Vida de Solteira – 22: Perdão! Perdi, então?

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Carol

 

– Eu acho que vocês não estão preparados para casar.

Meu pai falou assim que chegamos a minha casa.

– Calma, pai. O senhor nem nos deixou explicar.

– Eu não sou louco, minha filha. Percebi muito bem o que aconteceu aqui. Vocês não esperaram nem o casamento para começarem a brigar. Como vai ser depois que casarem? Um dando cotovelada no outro para ver quem passa primeiro na porta?

Beto olhou para mim e sorriu discretamente.

– Isso não vai acontecer. Pode ficar tranquilo. Eu amo a sua filha.

– Talvez você não saiba, mas eu já fui jovem. Na idade de vocês eu também pensava que o amor resolvia tudo, mas não é bem assim. Casei, entrei na casa nova com a sua mãe e pensei: “finalmente chegamos ao paraíso”. Logo na primeira semana começou um vazamento na pia do banheiro. Resolvi o problema me sentindo um super-herói. Mas a pia continuou vazando. Consertei novamente, já não me achando tão competente assim. Quando voltou a vazar pela terceira vez, tive vontade de arrancar o cano daquela porcaria e o quebrar inteiro. Eu não sabia que na minha casa perfeita existiriam vazamentos. Eu também não sabia…

Meu pai começou a sussurrar.

– Que sua mãe tinha problemas com essa história de TPM. Ela acordava chorando sem motivo, o que me deixou muito preocupado nas primeiras vezes. Mas depois se animava e geralmente ia comprar alguma roupa para se sentir melhor. Ela entrava em uma loja e amava o vestido. “É lindo! Maravilhoso! Vou levar”. Antes mesmo de chegarmos em casa, começava: “Será que ficou bom mesmo? Estou com medo daqueles babados não ficarem tão bonitos”. Nesse pequeno detalhe morava um problema muito sério, até então desconhecido para mim. Eu não podia ficar calado, porque era sinal que não estava dando importância ao desespero dela de ter comprado um vestido horrível. Também não podia concordar, porque aproximadamente 1h depois ela voltaria a achar o vestido lindo outra vez. Um dia sua mãe estava no quarto se lamentando por ter gastado dinheiro com uma blusa que não combinava com nada. Inocentemente, eu concordei. “É mesmo, querida. Essa coisa alta nos seus ombros te deixou estranha.” Eu olhava e só conseguia ver dois tijolos, um em cada ombro dela.

Quase dormi no sofá nesse dia. Para ela eu não dei importância, menti e deixei que ela comprasse uma blusa horrível. Pensei ter aprendido a lição e outra vez, ainda na loja, quando ela me perguntou animada o que eu tinha achado. Fui sincero e disse que estava esquisito. Ela entendeu como uma ofensa.

“Eu gostei. E a vendedora disse que fiquei linda. É por causa do preço que você tá falando isso? Não se preocupe que eu vou pagar.” Sua mãe desistiu de levar a blusa e a vendedora me colocou na sua lista de inimigos.

Depois de alguns dias tudo voltava ao normal, mas durante esse período eu precisava ser muito paciente. Caso contrário, o casamento não tinha durado nem 1 ano.

Vocês conseguem entender o que eu estou falando? Vai muito além de amor. O “felizes para sempre” não durará um mês, se na primeira briga cada um sair correndo para um lado como vocês fizeram hoje. O amor de vocês é muito imaturo. Querem casar, mas amanhã já vejo Carol chegando aqui dizendo que quer se separar.

Pai, quero me separar de Beto.

– O que aconteceu, minha filha? Vocês casaram agora!

– Ele não me ama. Disse que minha roupa era feia. Feias são aquelas camisas listradas dele. Eu não quero ficar casada com uma pessoa que não liga pra mim. Um egoísta.  

– Kkkkkk. Eu não ia fazer isso, pai!

