamos resolver logo nosso casamento para que você ficar aqui pra sempre.

– Ainda temos que conversar com meus pais sobre os “pequenos” incidentes de hoje. Se ficar tudo bem, podemos marcar a data.

– Então vamos pra sua casa agora.

Beto segurou minha mão e saiu andando rápido em direção ao elevador.

 


 

Júlia

 

Rodrigo e o tio ficaram em silêncio por alguns segundos. O tio olhou pra mim e arregalou os olhos. Aquele não podia ser o noivo da minha mãe. Por favor, não seja você.

– Que coincidência o encontrar por aqui. Vejo que está muito bem acompanhado. Não vai me apresentar a linda moça?

Ah, não. Essa simpatia toda não é um bom sinal.

– Claro. Essa é Júlia, uma amiga minha. Júlia, esse é o tio Anderson.

– O dono da construtora?

– Sim. É ele.

– Então você vai casar com a minha mãe?

Não sei como tive coragem de ser tão direta, mas as palavras foram saindo da minha boca sem que eu pudesse controlar.

– Vou e fico muito feliz em conhecer você pessoalmente. Sei que as circunstâncias não foram as melhores, mas eu gosto muito da sua mãe, Júlia.

– Você se sente feliz depois de destruir a minha vida e quase ter matado meu pai?

– Júlia, espero que um dia você entenda. Eu e sua mãe não tínhamos nenhuma intenção de machucar ninguém. São coisas que acontecem.

“São coisas que acontecem?” Espero que aconteça com você também para saber o quanto dói. Rodrigo, eu já vou!

– Espere, Júlia. Eu vou com você.

Rodrigo me acompanhou e entramos no carro dele.

– Eu não aguento mais – falei com a voz trêmula.

– Não fique assim, Júlia. É só uma fase. Vai passar.

– Quando? Isso não passa nunca, Rodrigo. Eu tinha uma família, estudava medicina, minhas notas eram boas e de repente, tudo desmoronou. Minha mãe passou a ser uma traidora, como João Victor jogou na minha cara, meu pai tentou suicídio e eu abandonei a faculdade. Isso tudo depois de levar um fora da pessoa que supostamente seria o meu marido. Logo eu que acreditava no casamento e sonhava em formar uma família feliz. E como se não bastasse, seu tio resolve aparecer logo hoje.

– Você ainda pode ser feliz, Júlia. Eu não sou nenhum exemplo, mas acredito que tudo ficará bem. Você é linda, inteligente, logo vai superar tudo isso.

Meu estômago começou a doer, minhas mãos ficaram frias e náuseas indicaram o que estava por vir. Uma crise nervosa incontrolável. Vomitei todo o carro de Rodrigo. Até tentei abrir a porta, mas não deu tempo.

– Me desculpa, Rodrigo. Eu não queria sujar seu carro – falei chorando.

– Não tem problema, só quero que você se acalme.

Rodrigo dirigiu até um lava-jato que ficava ao lado do seu prédio. Deixamos o carro e fomos a pé para o apartamento dele. A minha aparência causava pena. Eu parecia um zumbi que vomitou uma gosma verde na sua própria roupa.

Ele pegou uma toalha, uma bermuda e uma camiseta. Me entregou e indicou onde era o banheiro. No primeiro momento eu chorei, depois lembrei o jeito assustado como Rodrigo me olhou ao ver o painel do carro dele todo vomitado. Na sua testa estava escrito: Meu Deus, o que essa louca está fazendo? Alguém coloque um esparadrapo na boca dessa menina.

Comecei a sorrir alto dentro do banheiro.

– Júlia? Tá tudo bem aí?

Rodrigo falava um pouco assustado. A sua voz deixava claro que ele me achava, no mínimo, louca. Gargalhei ainda mais.

– Júlia? O quê vai sair de dentro desse banheiro? Diga logo para que eu possa me preparar.

– KKKKKKKKKKKKKKKKK

– É sério. Tô ficando assustado.

– KKKKKKKKK.

Abri a porta do banheiro vestida com a roupa dele. Agora eu parecia um balão. Mas pelo menos era um balão limpinho, sem vômito.

– Você tá bem?

– Sim. Só lembrei como você me olhou enquanto eu vomitava o seu carro e deu vontade de sorrir.

– Coitado do meu carrinho. Pagou a pena por um crime que ele nem cometeu.

– Kkkkkk. Desculpa, Rodrigo. Eu juro que tentei abrir a porta.

