Vida de Solteira – 4: O carnaval ainda nem começou

Júlia

O homem do perfume ficou conversando com Carol e eu fiquei tentando dançar, ou fazer qualquer movimento com o corpo para evitar que a tristeza me atingisse outra vez. Mas por dentro eu estava muito mal. Se perguntassem quanto eu achava que valia naquele momento, eu responderia: menos que nada.

Olhei para o lado e um menino se aproximava.

– Oi, quer dançar?

– Você assistiu aquele filme Divertida Mente? Que os sentimentos ficam falando na cabeça da menina e dependendo de qual sentimento esteja no controle o comportamento dela fica completamente diferente? Agora eu estou sendo controlada pela raiva e tristeza. Fico oscilando entre querer mandá-lo pra put% que p$#@¨ e me culpar por tudo que aconteceu. Por isso não sei responder sobre ir dançar ou não.

– Tudo bem. Não acreditava mesmo que você fosse aceitar. Mas como eu sou burro e devo gostar de sofrer, vim perguntar mesmo assim.

Ele parecia pior do que eu. Senti vontade de ajudá-lo, afinal eu sabia muito bem como era horrível estar triste numa festa onde todo mundo parecia extremamente feliz.

– Não sei dançar muito bem. Mas acho que podemos tentar – eu disse.

– Posso te ajudar com o pouco que eu sei.

Começamos a dançar e conversar. Arthur me contou sua história com a ex-namorada. Ela o traiu com seu “amigo” depois de quatro anos de namoro. Os três cursavam Direito, estudavam na mesma sala e faziam tudo juntos.

Um belo dia, ou melhor, num trágico dia durante a festa de aniversário dele, Arthur foi ao banheiro e se deparou com sua namorada e seu amigo aos beijos. Ele foi embora e depois disso não falou com nenhum dos dois. O encontro inevitável seria na volta às aulas e ele não sabia o que fazer.

Eu queria dar algum conselho do tipo: vai passar; você deve ser superior a isso tudo; ela não te merecia; foi melhor para você…

Mas eu não conseguia nem me ajudar. O único jeito foi falar dos meus problemas também pra ele não se sentir sozinho.

No final da festa tínhamos ficado amigos.

Quando cheguei à casa de Carol a tristeza me pegou novamente. Chorei escondida no banheiro me sentindo rejeitada. Era difícil aceitar que meu amor não era correspondido.

Carol me consolou até o cansaço me vencer. No outro dia ela foi encontrar o menino do perfume no shopping. Fiquei com receio, mas ela garantiu que não tinha nenhum risco.

Eu ia dormir mais uma noite na casa dela. Lá não tinha nada que me lembrasse Diego, diferente da minha que estava cheia de fotos, ursinhos e algumas cartas de amor que ele me mandou no início do namoro.

Como você tá?”

Arthur me mandou uma mensagem às 21h.

Júlia

Sobrevivendo ao caos. E você?

Arthur

Tava mal. Aí lembrei do filme que você falou, Divertida Mente. Terminei de assistir agora. Melhorei bastante. Achei a personagem da tristeza muita autodestrutiva e não posso deixar ela me controlar.

Júlia

kkkkk. Também não quero ser controlada por ela.

Arthur

Obrigada por me ajudar Júlia. Ontem teria sido muito difícil se não tivesse encontrado você.

Júlia

Não tem nada que agradecer. Adorei ter a sua companhia.

Eu tinha adorado mesmo. Era muito bom conversar com quem entendia perfeitamente a minha dor.

Arthur não falou mais nada e voltei a ver televisão. Olhei a hora no celular e já eram quase 22h. Comecei a ficar um pouco preocupada por Carol ainda não ter voltado. Pensei em ligar, mas resolvi esperar um pouco pra não parecer paranoica.

Faltando quinze minutos pras 23h ela chegou.

– Como foi lá? Depois desse tempo todo deve ter vendido até a casa do seu pai.

– kkkkk. Foi tudo tranquilo Juh. Ele já depositou os R$ 700,00 na sua conta.

– Que maravilha. Finalmente uma notícia boa. Mas eu te conheço muito bem, Carol. Sei que tem mais coisa pra contar. Pode dizer logo.

Carol sorriu e contou que ficou com ele. Ela falava de um jeito que parecia completamente encantada. Foi a primeira vez que a vi tão empolgada com algum menino.