– Pela imaturidade que eu vi hoje? Pode acreditar, você faria sim. Quem já viu, durante a festa de noivado, os noivos brigarem e saírem correndo? E a conversa? A compreensão? A maturidade? Não me digam que o lobo mal passou e comeu.

Beto ficou vermelho.

– Eu sei que hoje agimos como crianças, mas pode ter certeza que, assim como o senhor, faremos tudo para acertar. Sei que Carol não é perfeita, como eu também não sou, mas ela traz uma felicidade inacreditável para minha vida. Gostaria muito que o senhor nos permitisse acertar, mesmo cometendo alguns erros.

– O que você acha, Carol?

– Eu concordo com Beto, pai. Eu preciso tentar, nem que seja só para ganhar experiência. Senão chegarei aos quarenta cometendo os mesmo erros de agora. O senhor não acha?

Ele sorriu e pude ver seu coração amolecer.

– Se eu estiver errada e ele não for o meu amor eterno, já sei quem e onde procurar a pessoa mais experiente para me aconselhar.

– Acredito que vocês terão alguns problemas, mas se realmente querem casar, só posso desejar que sejam felizes.

Minha mãe, que ouvia a conversa escondida, apareceu.

– Seu pai é muito exagerado. Não é bem do jeito que ele contou, mas vou relevar. Precisamos começar a pensar no seu casamento.

– Obrigada pela compreensão, minha querida.

Meu pai abraçou minha mãe e os dois começaram a sorrir.

– Vocês pensam em casar durante o dia ou a noite?

Eu respondi noite e Beto falou dia.

Meus pais nos olharam.

– A noite é legal também – Beto se apressou em dizer.

– Muito bem. Esse menino aprende rápido – meu pai falou batendo nas costas dele.

Quando amanheceu, saí com minha mãe para começar a definir as coisas do casamento. Beto não abriu mão da data e marcamos a cerimônia para um mês depois. Ficamos o dia inteiro fechando contratos para a festa: local, banda, flores… Já passava das 15h quando chegamos no buffet.

Enquanto esperávamos a nossa vez de ser atendidas, Beto mandou uma mensagem dizendo que estava na casa dos pais e eles, mesmo com recomendações semelhantes a do meu pai, ficaram muito felizes.

Após comermos muitos salgadinhos, pratos quentes, frios, entradas, queijos, eu e minha mãe decidimos que aquele seria o escolhido. Quando ela estava assinando o contrato, o meu celular começou a tocar novamente. Pensei que fosse Beto, mas era a mãe de Júlia.

– Alô?

Atendi nervosa pensando que alguma coisa muito séria tinha acontecido com Júlia para ela estar me ligando.

– Carol, eu preciso muito conversar com você.

– Por quê? Aconteceu alguma coisa com Júlia?

– Não, quer dizer, eu espero que não. Te liguei para pedir um favor. Ela conheceu meu noivo há pouco tempo e pelo que ele me contou, Júlia continua me culpando por tudo que aconteceu.

Se a culpa não foi sua, foi de quem? Minha?

– Eu não posso fazer nada, dona Isabel. É difícil para Júlia ser abandonada pela mãe.

Ouvi quando ela respirar fundo. Não sei se foi de raiva ou culpa.

– Eu não abandonei minha filha. Eu apenas dei um tempo para ela se acostumar com a situação.

A pessoa olha para filha, diz que vai embora, que ela já é grande e ficará bem. E não considera isso um abandono? Que ótimo! Vejo que o poder dela de autoabsolvição estava em alta.

Fiquei em silêncio por não saber o que responder. Minha mãe perguntou quem era e eu sussurrei: “é a mãe de Júlia”.

– Você pode me ajudar a falar com ela, Carol?

– Não sei dona Isabel, eu tenho que perguntar a sua filha primeiro.

– Eu preciso muito falar com ela. Talvez Júlia me perdoe depois que souber de tudo. Tem um segredo que venho guardando há algum tempo e acho que chegou a hora de contar. Me deixe conversar com você primeiro. Quem sabe assim você me entenderá melhor.