– Tudo bem. Já desculpei você por isso. Mas vomitar sanduíche foi sacanagem. Não podia ser sopa? Gosto tanto de sanduíche e agora não consigo pensar em um que meu estômago já embrulha.

– A culpa foi sua. Da próxima vez me leve pra tomar sopa.

– Não esquecerei disso. Mas falando sério, você tá melhor? Quer fazer alguma coisa? Sair?

– Você tá de brincadeira? Sair com essas roupas? Tá querendo me expor ao ridículo mesmo?

– Hahaha. Não tá feio. Só um pouco folgado.

– Se eu não soubesse que você mente tão bem, até poderia acreditar.

Rodrigo ficou sério.

– Se tem uma pessoa com quem eu estou sendo sincero, é com você, Júlia.

– Desculpe. Foi só uma brincadeira. Não queria te ofender.

Dei um beijo no rosto dele para quebrar o clima tenso e já ia me afastando quando Rodrigo me abraçou. Ele não falou nada. Apenas manteve meu corpo preso ao dele e beijou o outro lado do meu rosto. Senti um arrepio percorrer meu corpo e me desesperei para afastar dele.

Meu lado protetor gritava: Problema! Problema! Problema! Corre! Corre! Corre!

Tentei sair do abraço, mas ele me segurou com mais força.

– É ruim para você me abraçar?

Ele falava sério e bem próximo a minha orelha. Aí, meu senhor. Isso não é justo.

– Não. Só estou tentando me afastar para fazermos algo legal que acabei de pensar.

– Ah, é? O quê?

Continuávamos abraçados e eu não conseguia pensar em nada com aqueles braços envolvendo meu corpo e a respiração no meu pescoço.

O que estava acontecendo comigo? Eu não podia esquecer que Rodrigo mentia e não tinha nada de príncipe. Mas que droga! Precisava ser tão lindo?

Já sei! O cérebro finalmente volta a funcionar por alguns segundos.

– Você podia ler uma história pra mim.

Quando eu era criança adorava que as pessoas lessem histórias para mim. Mas meus pais não tinham paciência porque eu ficava interrompendo a leitura, perguntando coisas como: “por que esse gato fala e o meu não?” Com isso eles foram dizendo que não tinham tempo e eu fiquei órfão das leituras. Até hoje eu amava quando alguém lia pra mim.   

 – Você gosta mesmo de histórias, neh? Eu não tenho nenhum livro que você vá gostar aqui. Mas, fale alguma que eu pesquiso na internet e conto pra você.

Fiquei surpresa ao ouvir aquilo. Durante anos de namoro eu pedi a Diego para me contar histórias e ele sempre negava. Ou dizia que não sabia ou estava com sono ou cansado. Rodrigo aceitou tão facilmente que meu coração abriu um sorriso enorme.

– Eu gosto da Bela e a Fera.

Ele sorriu, me abraçou mais forte e se afastou.

– Escolha um lugar da casa que você queira ficar para ouvir a sua história, princesa! Enquanto eu pesquiso aqui na internet.

– Sim, Fera.

– A vida é muito injusta mesmo. Eu faço de tudo para agradá-la e ela já vem me chamando de monstro.

Rodrigo foi pegar o celular se fazendo de ofendido e eu escolhi um tapete fofinho que ficava no meio da sala. Pouco tempo depois ele sentou ao meu lado. Deitei a minha cabeça na sua perna e ele começou a narrar a história.

Enquanto lia, Rodrigo fazia carinho no meu cabelo e pela primeira vez, depois de bastante tempo, uma felicidade amiga vinha me visitar. Teve um momento que chegou uma mensagem no celular dele e o notei ficar tenso, mas ignorei.

– Então, o ar se encheu de brilho e a Fera começou a se transformar em um belo príncipe. A Bela e o príncipe se apaixonaram novamente. Fim.

– Tão lindo! Eu era mais feliz quando acreditava em conto de fadas.

– E quem disse a você que não existe? E se eu for sua Fera? Você só precisará ter paciência até eu me transformar num belo príncipe.

– Se você for meu príncipe, não seria um conto de fadas e sim, uma ironia de fadas.

– Mesmo que você não acredite, eu me sinto outra pessoa ao seu lado. Melhor, mais feliz.

– Eu acredito. Sempre fui uma boa amiga.

– O problema é que eu não estou conseguindo ser seu amigo. A vontade crescente de beijá-la tá impedindo essa amizade.

Ai meu psicológico abalado. Assim você me acaba.

– É porque você sempre teve a necessidade de conquistar todas as mulheres. Mas logo vai passar.

