coração estranho

Vida de Solteira – 7: Tá estranho

coração estranho

Carol

Meu pai ficou me olhando esperando uma resposta.

– Eu não sei o que tá acontecendo, pai.

Abracei ele e comecei a chorar.

– Seja lá o que for isso, não se aproxime mais da minha filha!

Ele falou para Rodrigo que estava bem atrás de mim.

Fomos para casa e ele pediu a Júlia que esperasse no quarto porque queria conversar comigo. Meu pai me chamou na varanda e iniciou o diálogo.

– O que está acontecendo com você, minha filha? Terminou sem motivo seu namoro com Victor. Um menino tão bom, educado, estudioso. Agora só pensa em festas e ainda se envolveu em uma confusão no restaurante. Quero que você seja sincera comigo e me conte a verdade.

Fiquei um tempo em silêncio e decidi ser bem sincera.

– Pai, eu terminei com Victor porque nosso namoro parecia perfeito para todo mundo, menos pra mim. Eu não queria ter uma vida normal, um relacionamento normal, me conformar com o que a sociedade diz que está bom. Eu quero algo extraordinário, um amor diferente que me faça sentir vontade de ficar com ele para o resto da minha vida. E Victor não me fazia sentir isso. Aquele menino do restaurante é Rodrigo, conheci por acaso e acabei gostando bastante dele. Mas, infelizmente, ele não sente o mesmo por mim. É mentiroso e mulherengo.

Surpreendentemente meu pai tinha um sorriso no canto da boca quando acabei de falar.

– É bom saber que você confia em mim, minha filha. Deixe eu te contar uma coisa. Quando conheci sua mãe eu era pobre e ela de família rica. Seu avô não me suportava. Eu ia vê-la de bicicleta, porque morava longe e pegar ônibus todos os dias saía muito caro. Seu avô falava: “Como você arruma um namorado que só pode te levar pra passear no guidão de uma bicicleta?” Foi difícil, mas o nosso amor conseguiu suportar toda a pressão até eu me formar e mudar a minha situação financeira. Eu não sou nenhum exemplo para te julgar, Carol. Eu não aceitei o que os outros diziam ser “normal” e segui meu coração. Mas, eu só te peço uma coisa. Tenha cuidado, tem muito amor ordinário disfarçado de extraordinário por aí. Você precisa ter sabedoria para distinguir.

Levantei, abracei meu pai, segurei a lágrima que insistia em descer e fui para o meu quarto. Júlia me esperava como os olhos arregalados.

– E aí, o que ele disse? Como foi a conversa? Seu pai brigou muito? – ela perguntou assim que abri a porta.

– Não. Ele me entendeu.

– Sério? Como ele é legal. Se fosse comigo eu teria sido massacrada.

– Até parece Júlia. Tirando Eunice, seus pais são super tranquilos.

– Porque não é com você. Mas vamos falar do que importa, como você tá?

– Estou péssima e com ódio de mim mesma por estar assim. Ele é muito falso, meu Deus! Ontem falou tanta coisa, que eu era especial, que não queria se afastar de mim e blá blá blá pra hoje tá se agarrando com outra.

– Os homens são assim, amiga. Não vê Diego. Sem nenhum motivo me chutou como se eu fosse nada.

O nosso carnaval acabou antecipadamente. Não tivemos mais animação para sair de casa e passamos o resto dos dias vendo séries. Na segunda-feira as aulas iam começar e eu já estava ansiosa para ocupar minha mente e esquecer Rodrigo.

***

Minha primeira aula iniciava às 7h50. Cheguei um pouco antes. Queria encontrar o pessoal. Ao contrário dos outros anos, eu tinha muita coisa para contar. Apesar de que algumas precisariam ser censuradas.

O professor de Semiologia entrou na sala demonstrando ter passado por um carnaval pior do que o meu. Extremamente mal-humorado, não deu nem bom-dia e já começou a escrever sem parar no quadro.

