garota na tempestade

Vida de Solteira – 9: Tempestade

garota na tempestade

 

Júlia

Quantos dias são precisos para se curar de um “fora”?

Por que eu não era como aquelas pessoas que uma semana depois já estão com um namorado novo e mais bonito que o antigo?

 Já fazia mais de um mês que Diego pediu “gentilmente” que eu me retirasse da vida dele e eu continuava com minhas sessões diárias de choro no chão do quarto. Na verdade tudo piorou. Arthur, o menino que conheci na festa, sumiu. Há três dias mandei um “Oi” e até agora ele não respondeu. Carol também mudou completamente. Ela foi expulsa da sala e depois disso ficou muito estranha comigo. Sempre que eu tentava conversar alguma coisa, ela dizia que precisava fazer algo.

E para terminar de estragar tudo, meus pais pareciam dois estranhos dentro de casa. Era nítido que um ignorava a presença do outro. Lembro deles tão felizes quando eu era criança. Mas, com o tempo, as nossas brincadeiras, como montar quebra-cabeça até o dia amanhecer, foi acabando e agora um silêncio insuportável invadia a nossa casa. Eles se esqueceram do dia que juraram amor eterno.

Encontrar meu pai chorando na fazenda foi a minha confirmação que tudo tinha chegado ao fim. Eu sabia que o motivo do choro era a minha mãe, mesmo sem ele ter dito uma palavra.

– Júlia?

– Oi, pai.

– Não estou num bom momento, minha filha. Depois nós conversamos.

Ele falou já levantando da cadeira e começou a caminhar para dentro de casa. Eu fui atrás.

– Pai, pode falar comigo. Eu não sou mais criança e sei que as coisas lá em casa não estão normais.

Ele parou, coçou a cabeça e me olhou com os olhos cheios de lágrimas.

– Sua mãe, minha filha. Ela está me traindo.

Uma dor apertou meu peito ao ouvir aquilo. A minha família já não era feliz, mas no fundo eu ainda tinha esperança que tudo voltasse a ser como antes.

– Tem certeza, pai?

Ele balançou a cabeça indicando que sim.

– Recebi uma ligação anônima. A pessoa disse que se eu quisesse ver sua mãe com o amante fosse ao restaurante Peixinhos. Não acreditei quando a vi, sentada com um homem, acariciando a mão dele. A minha mulher fazendo com outro o que há muito tempo não fazia comigo. Esperei eles saírem do restaurante e os segui. Não preciso nem dizer pra onde eles foram. Fiquei perdido, sem saber o que fazer e vim pra cá. Desculpe, minha filha, não queria te perturbar com isso.

 – Não tá perturbando, pai.

Abracei meu pai e ele chorou com a cabeça encostada no meu ombro. O coração dele devia estar devastado. Após 25 anos o “felizes para sempre” chegava ao fim de forma trágica.

Ele pediu desculpas por estar chorando e disse que ia deitar um pouco no quarto. Voltei pra varanda onde Carol me esperava.

– Acabou! O casamento dos meus pais já era.

– Júlia, eu vi sua mãe beijando outro homem.

– O quê? Por que você não me disse antes? Meu Deus. Foi você quem ligou para meu pai? Como você teve coragem de fazer isso?

– Eu? Eu não liguei pra seu pai, Júlia.

– Ligou sim! Você sabe a dor que ele tá sentindo? Você já imaginou como deve ser uma pessoa descobrir através de uma ligação anônima que sua mulher, com quem é casado há vinte cinco anos, está te traindo?

– Mas eu não liguei pra ele!

– E por que você não me contou? O que é isso? Todo mundo resolveu mentir pra mim agora?

– Júlia…

– Não. Pode parar. Não quero ouvir suas desculpas.

Carol me olhou triste e saiu da varanda em direção ao pátio da fazenda. Talvez eu estivesse sendo muito dura, mas ela não podia ter me escondido a traição da minha mãe.

 


 

Carol

Quando vi o pai de Júlia chorando, pensei: descobriu!

Ele e Júlia entraram na sala e fiquei na varanda lembrando do maldito beijo que presenciei. Andei de um lado para o outro tentando relaxar e de longe vi o veterinário ignorante. Ele caminhava em direção à casa com a camisa toda cheia de sangue.

Para um serial killer não faltava nada. Ele me causava medo e vontade de sorrir ao mesmo tempo.