Tentei parecer normal diante da declaração de Rodrigo. Ele tirou minha cabeça da sua perna e deitou de frente pra mim.

– Júlia, eu não sou mais esse monstro que você pensa. Não é pra te fazer sofrer que digo isso. Tô falando de verdade. Do meu coração. Cada vez sinto mais vontade de ficar perto de você. Seria mais fácil se fôssemos apenas amigos, mas o que estou sentindo é mais forte.

Ele aproximou seu rosto do meu e raciocinar ficou cada vez mais difícil.

– Não sei. Eu tô muito abalada com tudo que vem acontecendo.

Rodrigo não falou nada, apenas chegou mais perto com a sua boca, praticamente, encostando à minha.

– Rodrigo, eu…

Ah, que se dane. Um sofrimento a mais ou a menos não iria me matar. Preenchi o espaço que faltava e nossas bocas se tocaram.

Quando Carol dizia que ele beijava bem eu achava que era exagero dela por estar apaixonada. Acabei de constatar que não tinha nada de exagero.

Corra!! Corra!! Pare com isso agora! Meu lado protetor gritava preocupadíssimo à medida que o beijo ia ficando cada vez melhor.

Eu sabia que Rodrigo era um buraco escuro, dentro poderia ter um lindo jardim ou uma lama venosa, mas cadê a força para dizer “já chega”?

Alguns minutos depois ele se afastou e me olhou sorrindo.

– Que assustador!

– Nossa! Obrigada pelo elogio. Não sabia que eu beijava tão bem.

– Assustador porque parece que reencontrei minha vida em você. Quem diria que aquela menina chata seria tão especial?

– Chata? Eu nunca fui chata, você que vivia tentando enganar…

Ele voltou a me beijar e interrompeu a minha fala.

Ring! Ring! Ring! A campainha começou a tocar. Rodrigo me olhou surpreso e foi ver quem era.

– Bianca?

Escutei ele falar quando abriu a porta.

– Fico feliz que você lembre meu nome. Porque pelo jeito esqueceu completamente o compromisso que marcou comigo hoje. É MEU ANIVERSÁRIO, Rodrigo. Você não tinha o direito de fazer isso. Fiquei esperando até agora. Liguei inúmeras vezes para o seu celular e você nem pra atender.

A mulher empurrou a porta e me olhou horrorizada.

– QUEM É ESSA? Então foi por isso que você não foi?

Eu já estava em pé e ela fez uma completa vistoria no meu look de balão.

Meus olhos já se encheram de lágrimas, não pelo olhar dela de nojo pra mim, mas por constatar que a mensagem recebida por ele durante a leitura, certamente, era dela.

– Vai entrar para o Guinness Book como “O conto de fadas mais veloz de todos os tempos”.

Rodrigo me olhou apavorado.

– Não precisa ser assim, Júlia.

– Eu não quero me tornar uma delas, Rodrigo. Preciso ir agora!

– Júlia, não! Por favor. Lembra da transformação da Fera? Tenha um pouco de paciência.

– Depois conversamos, Rodrigo!

Saí correndo.

No elevador lembrei que não tinha nenhum dinheiro para voltar pra casa. Andar por horas pelas ruas com aquelas roupas de Rodrigo ia ser muito torturante. Liguei para Carol, mas o celular dela só chamava e ninguém atendia.

Continue dentro do elevador sem saber o que fazer. Uma mensagem chegou. Devia ser Carol.

João Victor:

Podemos conversar, por favor? Preciso muito que você me escute, mesmo eu não merecendo.

Li, mas ignorei. Não tinha a menor chance de conversar com ele agora.

Lembrei de Beto. Ele morava no mesmo prédio que Rodrigo. Apertei o 10 e fui para a porta do apartamento dele. Toquei a campainha e a minha mãe abriu a porta. Minha mãe?

– Mãe?

Meu Deus, que pesadelo é esse?

 

Continua…

 


 

Plá:

(Júlia) Luz no fim do túnel? Se você realmente existe, então chegou a hora de acender! É urgente!

 

3 comentários em “Vida de Solteira – 21: Um conto sem fadas

  1. Ta. Eu não odeio mais i Rodrigo. Mas quem é essa criatura que apareceu na porta dele??? Esse tio dele também né? Não colabora. Achei muito fofo k Beto com a Carol. Ele não tá dando ouvidos pra aquela anta do irmão. Agora… O QUE A MÃE DA JULIA TA FAZENDO ALI???? Preciso do próximo capítulo. Demorou mas veio. E o mais importante. Sábado tá taoooo perto!!

Deixe seu comentário