Foto do instagram de @viieiraanaa

Vida de Solteira – 5: Se eu tivesse ficado em casa

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Júlia

Eu e Carol saímos correndo do quarto. Tia Eunice estava apavorada e apontava em direção à sala. Não foi a melhor visão para começar o dia. Ele balançava seu membro sexual (semiereto) de um lado para outro numa espécie de dança e gritava:

– Vem cá, neném.

Morávamos em um condomínio de casa que não tinha muro entre as casas. Apenas um espaço de aproximadamente três metros, como se fosse uma rua, separava os jardins.

Tia Eunice saiu para regar as plantas e esqueceu de trancar a porta da sala. Foi a oportunidade que nosso vizinho queria.

Seu Joaquim tinha uma barriga saliente e cheia de pelos brancos, o rosto rosado e mais de 60 anos. Ele morava sozinho e quando estava sóbrio não perturbava ninguém, mas uma vez por mês ele tomava um porre e tocava o terror no condomínio. Chamava palavrão com os vizinhos, xingava a ex-mulher, brigava com o porteiro… Eu só não esperava que ele fosse aparecer nu na sala da minha casa querendo agarrar tia Eunice.

– Seu Joaquim, vá embora! – eu falei

– Só saio daqui se Eunice for comigo.

Ele falava tão enrolado que mal dava para entender.

– Eu sei que você me ama, Eunice. Você só vai regar as plantas para se exibir pra mim. Admita! Admita!

Tia Eunice permaneceu em silêncio olhando fixamente para o pequeno membro ainda semiereto de seu Joaquim.

– Você vai sair daqui agora! – Ela falou e caminhou na direção dele.

Seu Joaquim não teve muito tempo para pensar. Tia Eunice segurou firme no “membrinho” dele e torceu. Ele gritava e pedia socorro.

– Ai, ai, aaaiiii meu pintinho. Socorro!!!

A mão de tia Eunice praticamente esmagou todo o “pequenininho” de seu Joaquim. Ficou só um pedacinho escapando dos dedos dela como se tivesse agonizando. Ela o arrastou para fora e fomos atrás.

Uma boa parte dos moradores saíram das suas casas devido aos gritos de seu Joaquim. Quando tia Eunice soltou, ele correu desesperadamente. Acho que a dor foi tanta que seu Joaquim esqueceu até do porre.

– O que vocês estão olhando? Vamos entrar, meninas. Já teve muito espetáculo por hoje.

Tia Eunice foi preparar o café da manhã como se nada tivesse acontecido. Eu e Carol corremos para o meu quarto e tivemos uma crise de riso depois que o susto passou.

Faltava menos de uma semana para o carnaval e não tínhamos ideia do que fazer. Por mim eu teria ficado em casa, mas Carol queria sair de todo jeito e estava quase me convencendo.

Diego continuava sendo a minha principal motivação. Apesar de tudo que ele fez comigo eu sentia a necessidade de demonstrar que estava bem. Precisava de fotos novas: sorrindo, pulando na praia, dançando na chuva, chutando a água do mar, fazendo coração com o pôr do sol…

Era meio irracional, mas a ideia de felicidade forçada não saía da minha cabeça. Ele precisava saber que eu estava muito bem solteira, ainda que fosse mentira.

 Carol também queria demonstrar a tal felicidade para Rodrigo, mas ela não tinha limites. Se alguém dissesse que uma banda de lata ia tocar no meio de um temporal com raios e trovões, ela queria ir e me convencer que seria perfeito. O bom senso dela não existia mais.

Na quinta-feira antes do carnaval ela começou a me perturbar com mais persistência

– Júlia, sábado vai ter o primeiro bloquinho de rua. Nós vamos, neh? Vai ser maravilhoso, Juh. Só pessoas bonitas, educadas e inteligentes. Os meninos mais bonitos do BRASIL brincam carnaval nesse bloco.

– Não sei, Carol. Nunca fui pra esses blocos de rua. Não sei se é seguro.

– Afff. Claro que é, Júlia. Desse jeito você vai ficar igual a sua tia Eunice. Sozinha e amarga.

Ela exagerou. Às vezes eu até desacreditava que tia Eunice nunca tivesse tido uma amor. Ela era tão bonita. Talvez a chatice fosse mesmo o motivo.

– Eu vou!!! Agora se for ruim nunca mais me chame pra nada.

– Te amo, Juh!!! Vai ser perfeito demais. Você vai ver.

No sábado de manhã, Carol chegou lá em casa com uma sacola cheia de acessórios. Ela pegou na internet várias fotos de maquiagem de carnaval e comprou uma caixa de glitter, pois viu que era um item essencial. Depois do almoço, começamos a escolher a roupa e ela foi fazer o teste da maquiagem

– Juh você vai ficar linda. Vou colocar o glitter azul, acho que destaca melhor em você.

Resultado. Fiquei parecendo um Smurf.

– Meu Deus! Olhe isso, Carol. O monstro da cabeça azul.

– É… não ficou muito parecido com a foto.

Ainda tentamos algumas vezes, mas não conseguimos fazer nada apresentável. Tia Eunice bateu na porta do quarto e disse que podia ajudar. Ela devia está escutando todo nosso dilema da maquiagem atrás da porta.

– A senhora sabe fazer maquiagem de carnaval, tia?

– Eu já fui jovem um dia, Júlia.

Ela fez usando pedrinhas, brilho, e, surpreendentemente, ficou lindo.

– Amei, Eunice. Maravilhoso – Carol falou tão surpresa quanto eu.

Tia Eunice deu um sorriso envergonhado e saiu. Quem poderia imaginar que por trás daquela aparência carrancuda se escondia alguém com uma habilidade tão delicada.