Não queria que ela sofresse, só que depois de alguns dias o que eu temia aconteceu. Ela estava completamente apaixonada e ele sumiu.

Carol não quis me dizer, mas percebi seu sofrimento. No último mês eu tinha ficado especialista sobre a dor da rejeição que ela sentia agora. Eu só não esperava que Rodrigo fosse aparecer justamente no dia do meu aniversário.

 


 

Carol

– Carol, posso falar com você?

– Não.

– Ei, espere. Vamos conversar, por favor.

– Conversar o quê? Não tenho mais nada para falar com você.

– Calma Carol. Tudo bem que não foi legal você me ver beijando aquela garota, mas não tínhamos nada sério. Apenas ficamos algumas vezes. Não é como se fôssemos namorados e eu estivesse te traindo.

Engole essa trouxa. Sofrendo com um relacionamento imaginário.

Me virei pra ir embora e ele segurou no meu braço. O que eu fiz em seguida foi impensado, mas que se dane ele e todas as pessoas que olharam.

– ME SOLTE – falei tão alto que a metade da festa ouviu.

– Carol, por favor, não tem necessidade disso.

A mão dele continuava sobre o meu antebraço.

– ME SOOLLLTE – A outra metade que não ouviu na primeira vez tinha acabado de escutar. Todos pararam para olhar.

Ele continuou imóvel. Como se tivesse em estado de choque.

– Você é louco? Bandido da internet! Tire as mãos da minha amiga agora – Júlia chegou com sangue nos olhos.

Rodrigo retirou a mão lentamente e segurou a sua camisa demonstrando medo que Júlia rasgasse.

– Qual o problema aí, meu irmão? Que apanhar é? – Arthur era alto, mas devia ter um 1/3 do peso de Rodrigo, ou seja, se ele não fosse especialista em alguma arte marcial, certamente quem apanharia era ele.

Peguei na mão dele e na de Júlia e os retirei de lá. Não queria metê-los em confusão.

O espaço onde estava acontecendo o bailinho pré-carnaval era pequeno. A distância que ficamos de Rodrigo não foi tão grande quanto eu desejava, mas foi a maior possível.

A festa continuou, as pessoas voltaram a dançar e eu tentei lembrar o motivo que tinha me levado até ali: o aniversário de Júlia. Não podia estragar a noite dela por causa daquele imbecil.

– Pode ficar tranquila, Juh. Eu estou bem. Vamos aproveitar a noite.

– Não precisa forçar nada, Carol. Se quiser ir embora me fale.

– Não quero e não vamos. Como Rodrigo me lembrou, apenas ficamos alguns dias. Não tenho que sofrer por vê-lo beijando outra garota.

Falei uma das mentiras clássicas para quem já está gostando da pessoa mesmo não sendo namoro. Os meus sentimentos se sentiam traídos da mesma forma. A diferença era que eu precisava fingir estar tudo bem. Não poderia sair gritando que fui traída e que ele era um safado mentiroso.

– Ah, agora entendi porque você ficou tão brava. Ele é muito ridículo – Júlia disse.

– Não quero mais falar dele. Hoje é seu aniversário. Vamos aproveitar.

Começamos a dançar. Eu realmente queria me animar, mas nada favorecia. Não fazia nem dez minutos do primeiro golpe e levei o segundo: Victor dançando e beijando outra menina.

Ele sorria, brincava com o fato de não acertar os passos, abraçava e beijava-a. Parecia muito feliz. E eu, que terminei o namoro com ele pensando em ficar solteira e radiante de felicidade, estava a amargura em pessoa.

Comecei a sentir raiva de Victor também. Era outro traidor. Quando namorava comigo nunca queria sair de casa. Odiava festa e muita agitação. E agora tava ali, exalando alegria. Falso!

Eu não tinha ninguém nem para fingir uma suposta felicidade. Júlia dançava com Arthur e fiquei completamente sozinha. Não aparecia nem um feio pra me fazer um favor. Ah vida de solteira chata essa minha.

Pensei em beber, mas desisti. Fui sincera comigo e aceitei o fato de que se eu bebesse as lágrimas seriam minhas companheiras pelo resto da noite e eu não precisava de mais um mico.

Tomei água. Muita água. Muita água mesmo. Passei a noite indo e voltando do banheiro. Quando a tristeza queria me abater a vontade de fazer xixi me distraía. E assim a noite foi passando.