– Acabou. O casamento dos meus pais já era – Júlia pareceu na porta e falou, me fazendo desviar o olhar.

Eu precisava contar a verdade pra ela.

– Júlia, eu vi sua mãe beijando outro homem.

Eu já imaginava que ela não ia gostar do que eu tinha dito, mas não esperava que ficasse tão brava comigo. Pelo que entendi, seu Maurício recebeu uma ligação anônima sobre a traição da sua mulher e Júlia passou a acreditar que tinha sido eu.

Ela não queria nem me ouvir. Estava gritando, completamente descontrolada. Era melhor eu sair dali antes que a briga ficasse ainda maior. A forma agressiva como Júlia estava falando me machucava demais.

Saí andando pela fazenda. Depois de uns quinze minutos caminhando escutei um barulho de água. Era um rio com uma pequena correnteza. Sentei à beira do rio, coloquei meus pés dentro d’água e chorei por tudo que vinha acontecendo. Rodrigo e suas mentiras, Júlia me culpando pela traição da mãe…

Maldita hora que eu aceitei o convite dela de vir pra cá. Comecei a bater meus pés com muita força, jorrando água para todo lado.

– Ahhh. Que raiva!

Tchá! tchá! tchá!

– Eu sou muito burra!

Tchá! tchá! tchá!

– Posso me aproximar ou vai me morder?

O cowboy revoltado apareceu.

– Quero ficar sozinha.

Ele ignorou o que eu disse e se aproximou até sentar do meu lado.

Eu continuava batendo os pés, só que mais rápido. Tchá, tchá, tchá, tchá, tchá, tchá, tchá, tchá, tchá, tchá, tchá.

– Quer parar com isso? Você tá me molhando todo.

– Não estou pedindo pra você ficar aqui!

– Eu vi sua briga com a filha do seu Maurício.

Quando ele falou aquilo foi como se o motor recém instalado nos meus pés perdesse a força. Parei de mexer as minhas pernas.

– Você não tem nada a ver com isso. Por favor, quero ficar sozinha.

– Tente compreendê-la. Não deve tá sendo fácil.

Ele continuava falando como se eu não tivesse dito não.

– Você nem sabe o que está acontecendo.

– Há muito tempo que todos aqui sabem.

Nossa! Coitado de seu Maurício. Sempre o último a saber. Será que meu pai é a pessoa da ligação anônima? O que você foi fazer, pai?

– Queria te pedir desculpas pelo jeito que te tratei – ele falou e tocou a minha mão.

Olhei aquele homem sentado ao meu lado e vi outra pessoa bem diferente. Ele sorria um pouco tímido.

Talvez fosse louco mesmo. Como se já não me bastasse Rodrigo, o romântico mentiroso, agora me aparecia o cowboy bipolar.

 – Você é estranho.

– Hahahaha. Eu? Por quê?

– Me trata mal e agora quer ser meu amigo.

– Eu não quero ser seu amigo, só fiquei com pena de te ver aqui sozinha.

– Pode guardar sua pena pra você, obrigada!

– Tudo bem, então. Não vou mais te atrapalhar – ele falou e se levantou.

– Não. Fica aí.

Beto me olhou como se agora a louca fosse eu.

– Por favor?

O sol estava indo embora e a ideia de ficar sozinha no meio do mato não me parecia nada interessante.

– Depois eu é que sou estranho.

Sorri e ele balançou a cabeça sorrindo também.

– Não quero mais falar com Júlia hoje. Mas não sei como vou voltar pra minha casa. Aqui nesse fim de mundo o celular não funciona. Nem ligar para o meu pai eu posso.

– Se eu fosse pra cidade até te levaria. Mas vou dormir na fazenda dos meus pais, que fica há dez minutos daqui. Não vou sair, com esse temporal que tá ameaçando cair, só pra te deixar em casa.

Fiquei olhando pra ele sem acreditar em tamanha ignorância. Não que ele precisasse me fazer o favor, mas não havia necessidade de ser tão grosso.

– Hahahaha. Se eu fosse tão mau quanto você tá pensando, até eu me odiaria. Pare de me olhar assim, eu vou te levar em casa.

O vento começou a soprar muito forte e uma chuva violenta despencou sobre nossas cabeças. O final da tarde virou noite em segundos e a única coisa que iluminava o céu eram os relâmpagos.

– Vem logo, é perigoso ficarmos expostos no campo com todos esses raios.

