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Vida de Solteira – 8: Desencontros

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Carol

Eu nem piscava, era uma verdadeira estátua humana. A mãe de Júlia virou lentamente a cabeça para frente e começou a andar em direção a entrada da empresa como se nada tivesse acontecido.

Voltei a respirar quando ela sumiu.

Meu Deus, o que eu vou fazer agora?

A porta do carro se abriu e pulei assustada.

– Calma, sou eu – Rodrigo falou.

– Estava aqui concentrada, não percebi você vindo.

– Está pálida. Aconteceu alguma coisa?

Ele segurou a minha mão e ficou me olhando franzindo a testa.

– Não aconteceu nada.

– Tudo bem então. Vou te deixar em casa agora, consegui resolver quase tudo.

– Rodrigo?

– Oi, princesa.

– Você conhece alguma Isabel que trabalha aqui?

Eu sabia que a mãe de Júlia era arquiteta e trabalhava em parceria com algumas construtoras.

– Conheço uma Isabel que faz projetos para a empresa, inclusive acabei de encontrá-la no corredor da diretoria.

– Isabel Delimo?

Perguntei só para que não restasse nenhuma dúvida, mas eu sabia que era a mãe de Júlia.

– Ela mesma. Por quê? Você conhece?

– Sim, é a mãe de Júlia.

Ele me olhou um pouco espantado e não falou mais nada. Será que ele sabia do caso extraconjugal?

Rodrigo tentou conversar sobre alguns problemas da empresa, mas eu não prestei atenção. Só pensava em Júlia. Eu sabia que aquele não era o primeiro caso de traição no mundo, mas com tantas outras pessoas no universo, precisava ser logo a mãe da minha melhor amiga? E bem na minha frente?

Chegamos a minha casa alguns minutos depois. Me despedi de Rodrigo e ele disse que me ligava para vermos um filme durante a semana.

Passei dois dias fugindo de Júlia. Sempre que ela vinha conversar eu dava um jeito de sair. Estava me sentindo uma traidora igual a mãe dela e resolvi conversar com meu pai.

Na quinta à noite eu perguntei se podia falar com ele depois do jantar.

– Pode sim, minha filha. Algo muito urgente?

– Muito.

Ele e  minha mãe se olharam demonstrando nervosismo.

Na minha casa jantávamos por volta das 20h, mas naquele dia sentamos à mesa às 18h. Meu pai e minha mãe certamente ficaram bastante ansiosos para saber o conteúdo da conversa.

Comemos em silêncio e depois o chamei para ir ao meu quarto.

– Pai… Eu não sei nem como começar.

– Apenas fale, Carol.

– Meu Deus, como eu vou dizer isso.

– O que foi? Você está grávida? Quer desistir da faculdade?

Ele coçava a sobrancelha, visivelmente nervoso.

– Não, pai. Não tem nada a ver comigo. É sobre a mãe de Júlia. Vi quando ela beijou outro homem. E ela me viu também. O que eu faço? Sinto como se estivesse enganando Júlia, mas não sei se é certo contar.

Meu pai se preparou para as piores notícias a meu respeito, mas aquilo ele nunca imaginou ouvir.

– Isabel sempre tão discreta e educada. Como ela teve coragem de fazer isso com o Maurício? Sinceramente, eu nem sei o que te dizer.

Conversamos por mais de trinta minutos e chegamos à conclusão que era melhor não contar nada. Não sabia verdadeiramente como era a relação dos pais dela, se dona Isabel já foi traída também, se eles tinham decido manter um relacionamento aberto ou quem sabe o pai de Júlia até sabia e aceitava.

Me senti mais aliviada. Pelo menos estava dividindo a culpa com meu pai, que também era amigo de seu Maurício e não ia contar nada.

Voltei a ter uma relação normal com Júlia, mesmo me recusando a ir estudar em sua casa. Encontrar a mãe dela estava fora de qualquer cogitação.

Na sexta de manhã, Rodrigo mandou uma mensagem me chamando para ir ver um filme no apartamento dele. Aceitei, apesar do meu lado racional emitir sinais de alerta.

Ele selecionou um filme tão novo quanto o último: As Branquelas. Sorrimos, nos beijamos e ele começou a querer avançar o sinal. Quando percebi, a mão direita dele já estava tocando o meu seio. Levei um susto.

– Não, Rodrigo

Afastei sua mão.

– Não estou fazendo nada – ele falou cinicamente.

No início da noite eu já estava em casa. Ele me deixou no portão e foi embora sem falar nada. Comecei a olhar meu celular para ver se Rodrigo ia dizer alguma coisa, mas, diferentemente do outro dia, nenhuma mensagem de boa noite chegou. Comecei a me culpar.