Olhei pra minha mãe e falei: “ela quer conversar comigo, mãe.”

“Lá em casa não, seu pai não gosta dessa mulher” – minha mãe respondeu baixinho.

– Dona Isabel, estou acabando de resolver uma coisa e ligo daqui a pouco para senhora.

– Tudo bem. Fico aguardando.

Desliguei o telefone para pensar no que fazer. Já tinha sofrido tanto por ter escondido aquela traição de Júlia. Como será que ela ia reagir sabendo que eu conversei com a mãe dela? Liguei para Beto pedindo ajuda. Ele me aconselhou a escutá-la e disse que a conversa poderia ser no seu apartamento para evitar que Júlia nos visse em algum lugar.

Liguei para dona Isabel, mesmo minha mãe não concordando muito. Passei o endereço e combinei de encontrá-la no apartamento de Beto em quarenta minutos. Beto tinha acabado de voltar da fazenda e me pegou no local do buffet. Minha mãe foi para casa e pediu que eu ligasse assim que dona Isabel fosse embora.

 


 

João Victor

 

Depois de um dia refletindo sobre tudo que aconteceu, eu só conseguia pensar em uma coisa: preciso ter Júlia de volta pra mim.

Aquele babaca do Rodrigo não ficaria com ela. Mandei uma mensagem, ela viu, mas não respondeu. Ia esperar mais alguns minutos, se ela não falasse nada, eu ligaria.

 


 

Júlia

 

– Minha filha? O que você tá fazendo aqui?

– Júlia? – Carol falou assustada.

– O que minha mãe tá fazendo no apartamento de Beto, Carol?

– Vamos deixar sua mãe conversar com Carol – Rodrigo falou atrás de mim.

– Você também tava sabendo dessa reuniãozinha aqui, Rodrigo?

– Meu tio me mandou uma mensagem, contando mais ou menos o que tinha acontecido.

– Rodrigo! Nem pense em fugir de mim. Hoje é meu aniversário.

A aniversariante esquecida também acabava de chegar para participar da reunião que, nem eu e nem ela, fomos convidadas.

 

Continua…

 


 

Plá:

Saber perdoar é mais difícil do que qualquer problema matemático.

 


 

Como será que vai acabar essa confusão?  Próxima semana prometo contar tudo no capítulo final de Vida de Solteira. Tá acabando. Já estou ficando com saudade.

Uma semana maravilhosa para vocês e até sábado.

 

3 comentários em “Vida de Solteira – 22: Perdão! Perdi, então?

  1. MAS JÁ ACABOU???? COMO ASSIM,PESSOA??? Dona Isabel, eu quero dar na sua cara. De verdade. Beto.. Cara esperto…. Já ta aprendendo a concordar kkkkkk Quero ver esse casamento. Vamos se tocar e ir embora,João? Vamos? Para que ta feio, viu. Por que a criatura do Rodrigo não falou nada pra Julia? Não aprendeu que aqui, quando a bomba pode explodir, ela explode? E alguem tira essa criatura (aniversariante) daí. Essa é outra que não ve quando ta sobrando. Vai fazer parzinho com o João,minha filha. Quero mais capítulo!! Eu pisquei e acabou. Pode não gente. Sábado ta taaaooo longe. Amando a história e espero mais um livro de muito sucesso aqui. Bjs!!

  2. Que bonito ein?! Deixar suas leitoras com essa curiosidade para o final… Nem passa pela minha cabeça o que vai acontecer… Irei sentir saudades dessas meninas…. ❤❤

  3. Como assim o cap. Já acabou? Quero logo saber que segredo é esse e o casamento. Ahh manda a sonsa ir embora. To nem ai se é niver dela kkkk quero esse livro em minhas mãos. Mais um livro de sucessoooo💜💜💜💜 vc arrasa!

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