– Estou tentado ir o mais rápido que posso – falei.

Um trovão, que parecia destruir todas as paredes do céu, ecoou lá em cima e me fez parar assustada.

– Vamos logo! Não temos tempo pra ter medo – Beto segurou na minha mão e voltamos correr.

Corremos, corremos, corremos e nada do carro.

– Meu Deus, onde tá esse carro que não chega nunca?

– Quem mandou você vim chorar suas lamentações tão longe?

– Grosso.

Outro trovão explodiu no céu e o abracei involuntariamente.

– Não devia abraçar um grosso.

– Desculpa – falei e fui me afastando

– Para com isso e vem logo.

Ele colocou o braço sobre meus ombros e caminhamos até chegar no carro.

– Pronto. Pode entrar e parar de reclamar.

Estávamos completamente ensopados.

– Tem certeza que não quer pedir alguma roupa emprestada a sua amiga? Você vai ficar doente desse jeito.

– Não. Só quero ir embora.

Ele ligou o carro e em poucos minutos saímos da fazenda do pai de Júlia. Não sei se ela estava preocupada comigo ou desejando a minha morte, mas eu não ia falar nada.

A chuva estava muito forte e a visibilidade péssima. Beto tentava andar mais rápido, mas como a estrada era de barro, o carro deslizava muito.

– Não sei pra que fui pegar o carro do meu pai justamente hoje. O meu anda muito melhor nessa estrada de lama.

Ele mal acabou de falar e um barulho forte invadiu o carro nos fazendo rodopiar.

– O pneu estourou!

– Não acredito! E agora?

– Fique aí que vou trocar.

– Mas a chuva tá muito forte. Espere um pouco.

– Essa chuva não vai passar tão cedo. Se quisermos sair daqui ainda hoje é melhor eu ir logo.

Beto desceu e começou a trocar o pneu. Já tinha se passado muito tempo e ele não terminava. Resolvi tentar ajudá-lo.

– Volte para o carro! – ele gritou.

– Eu quero te ajudar. A chuva tá muito forte, você precisa sair daí.

– Eu já estou acostumado. Entre logo nesse carro.

Entrei e fiquei esperando aquele ignorante terminar. Aproximadamente dez minutos depois ele acabou.

– Não podemos ir pra sua casa hoje.

– O quê? Não. Eu preciso ir.

– Depois dessa chuva, esse carro não passa no riacho que tem logo à frente de jeito nenhum.

Comecei a chorar.

– Não. Meus pais devem estar preocupados. Avisei que voltaria no final da tarde. Por favor?

– Carol. Posso te chamar assim?

– Claro.

– Carol, eu te levaria, mas não tem como passar no riacho com esse carro. Deve tá muito cheio.

– Então vamos pegar o seu. Você não disse que ele é apropriado para esse tipo de estrada.

– Eu sei que você quer muito ir embora, mas é perigoso ficarmos andando com toda essa chuva. Você não viu o que acabou de acontecer?

Beto tinha razão. Ele não podia fazer nada e nem eu. A única opção era chorar e foi isso que fiz.

– Não fique assim. Está tudo bem.

Ele me abraçou e passou a mão no meu cabelo.

– Vamos pra fazenda dos meus pais. Dormimos lá e amanhã bem cedo eu te levo em casa.

– Não tenho escolha mesmo.

– Que menina mal agradecida.

– Desculpe, não quis dizer o que eu disse.

– Tudo bem. Vou desculpar, mesmo não merecendo.

Beto fez a curva e voltamos a 5 km/h para evitar que outro pneu estourasse. Após quarenta minutos chegamos ao local onde ele disse ser a casa dos pais.

– Que escuridão é essa? Não mora ninguém aqui? – perguntei assustada

– Não sei o que está acontecendo. Meus pais deveriam estar em casa.

– Pai!!!! Mãe!!!!

Ninguém respondia. Comecei a ter medo dele ser um mentiroso e está tentando fazer algum mal pra mim. Não era possível. Era?

– Pai!!!! João Victor!!

– Acho que eles saíram. Eu tenho uma chave extra aqui no carro em algum lugar.

Ele começou a procurar a chave.

– Abri a porta do carro e saí correndo desesperada no meio do nada. Eu não ia ficar ali esperando ele fazer alguma atrocidade comigo.

– Ei, espere aí! Pra onde você pensa que vai?