É claro, fui fazer um escândalo por causa de um toque no seio. Ele se assustou e foi procurar uma pessoa adulta.

No sábado mandei uma mensagem para ele tentando me redimir.

Carol:

Oi! Vamos ver um filme hoje?

Depois que conferi o celular pela milésima, ele finalmente respondeu.

Rodrigo:

Oi, princesinha. Tenho muito trabalho no final de semana. Podemos marcar outro dia.

Beijo, linda.

Passei o final de semana estudando. Rodrigo sumiu completamente. No domingo, Júlia foi pra minha casa e falei sobre ele. Disse que me senti culpada por não ter deixado Rodrigo me tocar mais intimamente e que tentei sair com ele no sábado, mas o trabalho dele não permitiu.

– Carol, você enlouqueceu? Por que precisa deixar ele te tocar? Você o conhece muito pouco, sem falar no tanto que Rodrigo já aprontou. Isso não existe. Desista desse menino, amiga. Ele só quer curtição.

Devia ter escutado Júlia.

Na segunda ele voltou a falar comigo novamente. Era estranho ele ter muito trabalho no final de semana, a ponto de não poder sair de casa, e na segunda estar sempre livre para me ver.

Mais uma vez aceitei ir ao seu apartamento. Rodrigo disse que não teve tempo de escolher nenhum filme e já começou a me beijar. Ele juntou nossos corpos, puxando minha cintura e me deitou no sofá. Tive receio aonde aquilo ia parar, mas não quis parecer infantil. Ele começou a tirar a minha roupa e acabamos dormindo juntos. Na hora não foi tão ruim, apesar de achá-lo um pouco frio, mas quando cheguei em casa…

 Ele estacionou o carro em frente ao portão, me deu um selinho e disse que depois ligava. Eu esperava muito mais carinho, afinal não era todo dia que eu saía por aí dormindo com qualquer um. O que tinha acontecido era muito especial pra mim e imaginei que também seria para ele.

Chorei. Chorei. Chorei muito. Parecia que alguém tinha arrancado meu coração e ficado um buraco no lugar.

Rodrigo passou a semana inteira sem falar comigo. No sábado, Júlia me chamou pra ir até sua casa. Tentei negar, não queria correr o risco de encontrar dona Isabel, mas me senti mal. Júlia sempre me ajudava em tudo e ainda estava triste por Diego ter terminado com ela, não era justo que eu me ausentasse assim.

A primeira pessoa que vi, para o meu desespero, foi a mãe dela. Mas dona Isabel era mestre no disfarce e agiu como se nada tivesse acontecido.

– Oi minha linda, tudo bem?

– Oi, tudo bem.

Ela estava com um vestido cinza todo colado no corpo que ia até quase o joelho e um salto de, no mínimo, 1m de altura. Seu cabelo preto solto contrastava com olhos verde-claros.

Linda e fria. Pensei. Será que ela ia sair com o amante?

– Vamos, Carol – Júlia me chamou para seu quarto.

– Seu pai não está em casa? – perguntei tentando entender a situação na casa de Júlia.

– Não. Ele foi com tia Eunice passar o final de semana na fazenda e mamãe não quis ir. Acho que eles não estão muito bem. Não vi nenhuma briga, mas parece que estabeleceram um pacto de silêncio. Não estou aguentando fazer as refeições com eles, parece que somos estranhos ignorando a presença um do outro.

Quando escutei Júlia desabafar, quase contei o que eu sabia. Mas me controlei, a minha informação provavelmente não ia deixá-la melhor e tão pouco resolver o problema.

– Isso é muito chato. Era tão bom que o “felizes para sempre” não acabasse nunca.

– Verdade. Não quero que eles se separem, mas esse clima de guerra fria é insuportável.

Permaneci em silêncio. Era péssimo ver minha amiga sofrer, saber que a situação estava pior do que ela pensava e não poder fazer nada.

– Não quero mais falar dos meus pais, Carol. E Rodrigo, falou com ele?

– Não. Ele não falou nada, nem um “oi”.

Vi em Júlia uma expressão de “já sabia” e tive que admitir que ela estava certa. Resolvemos fazer a pior coisa para quem está com dor de cotovelo. Ir vasculhar as redes sociais de Rodrigo. Como diz o ditado: quem procura acha. E nós achamos.

Resumindo, dentre tantas coisas, encontramos Rodrigo marcado em uma foto tirada no sábado passado, quando teoricamente ele estaria trabalhando, em uma festa, abraçado com a menina do carnaval. Ele continuava saindo com nós duas.