Chegamos à concentração do bloco “Um amor para chamar de meu” dez minutos depois do horário marcado. Uma multidão já tinha se formado e uma banda de frevo começava a dar as primeiras batidas. Fiquei pensando como aquela enorme quantidade de pessoas conseguiria passar ao mesmo tempo por ruas tão estreitas, mas certamente eles tinham alguma técnica.

Quando o bloco saiu descobri do pior jeito qual a técnica utilizada.

A banda de música começou a andar e Carol quis ficar bem atrás dela. Uma das piores ideias que ela teve na vida. Já dizia Isaac Newton: “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo”. Eu me vi contrariando essa lei da física.

Me espremeram de um jeito que eu flutuei. A multidão nos jogava de um lado para o outro sem um único pedido de licença. Estiquei tanto o meu pescoço procurando um pouco de ar que um desavisado me confundiria com um filhote de girafa. Como se não bastasse a situação em que nos encontrávamos, um “espertão” teve a brilhante ideia de começar a pular bem na minha frente. Meus pés? Até hoje estou tentando encontrá-los. Só consigo ver unhas pretas e manchas roxas.

– Carol, eu vou morrer! Vamos sair daqui.

A coitada não conseguia nem responder. E o desespero em seu rosto também pedia ajuda. Nós tentamos sair, mas não era tão simples. Se seguir o fluxo estava praticamente impossível, imagine andar na contramão para chegar do outro lado da rua. Por um milagre não desmaiei e morri pisada.

Após uma peregrinação de séculos conseguimos sair do experimento que pretendia desmentir a lei de Newton.

Próximo de onde saímos ficava uma praça com algumas pessoas conversando, bebendo e vendo o bloco passar. Sentamos na grama e Carol começou a se lamentar.

– Eu queria saber o que estamos fazendo de errado. Por que não podemos sair, encontrar diversão até abusar, ter caras legais insistindo pela nossa atenção e desfrutar de uma vida de solteira como nos filmes?

– Eu não sei. Só sei que mais um pesadelo se aproxima.

Rodrigo vinha andado na nossa direção. Carol ficou apavorada. Não era possível ele estar ali. Vimos uma publicação dele na internet dizendo que iria para Salvador no carnaval.

– Posso sentar um minuto? – ele perguntou olhando para Carol.

– Por mim não.

Eu não gostava dele e não fazia nenhuma questão de esconder. Odeio meninos que se fingem de apaixonados e depois somem sem dizer nada. Num dia são mensagens de amor, saudades, carinhos e no outro um silêncio completo como se nunca tivesse falado nada. E ainda era amigo de Victor, ex de Carol.

– Se você sentar nós procuramos outro lugar para ficar. Não tem problema, a praça é grande.

Carol respondeu friamente, mas eu sabia que Rodrigo ainda mexia muito com ela.

– Carol eu não sou amigo do Victor. Meu irmão mais novo que conhece ele. São colegas de estágio. Quando ele te viu no aniversário do meu pai pediu que eu me afastasse de você porque Victor ainda estava muito mal. Foi por isso que não falei mais nada. Não quero que fique chateada comigo e não queria deixar de ser seu amigo.

Amigo? Há pouquíssimo tempo vocês se beijavam todos os dias e agora quer ser amigo?  Manda ele para o inferno Carol. Permaneci quieta, mas internamente eu gritava.

– Obrigada pela preocupação Rodrigo. Mas não vejo razão para ser sua amiga.

– Por que, Carol? Nos dávamos tão bem.

Alguém me segura antes que eu coloque ele pra correr daqui.

– Não éramos amigos, Rodrigo. Não seja hipócrita.

– Tudo bem, se você não quer eu respeito. Não queria me distanciar de você e acho que no momento essa seria a melhor opção. Porque não quero causar problemas com meu irmão e também…

– Príncipe? Tá fazendo o que aí? Você demorou tanto que vim te procurar.

Uma mulher no estilo miss Brasil apareceu chamando ele de príncipe. Ela podia ser linda, mas achei o jeito dela falar super brega. E isso não tem nada a ver por eu ser a melhor amiga de Carol. Juro!

Oi! São duas amigas minhas.

Olhei para Carol e ela já estava em pé.

Continua…

 


 

Plá (Júlia):

Se está com dúvida não vá. Ou então arrisque, mas saiba que as consequências podem ser perigosas.

 


Como foi o carnaval de vocês? Mais próximo da tranquilidade ou da emoção? kkkk

Espero que tenham gostado do capítulo de hoje. Sábado tem mais. :*

14 comentários em “Vida de Solteira – 5: Se eu tivesse ficado em casa

  1. 😂😂😂😂😂 Ameeeeeeiiiiii!!
    Melhor capítulo,me acabei de rir!!
    Meu Carnaval foi tranquilo,só tive uma aventura que foi ficar atolada no carro em um buraco cm o primo do meu ex e sua namorada 😂😂😂😂

  2. Muito engraçado este capítulo! 😹😹😹 Há, há! Esse homem nu vai entrar para HISTÓRIA, muito hilário! “Seu Joaquim, você está fazendo errado, assim você não conquista a ‘moça’!” 😉
    Em relação ao carnaval, eu o passei lendo alguns livros! 😽

  3. Quando a Julia começou a descrever o Seu Joaquim, eu juro que senti um arrepio. E NÃO FOI O DO TIPO BOM!! É isso aee Eunice. Bota ordem!! To começando a gostar da Eunice. Nunca gostei de carnaval e aquela agitação. JUlia dramática.. Adoreii. Rodrigo vai embora que ta feio. Adorando!!

  4. Ah, era seu Joaquim kkk murri
    Já estou triste pelas meninas nada tá dando certo.
    Mas que galinha esse Rodrigo.

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