Parei de conversar e, enquanto eu tirava a caneta, o meu celular resolveu tocar. Se antes de sair de casa eu tivesse lembrado de colocar no silencioso teria sido ótimo. Minha bolsa vivia cheia de coisas e o maldito caiu entre alguns papéis. No desespero eu não conseguia encontrá-lo. Depois de revirar a bolsa inteira finalmente o peguei. A sala toda e o professor  estavam olhando pra mim.

Desliguei e sorri sem graça pedindo desculpas.

– Qual seu nome, jovem? – o professor perguntou.

– Carolina.

– Carolina, saia da sala para atender o seu celular e não volte até a minha aula acabar.

Uma vez escutei alguém dizer: “Ele ficou mais desconfiado que Noé quando viu um casal de cupim entrar na arca”.

Não preciso nem dizer que eu era Noé naquele momento. Saí o mais rápido que pude e desejei que o “querido” professor se engasgasse com a própria saliva quando começasse a falar. Tudo bem ele não gostar do celular tocando, mas não precisava ser tão agressivo. Quem nunca esqueceu de ativar o modo silencioso?

Minha mãe, por exemplo, uma vez foi para um enterro e não lembrou de silenciar o toque. Na igreja, já perto de sair o cortejo para o cemitério, o celular começou:

Vem cá, meu dengo

Ai! Ai! Ai! Ai!

Vem me fazer chamego

Ai! Ui! Ui!

Ela era fã de Roberta Miranda e colocou a música, Meu Dengo, como toque. As pessoas não foram receptivas com a canção, porque ninguém estava querendo dançar ali. Minha mãe tentava desligar o celular e ficava cada vez mais nervosa. Quando finalmente conseguiu, ela disse que viu o morto com o nariz cheio de algodão e teve uma crise de riso. Os familiares olhavam pra ela com reprovação, o que fazia com que ela risse ainda mais. Resumindo, saiu da igreja correndo, gargalhando e com inimizades para o resto da vida.

Fiquei sentada no banco da cantina esperando a aula de Semiologia acabar. Liguei o celular para saber quem tanto queria falar comigo.

Rodrigo? Sorri quando olhei e um segundo depois fiquei séria ao lembrar que devia estar com raiva.

Três ligações e uma mensagem.

Rodrigo

Bom dia, Carol! Posso ir na sua casa?

Mas era ridículo mesmo. Esperou terminar o carnaval, aproveitou todas as festas e agora queria conversar.

Carol

Não.

Rodrigo

Por quê?

Carol

Porque não, Rodrigo. Você mentiu pra mim. É falso. Só me procurou depois do carnaval para não estragar a sua festa e também não tenho mais interesse em saber o que você quer falar. Não acredito em nada do que você diz.

Rodrigo

Eu não mereço uma chance de me explicar? Estou te pedindo, por favor.

Esquecendo o amor-próprio em 3, 2, 1….

Carol

Quando eu sair da Universidade eu falo com você.

Rodrigo

Sua aula termina de que horas? Posso pegar você aí.

Sim, eu deixei.

A aula terminou um pouco antes do meio-dia e quando saí ele já me esperava. Rodrigo me levou para almoçar no apartamento dele. A mesa estava arrumada de forma impecável e ao lado do meu prato ele colocou uma flor.

Começamos a comer um risoto com filé, delicioso por sinal, e Rodrigo começou a se explicar.

– Carol, eu acho que nunca menti pra você.

Sorri de forma irônica e ele continuou.

– É verdade. Eu me encantei por você quando vi sua foto, achei incrível quando ficamos e não menti quando disse que era especial pra mim. Mas, o que você quer eu não posso te dar. Não estou preparado para ter um relacionamento sério com ninguém agora. E, além disso, meu irmão pediu que eu me afastasse de você por ele ser amigo do seu ex-namorado.

– E quem disse que eu quero ter um relacionamento sério com você?

– Que outro motivo você teria para agir da forma que vem agindo, então?

– Eu? Não fiz nada.

– Hahahaha. Até comida jogou no meu rosto.

– E queria que eu reagisse como? Tínhamos ficado na noite anterior e você já estava de papo com aquela garota. Foi muita falta de respeito.

Ele sorriu. Um sorriso lindo que fazia covinha no rosto.