Rodrigo não tinha jeito. Eu precisava encontrar uma forma de esquecê-lo. Não adiantava eu ir tirar satisfação pela nova mentira. Sempre ele arrumava uma desculpa e eu acabava caindo.

Novamente, na segunda-feira ele me mandou uma mensagem querendo que eu fosse “ver um filme” com ele em seu apartamento. Para piorar a situação, ainda percebi que eu era menos importante que a outra. Enquanto ele sai com ela no final de semana, eu ficava apenas com a segunda-feira.

Carol:

Hoje já tenho outro compromisso. Depois a gente se fala.”

Tentei usar as mesmas expressões vazias dele.

Rodrigo:

Estou com tanta saudades! 🙁

Li, respirei fundo e guardei o celular. Não ia mais conseguir responder sem enchê-lo de palavrões.

No final da aula Júlia me chamou para passar a tarde na fazenda. Ficava a 1h da cidade.

– Queria sair um pouco de casa, Carol. O clima tá muito pesado. E lá na fazenda é tranquilo, podemos estudar sem ninguém perturbar.

Não tava sendo fácil pra Júlia. Se ela ia se sentir melhor lá, então eu iria. Além disso, com ela eu não corria o risco de acabar indo ficar com Rodrigo.

Saímos da Universidade e fomos para fazenda. Não precisava levar roupa, só os livros mesmo. Íamos voltar no final da tarde. Quando chegamos, o caseiro veio nos receber.

– Dona Júlia…

– Pode me chamar de Júlia, Sebastião.

– Tá certo. Sejam bem-vindas. Ana está esperando vocês lá dentro. Depois eu volto aqui. Vou ajudar o veterinário a fazer um parto de um bezerro agora.

Nunca tinha visto um parto de um animal, fiquei louca para ver e Júlia também. Corremos atrás de Sebastião. Ele abriu a porteira do estábulo e nós entramos.

O veterinário estava de costas tentando fazer algum procedimento na vaca. Ele usava uma camisa azul escura, uma calça jeans, um chapéu marrom claro e botas.

Quando entramos, ele se virou. Seus olhos eram verdes e tinha uma barba rala um pouco loira.

– O que significa isso, Sebastião? Tire essas meninas daqui. O bezerro é muito grande, vai precisar fazer uma cesárea.

Deu para perceber que o veterinário não estava no seu melhor dia de simpatia. Mas, eu queria muito presenciar aquele fato inédito na minha vida.

– Eu quero ver. Somos estudantes de medicina e isso fará parte da nossa rotina. Quer dizer, não exatamente isso que você está fazendo, pois vamos cuidar de pessoas, mas procedimentos semelhantes. Não vamos desmaiar ou…

– Meu Jesus Cristo. Ainda mais essa agora. Tire essas DOUTORAS daqui e venha me ajudar, Sebastião!

Mesmo sendo bonito, ficava horrível com toda aquela ignorância.

– Mas essa é Júlia, a filha de seu Maurício, e a amiga dela.

– Eu não quero saber disso. Você sabe que essa vaca vale quase essa fazendeira inteira?

– É um animal cuidando de outro. Ou melhor, a vaquinha nem merece essa ofensa, sei que ela não é capaz de tamanha brutalidade – eu disse.

– Carol! – Júlia me repreendeu.

O veterinário valentão veio em minha direção.

– Escute aqui.

Levantei a cabeça querendo mostrar que também era brava. Ele parou, me olhou por alguns segundos e voltou a falar

– Saia daqui agora. Não quero perder a paciência com você.

– E vai fazer o quê? Me bater?

O louco segurou nas minhas pernas, deitou meu corpo sobre seu ombro e me carregou para fora do estábulo.

– Não precisa disso, Beto – Sebastião tentou acalmá-lo, mas ele não ouvia.

Quando Beto me colocou no chão eu comecei a sorrir. Fiquei nervosa com aquele homem enfurecido comigo e lembrei de Júlia dizendo: “lá na fazenda vai ser tranquilo”.

O veterinário ficou com mais raiva ainda.

– Carol, vamos voltar para casa!

Júlia segurou no meu braço e foi me arrastando até a casa. Assim que entramos na varanda da fazenda nos deparamos com seu Maurício chorando.

 

Continua…

 


 

Plá:

Nunca subestime uma segunda-feira, ela poderá te trazer as surpresas mais inesperadas.

 

 

6 comentários em “Vida de Solteira – 8: Desencontros

  1. Manda o Rodrigo pastar. Esse Beto parece ser interessante. Que vergonha Dona Isabel. Ainda quero saber porque o Diego terminou tudo.

  2. Se eu fosse Carol eu bloqueava o rodrigo… E mandava ele sumir…
    A cada capítulo uma surpresa…💓💓

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