Júlia e Arthur ficaram brincando de quem estava na pior situação e dessa vez eu fazia parte das apostas. Apesar de tudo, consegui me divertir com eles. Até que veio o terceiro golpe da noite.

Estava voltando de mais uma ida ao banheiro e me deparei com uma cena que me partiu em mil pedaços.

Victor e sua “ficante”, o irmão de Rodrigo abraçado com uma menina e Rodrigo ao lado da pessoa que ele beijou no começo da festa. Todos juntos, sorrindo e dançando.

Comecei a chorar. Não teve técnica que resolvesse. Rodrigo e Victor me viram. Olhei pra um, depois pro outro e saí correndo.

– O que aconteceu, Carol?

– Você não vai acreditar amiga. Meu Deus. Eles me enganaram. Foi tudo combinado e eu caí direitinho.

As lágrimas e os soluços engoliam a minha voz.

– Respire. Prenda a respiração, conte até cinco e solte – Júlia tentava me acalmar.

Fiz o que ela disse e voltei a falar.

– Rodrigo e Victor. Eles se conhecem. Foi tudo combinado. Como Victor foi capaz de fazer isso comigo? Armar essa vingança idiota. E o pior, eu caí.

Eu sentia demais ter que acabar o aniversário de Júlia antes do tempo. Ainda mais depois que eu percebi um clima surgindo entre ela e Arthur. Mas eu não conseguia. Tornou-se impossível continuar ali.

No caminho de volta meu celular começou a tocar. Era Rodrigo. Quando ele viu que não ia atender começou a mandar mensagem.

“Não é assim como você está pensando”

“Vamos conversar Carol. Eu posso te explicar melhor”.

“Posso ir na sua casa?”

No meio das de Rodrigo chegou uma de Victor.

“Desculpa. Não pensei que você fosse ficar tão chateada”.

Os pais de Júlia tinham viajado pra praia e só iriam voltar no dia seguinte. Só Eunice estava em casa. Achei melhor ir pra lá porque as chances de alguém me ver chorando eram menores.

Mandei uma mensagem pedindo a minha mãe e ela concordou que eu dormisse lá.

Chorei a noite toda. Saber que Rodrigo não merecia o que eu sentia já tinha doído bastante, agora saber que Victor teve coragem de tamanha safadeza. Era humilhante. Um amor não correspondido e uma humilhação sem tamanho. Fechava os olhos e imaginava eles sorrindo de mim quando liam as mensagens que eu mandei para Rodrigo.

Como eu fui burra.

Não sei em que momento eu dormi, mas acordei com Eunice batendo na porta do quarto de Júlia.

– Júúúúlia. Acorda!

TOC! TOC! TOC! TOC!

– ACORDA, Júlia! Júúúúúúúúliaa.

– O que é isso, tia?

– Abra essa porta. Tem um homem nu dentro de caaasa!!!

 

Continua…

 


 

Plá:

Se a situação estiver muito ruim, respire fundo e tome muita água. A vontade de fazer xixi irá distrair o problema e a água ainda hidratará sua pele.

 


 

Aos que vão brincar o carnaval, aproveitem bastante, mas não esqueçam a moderação. E para os que vão pular no bloco de casa, muito descanso, filme, pipoca e brigadeiro.

Até próxima semana.  :*

 

 

 

8 comentários em “Vida de Solteira – 4: O carnaval ainda nem começou

  1. Por essa eu não esperava! 😂
    Como eu disse no comentário que postei no Instagram: a minha curiosidade sempre vai e volta com suas histórias. E neste capítulo, ela tinha sido saciada quando finalmente li o que eu queria saber, mas voltou com tudo e voltou de uma forma que jamais imaginei que seria! Quem será o cara nu? 😵
    Adorei o capítulo! 😻 E já estou aguardando o próximo… 😘

    1. Obrigada pelo carinho de sempre. O homem já foi revelado. Ansiosa para saber o que você achou dele. kkkkkk

  2. Será que foi armação mesmo? O Victor não me parece capaz disso? Mas o Rodrigo também não parecia. Agora fiquei curiosa. Quem é o homem nú? Arthur tem meu apoio pra ficar com a Julia. ADORANDO É POUCO PARA O QUE ESTOU SENTINDO.

  3. Bandido da internet kkk a Julia me mata de rir…noooooosssa q homem é? o_O Rodrigo? Isso é jeito pra chamar a atenção mesmo kk
    A cada capítulo é impossível não querer mais ♡_♥

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