Eu mais escorregava do que corria naquela lama. Comecei a gritar por socorro e ele me alcançou.

– Me solte. Me solte. Socorro!!!

– Pare com isso. Você enlouqueceu?

Beto segurou meus ombros.

– Você me trouxe pra essa casa vazia para se aproveitar de mim.

– Escute aqui. Acho melhor você me respeitar. Eu sou muito burro mesmo, vou tentar te ajudar e ainda levo o nome de tarado. Então fique aí e se vire sozinha.

Ele foi embora e fiquei perdida no meio da escuridão. A chuva não dava uma trégua e o frio fazia meu corpo inteiro tremer. Cruzei meus braços e permaneci no mesmo lugar, não dava para ver nada. Era melhor ficar parada do que cair em um buraco.

Frio, muito frio. Talvez aquele fosse o último dia da minha vida e não tinha sido nada grandioso.

– Ei, você querer morrer mesmo?

A voz grossa de Beto falou atrás de mim.

– Deixa de ser idiota. Não tá vendo que não vou fazer nada com você.

Meu coração dizia que Beto não podia ser tão ruim. Resolvi escutá-lo e fui com ele para dentro de casa. O temporal tinha acabado com a luz elétrica e apenas um lampião a gás iluminava a sala.

– Separei essa roupa pra você. É minha. Vai ficar grande, mas é melhor do que ficar doente.

Uma calça moletom branca e um camiseta preta. Ele apontou a direção do banheiro e acendeu uma vela para que eu levasse e conseguisse ver alguma coisa. Troquei de roupa e voltei para sala.

– Deixei um cobertor aí no sofá. Agora vou para o meu quarto, boa noite.

– Eu vou ficar aqui sozinha?

Eu morria de medo de todos aqueles trovões que pareciam anunciar o fim do mundo.

– E vai querer um tarado perto de você?

– Me desculpa, Beto. Eu fiquei assustada. Tenta me entender um pouco. São muitas coisas em um só dia.

– Só tem um sofá. Vamos ter quer deitar juntos. Tem certeza que acha melhor eu ficar?

– Sim. Eu afasto e cabe nós dois tranquilamente.

O sofá, apesar de único, era bem grande e comprido. Devia caber umas seis pessoas sentadas nele. Beto deitou e fiquei ao lado dele.

– Ainda tá com raiva de mim?

– Não, Carol. Passou. Já percebi que você não bate muito bem da cabeça.

– Kkkkk. Só você que pensa isso. Minha cabeça bate tão bem que até passei no vestibular de medicina.

– Lá vem a doutora.

Nós dois começamos a sorrir e Beto me puxou para perto dele. Encostei a cabeça no seu peito e senti um friozinho na barriga imediatamente. Me obriguei a parar de pensar besteira. Amigo, Carol. Já chega de decepções.

– Devia ter deixado você lá fora.

– Ah, é? Se tá tão ruim assim, vou esperar amanhecer dentro do carro.

Fiz que ia me levantar mas ele me segurou. Nossos olhares se encontraram e meu coração avisou que aqueles eram os segundos mágicos que antecediam o beijo.

Beto deslizou a mão na minha nuca e me beijou lentamente.

Tchum! Todas as luzes da casa se acenderam e alguém abriu a porta.

Beto? Quem é essa mulher?

 

Continua…

 


 

Plá: 

Se neste final de semana a vida te apresentar um Beto, se joga. Mas, mantenha sempre um paraquedas de reserva, nunca sabemos se será preciso usá-lo. 

 

9 comentários em “Vida de Solteira – 9: Tempestade

  1. Eu quero um Beto na minha vida. Um Beto, não jm Rodrigo. Júlia para de escândalo. Que pena que seu pai descobriu desse jeito, mas a Carol não tem nada com isso. Para de chorar pelo Diego e faz que nem a Carol. Se joga nos Betos a vida. Amei o capítulo e já Quero o próximo pra ontem!!!

  2. Toda garota merece um Beto, mesmo existindo tantos Rodrigos que não dão valor para os sentimentos de uma mulher, os Betos existem para nos fazer feliz!❤😍

  3. Nossa, mas que falta de sorte é essa? Kkk
    Eita, que parece que o Beto agora vai kķ
    Será Julia que abriu a porta? Kk ou o caseiro?
    Só quero ver essa continuação ❤👏
    Ameei Todas🙌😍👏
    Parabéns 🍀

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