– Essa sua inocência me encanta, sabia? Como eu queria ter conhecido você quando eu ainda era assim também.

Ele colocou a mão sobre a minha e ficou fazendo carinho com o polegar. A essa altura eu não lembrava mais por qual motivo precisava ter raiva dele.

– E como você é agora? Velho, amargo e traidor?

– HAHAHAHA. Não chega a tanto. Só não acredito mais nesse amor ingênuo que vejo em você.

Disfarça um pouco, Carol.

– Não estou amando você, Rodrigo. Seja menos convencido.

– Eu não disse que você me ama, menina bravinha. Apenas falei que vejo esse amor ingênuo em você.

– Separei um filme para assistirmos. Pode ficar mais um pouco comigo?

Será que devo? Ah, já estou ferrada mesmo!

– Qual é o filme?

– “Como se fosse a primeira vez”.

– Nossa! Lançamento! Pensei que ainda tivesse em cartaz no cinema.

– Hahahaha. Muito engraçada. Qual o problema do filme ser velho?

– Não falei nada.

Ele ligou a televisão da sala e começamos a assistir o filme. No início brincamos um com o outro mas depois o silêncio dominou a sala. Perto do filme terminar ele disse:

“Desculpe, não estou mais aguentando!”

Antes que eu tivesse qualquer reação suas mãos já seguravam meu rosto e sua boca encontrava a minha com desespero.

Maravilhoso demais.

Naquela hora eu tinha certeza que acabar com Victor foi a escolha mais acertada da minha vida. Já pensou morrer sem nunca ter provado aquele beijo?

Alguns minutos depois ele se afastou lentamente.

– Espero não ter causado mais problemas por causa disso.

Gostaria tanto que todos os meus problemas fossem assim.

Acho que por isso eu te perdoo.

Ele sorriu e nos beijamos novamente.

Saí da casa de Rodrigo um pouco depois das 16h. Assim que entramos no carro o celular dele começou a tocar. Era uma pessoa da empresa que ele trabalhava avisando que tinha acontecido um problema e estavam precisando dele com urgência. Eu disse para ele ficar tranquilo que eu voltaria pra casa de ônibus, mas Rodrigo não quis. Insistiu que eu fosse com ele. Disse que não ia demorar e logo me deixaria em casa. Concordei, mas não quis entrar na empresa, fiquei no estacionamento.

Eu estava há uns dez minutos dentro do carro esperando Rodrigo voltar quando alguém estacionou do lado. Olhei, mas não consegui ver nada porque os vidros eram bem escuros.

Uma mulher desceu do carro. A mãe de Júlia! Quase abri a porta para falar com ela quando um homem saiu do mesmo carro que ela tinha acabado de descer e a beijou NA BOCA, DE LÍNGUA e não era o marido dela.

Fiquei nervosa demais e acabei batendo na alavanca que ligava o limpador de para-brisa. Isabel, a mãe de Júlia, se assustou e quando virou a cabeça se deparou comigo tão chocada quanto ela.

 

Continua…

 


 

Plá:

Se faltarem as palavras, sorria!

 


 

Hello! Como vocês estão? E aí, o que acham, Carol deve contar a Júlia ou guardar segredo?

Fiquem com Deus. Excelente final de semana. À noite eu volto para fazer o sorteio de Max e Mel.

 

 

11 comentários em “Vida de Solteira – 7: Tá estranho

  1. Caramba!! 😂😂 Sem palavras estou… kkkkk
    Meio tenso né… Pelo menos eu não saberia oq fazer… kkkk

  2. Se serve de consolo Julia, eu também seria massacrada. Meu Deus.. Meu Dengo… Morta eustou hahahhaha Carolina.. Se você tivesse na minha frente agora eu te dava um tapa por ser tão tonta com o Rodrigo. Que isso Dona Isabel!!?????

  3. Gzuiis!!
    Deve contar siim, ela é sua melhor amiga e elas não escondem nada uma da outra!!
    E quanto a Carol…. eu tô amandooooooooooooo isso kkkkk Esua indecisão toda😂💓

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